Como a genética está mudando o que entendemos por “raça”

Por David Reich*

Em 1942, o antropólogo Ashley Montagu publicou “O Mito Mais Perigoso do Homem: A Falácia da Raça”, um livro influente que defendia que a raça é um conceito social sem nenhuma base genética. Um exemplo clássico, frequentemente citado, é a definição inconsistente de “negro”. Nos Estados Unidos, historicamente, uma pessoa é “negra” se ela tem alguma ancestralidade africana subsaariana; no Brasil, uma pessoa não é “negra” se ela tiver qualquer ancestralidade europeia. Se “negro” se refere a diferentes pessoas em diferentes contextos, como poderia haver alguma base genética para isso?

A partir de 1972, descobertas genéticas começaram a ser incorporadas a esse argumento. Naquele ano, o geneticista Richard Lewontin publicou um estudo importante sobre a variação de tipos de proteína no sangue. Ele agrupou as populações humanas que analisou em sete “raças” — eurasiáticos ocidentais, africanos, asiáticos orientais, sul-asiáticos, nativos americanos, oceanianos e australianos — e edescobriu que cerca de 85% da variação nos tipos de proteína poderia ser explicada pela variação dentro das populações e “raças”, e apenas 15% pela variação entre elas. Até onde havia variação entre humanos, concluiu ele, a maior parte dela era devido a “diferenças entre indivíduos”.

Dessa forma, firmou-se um consenso de que entre as populações humanas não há diferenças grandes o suficiente para apoiar o conceito de uma “raça biológica”. Em vez disso, defendeu-se, a raça é uma “construção social”, um modo de categorizar as pessoas que muda ao longo do tempo e através dos países.

É verdade que a raça é uma construção social. Também é verdade, como escreveu o Dr. Lewontin, que as populações humanas “são marcadamente similares umas às outras” do ponto de vista genético. Mas ao longo dos anos esse consenso se transformou, aparentemente sem questionamento, numa ortodoxia. A ortodoxia afirma que as diferenças genéticas médias entre as pessoas agrupadas de acordo com os termos raciais de hoje são tão triviais no que diz respeito a características biológicas significantes que essas diferenças podem ser ignoradas.

A ortodoxia vai além, defendendo que devemos ficar apreensivos diante de qualquer pesquisa sobre diferenças genéticas entre populações. A preocupação é que tais pesquisas, não importa o quão bem intencionadas são, alojam-se num declive escorregadio que leva a tipos de argumentos pseudocientíficos sobre a diferença biológica que foram usados no passado para tentar justificar o comércio de escravos, o movimento da eugenia e o assassinato de seis milhões de judeus pelos nazistas.

Tenho grande simpatia pela preocupação de que as descobertas genéticas poderiam ser abusadas para justificar o racismo. Mas, como geneticista, também sei que simplesmente não é mais possível ignorar diferenças genéticas médias entre as “raças”.

Avanços inovadores na tecnologia de sequenciamento do DNA foram feitos nas últimas duas décadas. Esses avanços permitem que meçamos com precisão primorosa que fração da ancestralidade genética de um indivíduo pode ser rastreada para, digamos, a África ocidental de 500 anos atrás — antes da mistura, nas Américas, dos pools gênicos da África ocidental e da Europa, que foram quase completamente isolados por ao menos 70 mil anos. Com o auxílio dessas ferramentas, estamos aprendendo que, enquanto a raça pode ser um constructo social, as diferenças na ancestralidade genética que se correlacionam a muitos dos constructos raciais de hoje são reais.

Estudos genéticos recentes demonstraram diferenças entre as populações não apenas nos determinantes genéticos de características simples como cor da pele, mas também em características mais complexas como as dimensões corporais e a susceptibilidade a doenças. Por exemplo, sabemos agora que fatores genéticos ajudam a explicar por que os europeus setentrionais são em média mais altos que os europeus meridionais, por que a esclerose múltipla é mais comum em euroamericanos do que em afroamericanos, e por que o contrário é o caso para a doença renal em fase terminal.

