Qual é o problema da ‘Justiça Social’?

Os ativistas da “justiça social” (também conhecidos como justiceiros sociais ou SJW) alcançaram proeminência na nossa cultura nos últimos anos. Tenho algumas discordâncias com eles. Mas já digo qual é meu maior problema com o movimento da justiça social: eu não penso que eles realmente valorizam a justiça. Penso que são ativistas contra a justiça.

Agora, se minha reclamação fosse meramente uma discordância ideológica a respeito das exigências particulares da justiça a respeito de certos assuntos, pode ser que ninguém se preocupe. E, de fato, parte do meu problema diz respeito à tal discordância ideológica. Por exemplo:

  • Não penso que a desigualdade de riqueza é injusta, e não acho que a redistribuição é justa. Em vez disso, acho que a redistribuição de riqueza por parte do governo viola os direitos de propriedade e é, portanto, injusta.
  • Não acho que a ação afirmativa é justa. Em vez disso, penso que é uma forma de discriminação injusta e danosa.
  • Relacionado aos dois pontos anteriores: não acredito que existem direitos de grupo (por exemplo, direitos de uma raça ou de uma classe); mas que só existem direitos individuais. Assim, não pode haver injustiça a algum grupo como tal; só pode haver injustiças contra indivíduos.
  • Não penso que eventos naturais ou suas consequências possam ser injustos; apenas ações intencionais e escolhidas livremente, e suas consequências, podem ser injustas. Portanto eu rejeito, por exemplo, o igualitarismo quanto à sorte.

Ainda, pode-se entender as discordâncias filosóficas sobre os pontos acima e assim entender também como as pessoas em ambos os lados de cada questão podem estar buscando a justiça (de dicto, como dizem os filósofos). Se alguém está botando em prática políticas que são de fato injustas, não é necessário que essa pessoa se oponha à justiça em si; pode ser que ela apenas esteja enganada sobre o que a justiça exige. Quem sabe; talvez eu esteja enganado sobre o que a justiça exige.

Mas algumas exigências da justiça são diferentes. Algumas coisas simplesmente são exigências fundamentais e incontroversas da justiça. Se alguém rejeita essas exigências, então pode-se de fato concluir que essa pessoa não valoriza a justiça. Se alguém se opõe ativamente à satisfação dessas exigências, essa pessoa é um ativista antijustiça. Para dizer um pouco mais a respeito:

  • Exigências incontroversas: São coisas que qualquer um que entenda o conceito de “justiça” concordará que decorrem da “justiça”. Julgamentos a este respeito não variam conforme o partido político, por exemplo. Os melhores exemplos serão aceitos através da história e das culturas.
  • Exigências fundamentais: São coisas que são centrais e importantes ao conceito de justiça, em vez de serem implicações menores ou periféricas.

Este é o melhor exemplo que consigo pensar:

É injusto punir uma pessoa por um crime que ela não cometeu.

O princípio, é claro, não se aplica apenas a reais violações à lei, mas também a quaisquer delitos alegados. O princípio exige que aqueles que valorizam a justiça também se importem com a verdade. Em especial, se uma pessoa é acusada de ter feito X, então, se a pessoa realmente fez X, é possível que isso justifique uma punição. Mas se a pessoa na verdade não fez X, então, incontroversamente, a pessoa não deve ser punida por X.

Essa não é uma concepção direitista e ideológica de justiça. É um princípio universal. Sempre foi reconhecida como tal. Qualquer sociedade que tenha uma noção de justiça concordará com isso. Também não é um aspecto menor ou periférico da justiça. É a norma de justiça mais central e paradigmática que consigo conceber.

Os outros pontos que eu mencionei acima são bem menos centrais e bem mais debatíveis. Se a desigualdade de riqueza é uma injustiça, por exemplo, é algo aberto para o debate. Ou se preferências de contratação a favor de minorias raciais são uma injustiça. Pode-se ter uma concepção de justiça que toma alguma dessas posições, ou nenhuma delas, nessas questões. Mas não se pode ter uma concepção reconhecível de justiça que seja a favor ou neutra a respeito da punição de inocentes.

