Os Dois Pinkers: Resenha de “O Novo Iluminismo” de Steven Pinker

Dou parte do crédito a Steven Pinker por eu ter percebido, por volta da metade do meu tempo de universidade, que eu não era esquerdista. Suspeitando da afirmação de que as facetas mais importantes da vida humana — gênero, linguagem, família, ciência, moralidade — eram “construções sociais”, uma asserção popular nos cursos de humanidades sem base nenhuma no mundo natural, baixei uma cópia do livro de Pinker de 2002, Tábula Rasa: A Negação Moderna da Natureza Humana. O livro defendia que a ideia da tábula rasa — “que a mente humana não tem nenhuma estrutura inerente e que nela a sociedade ou nós mesmos podemos gravar o que quisermos” — foi primeiro proposta por “pensadores iluministas”, entre eles Locke, Rousseau e Mill, e que a ela se apegavam reformadores sociais e acadêmicos como “a religião secular da vida intelectual moderna”. Mas a ideia não poderia mais sobreviver ao escrutínio empírico. Na verdade, mostrou Pinker, muitas características que definem a natureza humana, boas e más, são codificadas nos nossos cérebros antes de nascer.

Pinker é psicólogo, mas seu argumento tinha óbvias implicações para a filosofia política. A noção da tábula rasa, disse ele, sugeria uma “visão utópica” da natureza humana que, em suas versões mais obstinadas, ajudou a justificar atrocidades como a da Revolução Francesa e do maoísmo. Em contrapartida, a psicologia evolutiva moderna, com seu entendimento da incrustação dos vícios do homem, sugeria uma “visão trágica” da natureza humana, que Pinker associou a figuras anglo-americanas que tendem ao conservadorismo, como Edmund Burke, Adam Smith, Alexander Hamilton e James Madison.(1)N. do T.: O autor se engana ao creditar a terminologia de “visão trágica” e “visão utópica” a Pinker. Claramente Pinker estava citando a obra A Conflict of Visions, de 1987, de Thomas Sowell. De acordo com a visão trágica, “humanos são inerentemente limitados em conhecimento, sabedoria e virtude, e todos os arranjos sociais devem reconhecer esses limites”. Para essa visão, esquemas deslumbrados de transformação social provavelmente terminam mal. Pinker nunca foi um conservador do tipo Republicano, e acreditava que a política humana e progressista era possível sem o mito da tábula rasa. Mas ele argumentou que “a primazia dos laços familiares em todas as sociedades humanas”, “a universalidade da dominância e da violência”, “os vieses do senso moral humano” e a “relação inversa inerente entre a igualdade e a liberdade” deveriam ao menos dar uma pausa no anseio por uma sociedade em perfeita conformidade com os ideais liberais.(2)N. do T.: Lembrar que no contexto dos Estados Unidos “liberal” é uma palavra usada como sinônimo da esquerda tradicional, nem sempre sendo sinônimo de “liberal” no sentido de compromisso mais firme com liberdades sociais e econômicas do indivíduo. Aqui, usaremos sempre a tradução literal, deixando as ambiguidades a cargo do autor original.

O livro mais recente de Pinker, no entanto, é um flerte estendido com a utopia que ele já descreveu como perigosamente deturpadora. Em O Novo Iluminismo: Em Defesa da Razão, da Ciência e do Humanismo, Burke é jogado fora. Pinker agora defende que a humanidade pode e vai progredir em direção a cada vez mais cosmopolitismo, secularismo, razão e cooperação. “Alguns tipos de mudança parecem mesmo ser tocados por uma força tectônica inexorável”, escreve ele. “Enquanto progridem, algumas facções se opõem com unhas e dentes, mas a resistência se revela fútil”.

Enquanto Tábula Rasa alertou que os seres humanos são programados incorrigivelmente para favorecer o próprio grupo acima de estranhos, Novo Iluminismo insiste que “nada pode parar a expansão do círculo da empatia da família e da tribo para englobar toda a humanidade” porque “a razão nos estimula a perceber que não pode haver nada de singularmente merecedor a respeito de nós mesmos ou quaisquer dos grupos aos quais pertencemos”. Enquanto Tábula Rasa realçava a base genética da agressividade humana, Novo Iluminismo sugere que “a guerra pode ser só mais um obstáculo que uma sociedade esclarecida aprende a superar”. E enquanto Tábula Rasa reconhecia a possibilidade de que a religião e outras instituições não totalmente justificáveis pela razão pura poderiam oferecer “técnicas testadas pelo tempo que nos deixam driblar as limitações da natureza humana”, Novo Iluminismo ironiza a observância religiosa como uma fonte de “moralidade da Idade do Ferro” e celebra seu declínio registrado ao redor do mundo.

