Negros e latinos são mais contrários que brancos a socar nazistas para silenciá-los, diz nova pesquisa nos EUA

Você diria que as pessoas devem ter direito de expressar opiniões impopulares em público, mesmo aquelas que são profundamente ofensivas para outras pessoas; ou que o governo deve impedir as pessoas de emitirem discurso de ódio contra certos grupos em público?

Essa foi a primeira pergunta de uma longa lista numa pesquisa sobre a liberdade de expressão e a tolerância que será publicada no fim do mês pelo Cato Institute, que colaborou com a YouGov, empresa de pesquisa de mercado, para coletar respostas. Os dados finais foram tirados de perguntas a uma amostra de 2300 pessoas. Obtive acesso precoce à pesquisa quando o instituto me convidou para ir a um painel de discussão dos resultados em Washington.

É sempre desorientador ver o que o público acredita, pois sempre está eivado de contradições; mas muitos dos resultados são interessantes para qualquer pessoa investida na vida cívica nos Estados Unidos.

Para começo de conversa, 59% dos americanos dizem que as pessoas devem poder expressar até opiniões profundamente ofensivas, enquanto 40% disseram que o governo deveria impedir as pessoas de emitir discurso de ódio, com divisões partidárias e raciais caracterizando os resultados.

Discurso de Ódio

Uma ampla maioria dos americanos acredita que “seria difícil banir o discurso de ódio porque as pessoas não concordam sobre que discurso é odioso”, incluindo 78% dos democratas, 77% dos latinos e 59% dos afro-americanos. E a noção de que a “liberdade de expressão assegura que a verdade no fim vai vencer” foi compartilhada por 70% dos latinos, 68% dos afro-americanos e 63% dos democratas.

Mas uma maioria dos americanos e uma grande maioria dos afro-americanos acreditam que “a sociedade pode poribir o discurso de ódio e ainda proteger a liberdade de expressão”. (Para complicar as coisas, um quarto dos americanos, 38% dos afro-americanos e 45% dos latinos acreditam erroneamente que já é ilegal fazer uma declaração racista em público.)

Quem deveria ser protegido do discurso de ódio? 46% apoiariam uma lei que tornasse ilegal dizer coisas ofensivas sobre afro-americanos; há menos apoio para um banimento de insultos contra outros grupos (41% para judeus, 40% para imigrantes e membros das forças armadas, 39% para hispânicos, 37% para muçulmanos, 36% para gays, lésbicas e pessoas transgêneros, 35% para cristãos).

47% dos latinos, 41% dos afro-americanos e 26% dos brancos favoreceriam uma lei que tornasse ilegal dizer coisas ofensivas sobre pessoas brancas em público.

Deveria haver uma lei que tornasse ilegal dizer coisas ofensivas e desrespeitosas em público sobre a polícia? 41% dos latinos dizem sim. Também 40% dos afro-americanos, 38% dos democratas e 36% tanto de independentes quanto de republicanos.

51% dos democratas favoreceriam uma lei “obrigado as pessoas a se referiram a uma pessoa transgênero pelo seus pronomes preferidos de gênero e não de acordo com seu sexo biológico”. A maioria dos afro-americanos, dos latinos, dos brancos e dos republicanos discordam.

A Bandeira

Os republicanos foram os mais intolerantes à expressão e os mais propensos a favorecer leis autoritárias para puni-la quando o assunto é queimar ou desrespeitar a bandeira americana: 72% dos republicanos acreditam qeu deve ser ilegal (junto com 46% dos democratas). Mais chocante, para mim, é que 53% dos republicanos e 49% dos latinos favorecem “remover a cidadania americana de uma pessoa se ela queimar a bandeira americana”. Proteger a bandeira acima da Constituição americana é um desentendimento.

O que deve levar a demissões?

Em geral, os americanos foram contrários a demitir pessoas de seus empregos por terem uma crença ofensiva. Um empresário deve ser demitido se ele acredita que afro-americanos são geneticamente inferiores? 53% dos americanos e 51% dos afro-americanos dizem não. E essa foi a crença que foi mais vista como motivo de demissão (exceto entre republicanos: mais republicanos tenderam a querer demitir um jogador de futebol que se recusasse a ficar de pé para o hino nacional que um empresário racista).