No entanto, aparentemente, é exatamente assim a concepção da “justiça social”. Os que defendem a justiça social exercem essa concepção a respeito de certos tipos de crimes ou alegados crimes. Especialmente os crimes da crença imoral ou da expressão ofensiva. (Apenas com respeito a certos grupos, é claro: por exemplo, se você tem a crença imoral e ofensiva de que o terrorismo contra certos cidadãos americanos aleatórios é permissível, isso é algo que não vai dar preocupação aos justiceiros sociais.) Evidentemente, eles também se importam com ações mais tangíveis, como ataques físicos contra esses certos grupos, mas isso eles têm em comum com todo mundo. A preocupação com o pensamento e a expressão imorais é mais distintiva do movimento da justiça social.

Não vou discutir se esses crimes realmente merecem punição. Isso, é claro, pode ser debatido. Mas se alguém pensa que esses alegados crimes merecem algum tipo de punição (não necessariamente punição legal, mas talvez sanções sociais), essa pessoa deve, se ela alega valorizar a justiça, se importar com a verdade sobre quem os cometeu ou não.

Parece haver um bom número de casos que mostram que uma porção grande dos ativistas da justiça social de fato não se importam com isso. Quando alguém é acusado de algum pecado contra a justiça social, haverá muitos ativistas que vão querer que a pessoa seja punida, e não farão qualquer esforço de determinar se a pessoa de fato cometeu o dito pecado. Se recebem evidências de que a pessoa não o fez, não se importarão. Por exemplo, não pedirão desculpas à pessoa nem revogarão seu julgamento anterior. Não é o caso que os justiceiros sociais preferem punir os inocentes. Mas é o caso que a punição de inocentes não lhes causa pudor.

Caso algum leitor tenha vivido numa caverna e precise de alguns exemplos dos casos aos quais me refiro, eis alguns:

  • O caso do time de lacrosse da Universidade Duke: Em 2006, o time de lacrosse da Universidade Duke foi acusado de estupro coletivo contra uma mulher negra que contrataram como stripper para uma festa. Os acusados eram todos homens brancos. A comunidade universitária ficou revoltada com o crime horrendo, especialmente as pessoas esquerdistas, da justiça social. Alguns manifestantes exigiram a castração dos jogadores de lacrosse. Um grupo de 88 professores assinou uma carta pública em que aparentemente presumiam a culpa dos jogadores e agradeciam aos manifestantes por não terem esperado que a investigação policial fosse concluída (ver isto). Na verdade, a acusação contra os jogadores era fraca ao extremo. Por fim, o procurador-geral abandonou as acusações, declarando que os jogadores eram inocentes, e o promotor original do caso perdeu a licença profissional por causa de sua má conduta no caso (algo que quase nunca acontece, aliás). Mas, no fim, só três membros do grupo de 88 pediram desculpas por seu julgamento apressado. (Ver o blog de KC Johnson a respeito).
  • O caso Noah Carl: Mais recentemente, um grupo de cerca de 600 acadêmicos assinou uma carta que teve sucesso em demitir Noah Carl de sua posição de pesquisador no St. Edmund’s College, Universidade de Cambridge, por sua alegada “pseudociência racista” (carta aqui). A carta acusa o trabalho de Carl de ser “eticamente suspeito e metodologicamente falho”, de se basear em “ciências da raça que caíram em descrédito”, de ser “nada mais que uma expressão de opinião sobre várias questões sociais”. Mas a carta não cita nenhuma evidência para nada disso, e as acusações parecem ser simplesmente falsas. Um crítico reclamou que Carl usa o termo “inteligência genética”, mas Carl na verdade não usa o termo. Parece que um grande ímpeto para os ataques foi o fato de que Carl defendeu o direito dos pesquisadores de investigar raça e inteligência (neste artigo), embora ele não tenha investigado o tema por si mesmo. Os signatários da carta não parecem ter lido o trabalho de Carl (ver isto).
  • O caso Rebecca Tuvel: Neste caso, Tuvel foi atacada, mais uma vez por um grande número de signatários de uma carta pública contra ela, por publicar um artigo comparando o “transracialismo” (algo como se identificar com uma raça diferente da raça de nascimento) à transgeneridade. (Veja a carta aqui.) Alguns dos ataques eram factualmente errados ou induziam ao erro de uma forma que fica óbvia após uma leitura do artigo; por exemplo, a reclamação obviamente injusta sobre o “deadnaming” [o ato de usar o nome antigo da pessoa transexual, em vez do nome social escolhido]. A ideia geral da reclamação parece ser que o artigo de Tuvel foi transfóbico. Mas, se o artigo é de fato lido, fica óbvio que isso não é verdade. Ela não é contra a aceitação das pessoas transgêneros; em vez disso, ela é a favor da aceitação das pessoas transraciais.