Para ser sincero, a tese mais limitada de Novo Iluminismo — que a vida melhorou de muitos jeitos nos últimos séculos — é claramente verdadeira. Com uma coleção estonteante de gráficos, Pinker ilustra as melhorias fantásticas na riqueza, saúde, segurança e longevidade que aconteceram desde que “a Revolução Científica e o Iluminismo iniciaram o processo do uso do conhecimento para melhorar a condição humana”. Ele entrega algumas alfinetadas bem merecidas contra o “declinismo” que prevalece em certos rincões da esquerda e da direita. “A fórmula padrão do crítico social para semear o pânico”, escreve Pinker, é dizer “eis uma anedota, portanto é uma tendência generalizada, portanto é uma crise”. Ele observa corretamente que as previsões de desastre e tragédia muitas vezes têm mais apelo intelectual que avaliações realistas. Novo Iluminismo é valioso para nos lembrar dos frutos de sucessos morais e científicos relativamente recentes, da eliminação da Varíola à abolição de execuções públicas via tortura.

O problema começa com a contabilidade que Pinker faz das formas como esses sucessos foram assegurados e as inferências dele sobre o futuro da ordem social. Ele aponta para algumas instituições, algumas das quais criadas no Iluminismo, como fontes de progresso: governos limitados, decisões democráticas, mercados abertos, liberdade de consciência, o processo científico de revisão por pares. Juntas, essas são facetas do que agora chamamos de liberalismo. Enquanto pensadores como Patrick Deneen, da Universidade de Notre Dame, se propõem a explicar “por que o liberalismo fracassou”, Pinker responde que o liberalismo iluminista está funcionando melhor que nunca — que essas instituições continuam a tornar a vida melhor para quase todos.

Mas por que estão tornando a vida melhor? A visão utópica e a visão trágica oferecem respostas diferentes. Na visão utópica, as instituições liberais valem a pena porque expandem a nossa autonomia, permitindo a nós que gravemos nossa própria história sobre a tábula rasa. Os mercados nos libertam para que nos satisfaçamos pelo empreendimento. As eleições nos oferecem uma chance de autodeterminação. A livre expressão permite que manifestemos nossos pensamentos como desejarmos. Todas essas liberdades moldam a natureza humana de tal forma que nos tornamos mais razoáveis, solidários e humanos. O propósito da vida é a realização cada vez maior dos ideais liberais — a expansão da autonomia, da ciência e da auto-expressão a um número crescente de esferas.

Na visão trágica, pelo contrário, as instituições liberais funcionam não através da libertação mas através da restrição. A função dos mercados é distribuir o poder econômico por toda a sociedade e portanto minimizar as chances do desmando dos planejadores centrais. A função das eleições é reduzir a probabilidade da violência pela oferta de meios alternativos de transferência do poder político. A função da livre expressão não é dar a todos um megafone, mas assegurar que as ideias ruins possam ser refutadas. Na visão trágica, os indivíduos são e sempre serão orientados em direção ao status, tribais e agressivos, mas uma sociedade pode se tornar crescentemente mais pacífica e humana em virtude do maquinário liberal para criar conhecimento, limitar a violência e proteger certos direitos. Para essa visão, o liberalismo não é o propósito da vida, mas um meio de criar uma sociedade na qual as pessoas queiram viver.

Novo Iluminismo abandona a visão trágica, se enveredando por uma utopia que as próprias evidências de Pinker não podem apoiar. Sem se afastar do seu repúdio à tábula rasa, Pinker parece sugerir que a sociedade na verdade pode reorganizar o caráter intrínseco da mente humana em conformidade com os valores da “razão, ciência e humanismo”. Ele tem confiança de que a educação pode inocular “as pessoas contra teorias da conspiração, contra o raciocínio anedótico e a demagogia emocional” e que “os valores liberais são uma escada rolante de longo prazo”. Cada nova geração é “mais tolerante e liberal que a anterior”; portanto, sentimentos anti-iluministas “dissipar-se-ão com a demografia”. Conforme as pessoas se tornam mais racionais, seus compromissos tribais vão se enfraquecer constantemente, inclusive com seu país, que é meramente “uma coleção de dezenas de milhões de seres humanos que calham de ocupar a mesma faixa de terra”. Conforme as pessoas se tornam mais autônomas em virtude do progresso tecnológico e do declínio da autoridade religiosa, vão se tornar mais felizes. O que lhes faltar de felicidade é porque “têm uma apreciação adulta da vida, com toda a sua preocupação e agitação”.

Considerando o desenvolver dos eventos nas universidades de elite, eu questionaria se o regime que nos espera quando os estudantes de hoje estiverem no poder será mesmo o humanismo esclarecido de governo limitado. Observando a ascensão da astrologia na esquerda secular e o fascismo na direita secular, também me pergunto se o recuo da religião organizada dá espaço ao triunfo da razão, em vez de convidar novas e talvez mais insalubres formas de desrazão. Mas deitemos de lado as alegações empíricas de Pinker, sobre as quais os entendedores dos números podem se digladiar eternamente. O que importa é que Novo Iluminismo é um resumo de um liberalismo mais abrangente do que Pinker endossava antes, em que razão, ciência, humanismo e progresso podem sobrescrever as tendências não-liberais que Tábula Rasa defendeu que eram inscritas em nossos próprios cérebros.