Estou preocupado que pessoas bem intencionadas que negam a possibilidade de diferenças biológicas substanciais entre as populações humanas estão se metendo numa posição indefensável, que não sobreviverá à ofensiva da ciência. Também estou preocupado que, quaisquer que sejam as descobertas que serão feitas — e de fato ainda não sabemos quais serão elas –, serão citadas como “prova científica” de que preconceitos e agendas racistas estavam certos esse tempo todo, e que todos esses bem intencionados não entenderão a ciência bem o suficiente para afastar essas alegações.

É por isso que é importante, até urgente, que desenvolvamos um modo franco e cientificamente atualizado de discutir quaisquer de tais diferenças, em vez de enfiarmos nossas cabeças num buraco e sermos pegos desprevenidos quando elas forem descobertas.

Para ter uma noção da aparência da pesquisa genética moderna sobre as diferenças biológicas médias entre as populações, considere um exemplo do meu próprio trabalho. Por volta de 2003, comecei a explorar se a mistura populacional que ocorreu nos últimos poucos séculos nas Américas poderia ser aproveitada para achar fatores de risco para o câncer de próstata, uma doença que ocorre 1,7 vezes mais em autoidentificados afroamericanos do que em autoidentificados euroamericanos. Não era possível explicar essa disparidade com base em diferentas de dieta ou ambientais, sugerindo que fatores genéticos podem ter um papel.

Revelou-se que os autoidentificados afroamericanos derivam, em média, cerca de 80% de sua ancestralidade genética dos africanos escravizados trazidos aos EUA entre os séculos XVI e XIX. Meus colegas e eu procuramos, em 1597 homens afroamericanos, por localizações no genoma em que havia mais contribuição de genes de ancestrais do ocidente africano do que em outras partes do genoma. Em 2006, descobrimos exatamente o que estávamos procurando: um local no genoma com cerca de 2,8% mais ancestralidade africana do que a média.

Quando buscamos em mais detalhes, descobrimos que essa região continha ao menos sete fatores independentes de risco para o câncer de próstata, todos mais comuns em africanos ocidentais. Nossas descobertas podiam explicar totalmente a taxa mais alta de câncer prostático em afroamericanos que em euroamericanos. Pudemos fazer essa conclusão porque afroamericanos que tinham ancestralidade totalmente europeia nessa seção pequena de seus genomas tinham aproximadamente o mesmo risco de câncer de próstata que europeus aleatórios.

Essa pesquisa dependeu de termos como “afroamericano” e “euroamericano”, que são socialmente construídos, e rotulou segmentos do genoma como sendo provavelmente “africanos ocidentais” ou “europeus” em sua origem? Sim. Essa pesquisa identificou riscos reais de doença que diferem em frequência entre essas populações, levando a descobertas com o potencial de melhorar a saúde e salvar vidas? Sim.

Enquanto a maioria das pessoas concordarão que encontrar uma explicação genética para um risco maior de doença é importante, elas muitas vezes traçarão ali os seus limites. Descobrir influências genéticas sobre uma propensão à doença é uma coisa, argumentam, mas procurar por tais influências no comportamento e na cognição é outra.

Mas, quer gostemos ou não, esse limite já foi ultrapassado. Um estudo recente, chefiado pelo economista Daniel Benjamin, compilou informações sobre o número de anos de educação de mais de 400 mil pessoas, quase todas as quais era de ancestralidade europeia. Depois de controlar para diferenças no histórico socioeconômico, ele e seus colegas identificaram 74 variações genéticas que são sobrerrepresentadas em genes conhecidos como importantes no desenvolvimento neurológico, cada uma das quais é incontestavelmente mais comum em europeus com mais anos de educação do que em europeus com menos anos de educação.

Ainda não está claro como essas variações genéticas trabalham. Um estudo seguinte em islandeses, chefiado pelo geneticista Augustine Kong, mostrou que essas variações genéticas também dão um empurrãozinho para as pessoas que as carregam esperarem mais para terem filhos. Então, essas variações podem chegar a explicar mais tempo na escola ao afetarem um comportamento que não tenha nada a ver com a inteligência.