muitos outros casos assim. Vale lembrar que o problema não é simplesmente que erros foram cometidos. O que é digno de nota é a ausência de preocupação com a verdade – por exemplo, a falta de interesse em esperar para descobrir o que realmente aconteceu, ou em fazer a investigação mais básica dos fatos do caso antes de assinar uma carta aberta a respeito; e também a quase total falta de remorso por terem atacado pessoas inocentes.

Uma pessoa que se importa com a justiça pode cometer erros. Pode infligir punições por algo que alguém não fez de fato – porque, afinal, todos os seres humanos são falíveis. O que uma pessoa que valoriza a justiça não pode fazer é não se importar em cometer esse tipo de erro. Não punir pessoas por coisas que elas não fizeram é um compromisso inegociável de justiça. Se alguém não se importa com isso, então não se importa também com a justiça.

Pode-se dizer que talvez os justiceiros sociais identificaram outros princípios válidos da justiça com os quais estão realmente comprometidos, princípios que eu não identifiquei. Talvez eles tenham razão a respeito dessas questões controvérsias de justiça que mencionei no começo, sobre a desigualdade e a ação afirmativa. Mas se uma pessoa não consegue ficar do lado certo nos aspectos mais básicos e incontroversos da justiça, acho que não devemos confiar nela a respeito das questões mais arriscadas.

Notem também que não são só alguns poucos justiceiros sociais que têm esse problema. Em cada um desses casos havia cartas de repúdio assinadas por muitas pessoas. E não apenas por alguns trolls aleatórios da internet, mas por acadêmicos e profissionais universitários. Isso, penso eu, revela algo sobre o movimento da justiça social; não são apenas casos isolados ou pequenos erros.

Não é algo que aconteceria com outros movimentos – centenas de pessoas num movimento nominalmente dedicado a um valor X não violariam publicamente um princípio central de X. Por exemplo, não se observaria centenas de acadêmicos libertários ajudando diretamente o Estado a escravizar algumas pessoas. Nem se observaria centenas de acadêmicos cristãos urinando sobre uma estátua de Cristo.

Então, o que é que os justiceiros sociais valorizam? Eu não sei. Talvez valorizem a igualdade. Talvez apenas se oponham a qualquer coisa que vejam como pertencente à cultura dominante. Suspeito que a motivação para assinar aquelas cartas de repúdio mencionadas acima é essencialmente tribal: eles estão sinalizando publicamente suas afiliações de grupo. Algumas pessoas chamam isso de “sinalização de virtudes”, mas um termo mais preciso seria “sinalização de facção”. É como balançar uma grande bandeira a favor da própria facção social. Fazer parte de uma turba pode ser emocionalmente recompensador. Se é isso o que se pretende fazer, então não é de se admirar que os fatos de um caso em particular não sejam importantes; o caso é apenas uma desculpa para empunhar a tal bandeira. Os fatos só importam quando se está tentando de fato fazer justiça.

A justiça é cega para com facções sociais. A justiça, por exemplo, não apoiará automaticamente o lado da mulher negra contra um grupo de atletas homens brancos e ricos. Não vai simplesmente apoiar as pessoas que se pensa que são mais simpáticas ou alinhadas com determinada facção.

É por isso que as pessoas que se importam com justiça são tão poucas.

Por Michael Huemer, professor de filosofia na University of Colorado, Boulder, autor de mais de setenta artigos acadêmicos, além de seis livros. Em Fake Nous, 3 de agosto de 2019.

N. do T.: Houve pequenas adaptações no texto para fins estéticos e de clareza.

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