Pessoas mais religiosas e “ontologicamente confusas” compartilham mais papo furado nas redes sociais, conclui estudo

Um novo estudo descobriu que, quanto mais literalmente uma pessoa entende frases metafóricas, e quanto mais religiosa ela for, mais chances tem de compartilhar papo furado pseudoprofundo nas redes sociais.

A nova pesquisa, publicada na revista Applied Cognitive Psychology, replicou o estudo de 2015 de Gordon Pennycook sobre a recepção do papo furado — isto é, sobre a propensão a interpretar frases sem sentido como afirmações profundas — usando uma amostra de dois países do leste europeu.

Mas, diferente do estudo original, a nova pesquisa também examinou a disposição a compartilhar o papo furado.

“Estávamos estudando vieses cognitivos e sua relação com várias crenças sem fundamento, tais como alegações paranormais, teorias da conspiração e pseudociência”, disse uma autora do estudo, Vladimira Čavojová, da Academia Eslovaca de Ciências.

“Ao nos focarmos nesses tipos de crenças infundadas, vimos que as redes sociais estão cheias de disparates” (p. ex. tweets pseudoprofundos, que também são parte do estudo), e Pennycook e seus colaboradores inventaram um jeito muito original de testar esse tipo de receptividade geral ao papo furado.

“Também tínhamos interesse na propensão a compartilhar frases de papo furado porque as mídias sociais também permitem a dispersão rápida desse tipo de conteúdo”, explicou Čavojová.

No estudo, 76 participantes eslovacos e 45 romenos completaram várias medidas de recepção do papo furado, da disposição a compartilhar o papo furado pseudoprofundo, capacidades cognitivas e disposições de pensamento.

Exemplos de papo furado pseudoprofundo incluíram afirmações como “O significado oculto transforma a beleza abstrata sem paralelos” e “A plenitude aquieta fenômenos infinitos”. Os pesquisadores também incluíram dez tweets de Deepak Chopra, inclusive este: “A atenção e a intenção são mecanismos da manifestação”.

Pediu-se aos participantes que dessem uma nota do quão profundas eram as frases e qual era a chance de as compartilharem nas redes sociais.

Cavojova e seus colegas descobriram que as pessoas que eram mais receptivas ao papo furado e mais propensas a dizer que o compartilhariam tendiam a ter mais confusões ontológicas, a acreditar mais em teorias da conspiração e a serem mais religiosas.

“As pessoas mais propensas a considerar um disparate como profundo também têm mais chances de acreditar em outras coisas sem fundamento. Além disso, parece que, em especial, as pessoas mais religiosas e as pessoas com dificuldade de diferenciar entre várias categorias ontológicas (por exemplo, diferenciar entre afirmações metafóricas e frases literais) são mais vulneráveis a papo furado que soa transcendental como o que mensuramos”, contou Čavojová ao PsyPost.

Por exemplo, pessoas ontologicamente confusas interpretam frases como “Os móveis velhos sabem muito do passado” como mais literais do que metafóricas.

Os pesquisadores também descobriram que frases que foram classificadas como mais profundas tinham maior probabilidade de serem compartilhadas. Mas a disposição a compartilhar frases de papo furado era menor que as notas de profundidade.

“A mensagem positiva é que, mesmo que as pessoas caiam com frequência nesse tipo de papo furado, geralmente têm menos disposição a compartilhá-lo [do que a considerá-lo profundo]”, adicionou Čavojová.

O estudo — como qualquer pesquisa — inclui algumas limitações.

“A maior ressalva é que a medida que usamos — a escala de recepção de papo furado — é baseada em papo furado pseudotranscendental que pode ser criticado como muito intimamente relacionado a crenças espirituais (e na maior parte crenças de Nova Era). Embora os itens fossem gerados ao acaso e assim não tivessem nenhum sentido proposital, as pessoas ainda podiam achar algum significado pessoal neles (com base na vagueza deles e nas suas crenças pessoais)”, explicou Čavojová.

“Portanto, é necessário estudar o papo furado também num contexto não-transcendental, que nos permita determinar quais características do papo furado o fazem tão popular, controlando para o papel da espiritualidade pessoal”.

“Atualmente estamos trabalhando numa escala que permita que mensuremos a receptividade ao papo furado em domínios não-transcendentais, tais como a saúde e as relações interpessoais. Os resultados preliminares mostram que as pessoas não confiam em afirmações obscuras demais, mas sim em afirmações inverídicas que soam simples, que dependem de metáforas ou analogias imprecisas”, disse Čavojová.

O estudo, “Recepção e disposição a compartilhar papo furado pseudoprofundo e sua relação com outras crenças epistemicamente suspeitas e capacidade cognitiva na Eslováquia e na Romênia“, tem autoria de Vladimíra Čavojová, Eugen‐Călin Secară, Marek Jurkovič e Jakub Šrol.

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Por Eric W. Dolan, em PsyPost, 14 de novembro de 2018.

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