Juntaram-se a esse estudo outros que descobriram preditores genéticos do comportamento. Um desses estudos, chefiado pela geneticista Danielle Posthuma, envolveu mais de 70 mil pessoas e descobriu variações genéticas em mais de 20 genes que eram preditivas de performance em testes de inteligência.

A performance em um teste de inteligência ou o número de anos dedicados à escola por uma pessoa são moldados pelo modo como uma pessoa é criada? Claro que sim. Mas medem algo que tenha a ver com algum aspecto do comportamento e da cognição? Quase certeza que sim. E, dado que se espera que todas as características influenciadas pela genética difiram entre as populações (porque as frequências das variações genéticas são raramente as mesmas entre as populações), as influências genéticas sobre o comportamento e a cognição diferirão entre as populações, também.

Você vai às vezes ouvir que quaisquer diferenças biológicas entre as populações são provavelmente pequenas, porque a divergência de seres humanos de ancestrais em comum é recente demais para que diferenças substanciais tivessem surgido sob a pressão da seleção natural. Isso não é verdade. Os ancestrais dos asiáticos orientais, europeus, africanos ocidentais e australianos estavam, até recentemente, quase completamente isolados uns dos outros por 40 mil anos ou mais, que são mais que tempo suficiente para que as forças da evolução trabalhem. Na verdade, o estudo chefiado pelo Dr. Kong mostrou que, na Islândia, houve seleção genética mensurável contra as variações genéticas preditivas para mais anos de educação naquela população só no último século.

Para entender por que é tão perigoso para geneticistas e antropólogos simplesmente repetir o velho consenso sobre as diferenças entre populações humanas, considere que tipos de vozes estão preenchendo a lacuna que nosso silêncio está criando. Nicholas Wade, um jornalista de ciência de longa data para o New York Times, nota com razão em seu livro de 2014, “Uma Herança Problemática: Genes, Raça e História Humana” [trad. livre], que a pesquisa moderna está desafiando nosso pensamento sobre a natureza das diferenças populacionais humanas. Mas ele parte para a alegação infundada e irresponsável de que essa pesquisa está sugerindo que fatores genéticos explicam estereótipos tradicionais.

Uma das principais fontes do sr. Wade, por exemplo, é o antropólogo Henry Harpending, que afirmou que as pessoas de ancestralidade africana subsaariana não têm propensão a trabalhar quando não precisam porque, ele alega, elas não passaram pelo tipo de seleção natural para o trabalho duro dos últimos milênios à qual os eurasiáticos foram submetidos. Simplesmente não há evidências científicas que apoiem essa afirmação. De fato, como apontaram 139 geneticistas (eu incluso) numa carta ao New York Times sobre o livro do sr. Wade, não há evidência genética para apoiar qualquer um dos estereótipos racistas que ele promove.

Outro exemplo notável é James Watson, o cientista que em 1953 co-descobriu a estrutura do DNA, e que foi forçado a se aposentar como chefe dos Laboratórios Cold Spring Harbor em 2007 após dizer numa entrevista — sem qualquer evidência científica — que a pesquisa sugeriu que fatores genéticos contribuiram para uma menor inteligência nos africanos em relação aos europeus.

Numa reunião anos depois, o Dr. Watson disse a mim e à minha colega geneticista Beth Shapiro algo como “Quando é que vocês vão descobrir por que vocês judeus são tão mais inteligentes que os outros?” Ele asseverou que os judeus têm muito sucesso por causa de vantagens genéticas conferidas por milênios de seleção natural em direção a serem acadêmicos, e que os estudantes asiáticos orientais tendiam a ser conformistas por causa da seleção para a conformidade na antiga sociedade chinesa. (Contactado recentemente, o Dr. Watson negou ter feito proferido essas frases, defendendo que elas não representam as suas opiniões; a Dra. Shapiro disse que suas memórias batem com as minhas.)