O antigo Pinker reemerge ocasionalmente em Novo Iluminismo, levando a um tipo de incoerência. Numa página, o Pinker Utópico anuncia a disseminação da democracia e da razão como se andassem juntas. Noutra, o Pinker Trágico reconhece que “as reformas que são projetadas para fazer o governo mais ‘democrático’ … podem em vez disso fazê-lo mais identitário e irracional”. O Pinker Utópico vê a disseminação da educação como neutralizante à resistência contra o pensamento iluminista. O Pinker Trágico reconhece que “expertise, potência cerebral e raciocínio consciente… podem ser armas para racionalizações cada vez mais engenhosas”. Enquanto o Pinker Utópico dispensa “a ‘estabilidade’ mítica do confronto de Guerra Fria” e a noção de que a geopolítica de interesse próprio pode reduzir a chance de violência catastrófica, o Pinker Trágico reconhece que os “enormes poderes destrutivos dos exércitos americano e soviético… fizeram os superpoderes da Guerra Fria pensarem duas vezes sobre confrontar um ao outro no campo de batalha”.

Conflitos entre as visões utópica e trágica se multiplicam quando Pinker tenta defender um sistema moral baseado nos argumentos de Novo Iluminismo. Uma das principais preocupações de Pinker em Tábula Rasa era mostrar que o princípio de igual tratamento poderia sobreviver ao reconhecimento de que as pessoas não nascem todas iguais. Para esse fim, ele escreveu que “os humanos são sencientes, portadores de dignidade e direitos, e infinitamente preciosos”. Ele apelou à Declaração da Independência, que tem tons religiosos, para defender que “a igualdade política é uma postura moral, não uma hipótese empírica”. Em outras palavras, por estar além do que pode ser provado pela ciência, a igualdade é auto-evidente, não falseável e inegociável.

Esse argumento não se encaixa com conforto no Pinker Utópico de Novo Iluminismo. Por absolutos morais como direitos e igualdade serem impossíveis de justificar cientificamente, Novo Iluminismo defende que a moralidade deve ser baseada numa forma modificada de utilitarismo. Assegurar o prazer e a satisfação do maior número de indivíduos é “o código moral que ao qual as pessoas vão convergir quando são racionais”, escreve Pinker. Bem-estar humano agregado pode ser medido cientificamente; devemos ser céticos quanto a códigos morais baseados em “rubricas nebulosas como ‘dignidade’, ‘sacralidade’, e ‘justiça social’.” (Notavelmente, Pinker deixa escapar que “a vida é sagrada” quando argumenta contra a pena de morte, lembrando sua posição moral mais antiga.) De acordo com o Pinker de Novo Iluminismo, devemos geralmente cumprir os princípios da igualdade e da liberdade porque eles tendem a levar a mais prosperidade humana, não porque são verdadeiros em qualquer sentido mais profundo. Mas quando esses princípios não são mais “inalienáveis”, como devem ser sob a visão trágica do liberalismo, não se pode deixar de perguntar se são menos seguros.

O que explica a transição de Pinker de um liberal trágico, ciente dos limites da razão, a um liberal utópico, que pronuncia triunfalmente que todos os valores e instituições não-liberais vão se dissolver num mar de Esclarecimento? Parte da história pode ser a mudança da paisagem política. Em 2002, pode ter parecido que a esquerda acadêmica se apresentava como o maior desafio intelectual aos valores liberais no ocidente. Hoje esses valores precisam de defesa contra uma direita populista empoderada. Mas talvez, no populismo, não estamos vendo, como sugere Pinker, os últimos suspiros de um paroquialismo moribundo enquanto ele é eclipsado pela razão esclarecida. Talvez a mensagem correta para a nossa era é aquela que está em Tábula Rasa — isto é, que os liberais ocidentais, inebriados pelos excessos do Iluminismo, conjuraram uma visão da sociedade que é destacada das realidades da experiência humana. E talvez muitos cidadãos, ao reconhecerem que o liberalismo utópico não é liberalismo afinal, estejam exigindo que uma versão mais modesta seja restaurada.

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Por Jason Willick, editor do Wall Street Journal fellow do Intercollegiate Studies Institute. Publicado originalmente na edição de verão 2018 da Modern Age, revista do mesmo instituto.

Tradução: Eli Vieira

Notas   [ + ]

1. N. do T.: O autor se engana ao creditar a terminologia de “visão trágica” e “visão utópica” a Pinker. Claramente Pinker estava citando a obra A Conflict of Visions, de 1987, de Thomas Sowell.
2. N. do T.: Lembrar que no contexto dos Estados Unidos “liberal” é uma palavra usada como sinônimo da esquerda tradicional, nem sempre sendo sinônimo de “liberal” no sentido de compromisso mais firme com liberdades sociais e econômicas do indivíduo. Aqui, usaremos sempre a tradução literal, deixando as ambiguidades a cargo do autor original.

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