Amplas maiorias se opuseram a demitir um executivo que acredite que as pessoas transgêneros têm um transtorno mental, que a homossexualidade é um pecado, ou que todas as pessoas brancas são racistas, ou que os homens são melhores em matemática que as mulheres; 74% se opuseram a demitir um executivo que acredite, como James Damore, engenheiro demitido pela Google por esse motivo, que diferenças psicológicas ajudam a explicar por que há mais homens que mulheres entre engenheiros.

Coisas que pessoas brancas gostam mais: socar nazistas

É moralmente aceitável esmurrar um nazista?

68% dos participantes disseram que não –– e, contrariando aqueles que alegam que a oposição a socar nazistas tem raiz no privilégio branco, latinos são mais contrários a socar nazistas, com 80% chamando o ato de inaceitável; afro-americanos vêm logo em seguida, com 73% chamando de inaceitável; e as pessoas brancas estão por último, com apenas 56% concordando. Os republicanos são um pouco mais propensos a achar aceitável dar socos em nazistas que os democratas, 35% contra 28%. 45% dos independentes dizem que é aceitável.

Politicamente correto e expressão no campus

Amplas maiorias concordaram que “um grande problema neste país é o politicamente correto”, incluindo 70% dos latinos, 62% dos afro-americanos e 72% dos brancos.

Através de divisões partidárias e raciais, grandes maiorias concordaram que as universidades não estão fazendo o suficiente para ensinar aos jovens americanos sobre o valor da liberdade de expressão, e não estão fazendo o suficiente para assegurar que os estudantes sejam expostos a uma variedade de pontos de vista –– embora uma pequena maioria acredite que as universidades “têm uma obrigação de proteger os estudantes de discursos e ideias ofensivas que poderiam dificultar o ambiente de aprendizado”.

Para a pergunta “Suponha que as seguintes pessoas fossem convidadas para palestrar na sua universidade, elas devem ter permissão para falar?”, os participantes que são estudantes universitários ou tinham experiência em universidades responderam “não”, vários pontos de vista não deveriam ser permitidos, como se segue:

  • Um palestrante que defende protestos violentos (81%)
  • Um palestrante que planeja revelar publicamente os nomes de imigrantes ilegais estudando na universidade (65%)
  • Um palestrante que diz que o Holocausto não aconteceu (57%)
  • Um palestrante que diz que todas as pessoas brancas são racistas (51%)
  • Um palestrante que diz que os muçulmanos não deveriam ter permissão para entrar nos Estados Unidos (50%)
  • Um palestrante que defende a terapia de conversão para gays e lésbicas (50%)
  • Um palestrante que diz que pessoas transgêneros têm um transtorno mental (50%)
  • Um palestrante que critica publicamente e desrespeita a polícia (49%)
  • Um palestrante que diz que todos os cristãos são um atraso e sofreram lavagem cerebral (49%)
  • Um palestrante que diz o QI médio de brancos e asiáticos é maior que o de afro-americanos e hispânicos (48%)
  • Um palestrante que diz que a política tem justificação para parar afro-americanos com mais frequência que outros grupos (48%)
  • Uma pessoa que diz que todos os imigrantes ilegais deveriam ser denunciados (41%)
  • Um palestrante que diz que homens são em média melhores em matemática que as mulheres (40%)

Conclusões

Há muito de interessante nos resultados da pesquisa, e dúzias de diálogos que os dados apresentados poderiam informar, mas, por agora, concluirei com apenas uma observação à distância. Uma característica subestimada da Primeira Emenda é que mesmo enquanto ela assegura que quase todos ouvirão o que lhes ofende, ela poupa o país de muitas brigas espinhosas sobre políticas a respeito da expressão que dividiriam um país já profundamente polarizado em linhas partidárias e raciais.

Ao fim dessas brigas uma nova ordem emergiria. Seria quase certamente menos estável, e também mais punitivista, dando à polícia e a promotores amplos novos poderes. Mas não há garantia nem probabilidade de que seria uma ordem mais justa; e suas injustiças pesariam quase certamente mais sobre os os relativamente destituídos de poder. A Declaração dos Direitos é uma dádiva que continuará nos presenteando se pudermos mantê-la.

***

Por Conor Friedersdorf, em The Atlantic, 9 de outubro de 2017. Friedersdorf é colunista permanente da equipe da Atlantic, onde escreve sobre política e assuntos nacionais. Mora em Venice, Califórnia, e é editor fundador de The Best of Journalism, uma newsletter dedicada à não-ficção excepcional.

Tradução (com minúsculas adaptações): Eli Vieira
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