O que faz as afirmações do Dr. Watson e do sr. Wade tão insidiosas é que elas começam com a observação precisa de que muitos acadêmicos estão negando, implausivelmente, a possibilidade das diferenças genéticas médias entre populações humanas, e então terminam com uma alegação — baseada em evidência nenhuma — de que sabem quais são essas diferenças e que elas correspondem a estereótipos racistas. Eles usam a relutância da comunidade acadêmica a discutir abertamente esses assuntos sensíveis para dar uma cobertura retórica a ideias odiosas e velhos boatos racistas.

É por isso que cientistas sábios devem falar. Se nos abstermos de dar um arcabouço racional para a discussão das diferenças entre as populações, nos arriscamos a perder a confiança do público e contribuímos para a desconfiança contra a expertise que é agora tão prevalente. Deixamos um vácuo que é preenchido pela pseudociência, um resultado que é bem pior que qualquer coisa que pudéssemos realizar falando abertamente.

Se os cientistas podem estar confiantes de qualquer coisa, é que o que acreditamos no momento a respeito da natureza genética das diferenças entre populações é bem provável de estar errado. Por exemplo, meu laboratório descobriu, em 2016, com base no nosso sequenciamento de antigos genomas humanos, que os “brancos” não derivam de uma população que existiu desde tempos imemoriais, como acreditam algumas pessoas. Em vez disso, os “brancos” representam uma mistura de quatro populações antigas que viveram 10 mil anos atrás que eram cada uma tão diferente uma da outra quanto os europeus são diferentes de asiáticos orientais hoje.

Então, como deveríamos nos preparar para a probabilidade de que, nos anos vindouros, os estudos genéticos mostrarão que muitas características são influenciadas por variações genéticas, e que essas características diferirão em média através das populações humanas? Será impossível — na verdade, será anticientífico, tolo e absurdo — negar essas diferenças.

Para mim, uma resposta natural ao desafio é aprender do exemplo das diferenças biológicas que existem entre homens e mulheres. As diferenças entre os sexos são muito mais profundas do que as que existem entre populações humanas, refletindo mais de 100 milhões de anos de evolução e adaptação. Homens e mulheres diferem entre si por enormes frações de material genético — um cromossomo Y que os homens têm e as mulheres não têm, e um segundo cromossomo X que as mulheres têm e os homens não têm.

Quase todo mundo aceita que as diferenças biológicas entre homens e mulheres são profundas. Além de diferenças anatômicas, homens e mulheres exibem diferenças médias em tamanho e força física. (Há também diferenças médias no temperamento e no comportamento, embora haja importantes questões não resolvidas sobre até que ponto essas diferenças são influenciadas por expectativas sociais e pela criação.)

Como acomodamos as diferenças entre homens e mulheres? Creio que a resposta é óbvia: devemos tanto reconhecer que diferenças genéticas entre homens e mulheres existem quanto conceder a cada sexo as mesmas liberdades e oportunidades independentemente dessas diferenças.

É evidente nas desigualdades que persistem entre mulheres e homens na nossa sociedade que concretizar essas aspirações é um desafio. Mas, conceitualmente, é fácil de entender. E se esse é o caso para homens e mulheres, então certametne é o caso para quaisquer diferenças que possamos encontrar entre populações humanas, a grande maioria das quais serão bem menos profundas.

Um desafio persistente para a nossa civilização é tratar cada ser humano como um indivíduo e dar poder a todas as pessoas, não importa que cartas elas receberam do jogo da vida. Comparadas às enormes diferenças que existem entre os indivíduos, as diferenças entre as populações são em média muitas vezes menores, então deve ser modesto o desafio de acomodar uma realidade em que as contribuições genéticas médias para características humanas diferem.

É importante encarar o que a ciência revelará sem prejulgar os resultados e com a confiança de que podemos ser maduros o suficiente para lidar com qualquer descoberta. Defender que não são possíveis diferenças substanciais entre populações humanas apenas convidará o abuso racista da genética que queremos evitar.

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* David Reich é professor de genética em Harvard e autor de um livro a ser publicado em breve, “Quem somos e como viemos parar aqui: DNA antigo e a nova ciência do passado humano” [trad. livre], de onde este artigo foi adaptado. Publicado originalmente em The New York Times, 23 de março de 2018.

Tradução: Eli Vieira
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