Genes associados à homossexualidade podem ajudar heterossexuais a conseguir mais sexo

Em diferentes culturas, entre 2% e 5% dos homens são gays. Isso leva a um paradoxo evolutivo: os homens gays têm menos filhos, então seria de se esperar que essa característica desapareceria com o tempo. Mas não desapareceu.

Agora uma equipe de pesquisadores fez o maior estudo genético até hoje da orientação sexual e encontrou evidências que são consistentes com uma explicação possível. Os mesmos fatores genéticos que predispõem as pessoas a serem gays também podem, quando em heterossexuais, levar a mais parceiros sexuais e maior “sucesso reprodutivo”.

Detalhes do estudo, ainda não publicado, foram descritos num plano de pesquisa público, em dois resumos científicos e por pesquisadores num encontro científico no Broad Institute, um centro de pequisa genômica em Cambridge, Massachusetts.

A busca pelos genes da orientação sexual — que trata da questão polarizadora sobre as pessoas nascerem gays ou se tornarem — é parte de uma explosão de pesquisa em genômica que tem o objetivo de revelar como os genes moldam o comportamento, não apenas doenças.

Alimentando a nova genética social estão enormes bancos de dados, incluindo o UK Biobank, financiado pelo governo britânico, e o DNA de milhões de clientes da 23andMe, uma empresa de testes genéticos personalizados. Os cientistas começaram a usar essa montanha de dados para perscrutar com sucesso a base genética de uma surpreendente gama de comportamentos, do fumo à insônia, inteligência, uso de maconha e até o tempo na frente da TV.

A pesquisa chega ao ponto mais sensível ao tocar na orientação sexual. Jeffrey Reid, chefe de informática genômica na Regeneron Pharmaceuticals, que é gay, diz que está preocupado com a discussão dessas descobertas na imprensa. Poderia ter um impacto extremado em pessoas já vulneráveis, diz ele.

“Supostas ‘evidências claras’ de uma base genética para a homossexualidade podem levar um pai a considerar seu filho gay irreparável e a abandoná-lo de sua vida”, diz Reid. “Por outro lado, talvez algumas evidências de uma base genética da homossexualidade possam levar um pai a acolher o seu filho da maneira como Deus lhe fez, ou levar alguém em dificuldades para sair das trevas e chegar à autoaceitação.”

Por o trabalho ter o potencial de ser controverso, a equipe por trás da nova busca de genes optou por publicar seu plano de pesquisa na rede em 2017. Eles descreveram suas intenções de realizar um estudo de associação ao longo de todo o genoma, uma técnica desenvolvida originalmente para localizar susceptibilidades genéticas a doenças como a degeneração macular e o diabetes.

Mas, em vez de vasculhar por associações entre as doenças das pessoas e características de seus genomas, eles desenvolveriam uma análise estatística vasta comparando o DNA de centenas de milhares de pessoas com informações sobre o seu comportamento sexual.

Já se sabe bem que ser gay é em parte genético — assim como em todos os outros comportamentos, os genes têm um papel. Mas tentativas anteriores de identificar genes específicos envolvidos foram em grande medida mal sucedidas.(1)N. do T.: Isso não é verdade desde o ano de 2014, quando Sanders e colaboradores confirmaram uma região do cromossomo X já noticiada nos anos 1990 como envolvida na homossexualidade, e acrescentaram outra região do cromossomo 8 ao conhecimento corrente: Sanders, A. R., E. R. Martin, G. W. Beecham, S. Guo, K. Dawood, G. Rieger, J. A. Badner, et al. “Genome-Wide Scan Demonstrates Significant Linkage for Male Sexual Orientation.” Psychological Medicine, November 17, 2014, 1–10. https://doi.org/10.1017/S0033291714002451  A principal razão para isso é porque não havia dados genéticos suficientes disponíveis. O novo estudo é cerca de 10 vezes maior que qualquer outro dos anteriores.

“Com essas amostras grandes estamos finalmente descobrindo coisas cuja verdade podemos de fato assegurar”, diz Michael Bailey, psicólogo da Northwestern University que estuda a sexualidade.

A busca teve duas frentes. Na primeira, a equipe usou os dados de DNA de mais de 300 mil heterossexuais que haviam revelado num questionário quantos parceiros sexuais já haviam tido. Depois, para encontrar genes associados ao que os pesquisadores chamam de “comportamento não-heterossexual”, a equipe também identificou cerca de 28 mil pessoas que haviam respondido “sim” à seguinte pergunta do questionário: “Você já teve relações sexuais com alguém do mesmo sexo?”

De acordo com uma apresentação do membro da equipe Robbee Wedow, da Universidade do Colorado, em junho passado, os pesquisadores localizaram quatro posições nos genomas dos homens que eram estatisticamente correlacionadas com já terem tido sexo gay, e cerca de 40 posições correlacionadas com o número de parceiras sexuais dos heterossexuais.

“Isso não diz se alguém vai ser heterossexual ou não — está dizendo que haverá uma chance um pouco maior ou um pouco mmenor”, disse Benjamin Neale, um geneticista do Broad Institute e um dos líderes do estudo, durante a conferência EmTech da MIT Tecnology Review, em setembro passado.

No que diz respeito a explicar quem é gay, diz Bailey, o estudo “não é ideal”. É porque ele depende do próprio relato das pessoas sobre seu histórico sexual. Isso pode ser amplo demais, diz Bailey: os pesquisadores podem ter categorizado as pessoas que queriam ter novas experiências sexuais junto àquelas que se consideram gays.

De acordo com a apresentação de Wedow, a equipe teve menos sucesso em encontrar associações genéticas entre mulheres que fizeram sexo com mulheres. Isso poderia significar que elas precisam de amostras ainda maiores de voluntários, ou poderia refletir a falha do esquema do estudo em capturar as nuances do comportamento sexual das pessoas.

Apesar disso, os pesquisadores usaram os resultados para responder à questão do porquê de a homossexualidade ser relativamente comum. Uma explicação possível para isso é que, dizem eles, os mesmos fatores genéticos também dão uma vantagem reprodutiva às pessoas heterossexuais que os têm.

De acordo com um resumo do estudo publicado pela equipe na American Society for Human Genetics,

Tais trade-offs são um fato da evolução. Por exemplo, variantes genéticas que podem causar a anemia falciforme também protegem o organismo contra a malária. O equilíbrio resultante significa que o gene da anemia falciforme não desaparece. Os pesquisadores dizem que suas descobertas a respeito do comportamento não-heterossexual, embora não conclusivas, são coerentes com esse tipo de ato equilibrador darwiniano.

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Por Antonio Regalado, em MIT Technology Review, 18 de outubro de 2018.

Notas   [ + ]

1. N. do T.: Isso não é verdade desde o ano de 2014, quando Sanders e colaboradores confirmaram uma região do cromossomo X já noticiada nos anos 1990 como envolvida na homossexualidade, e acrescentaram outra região do cromossomo 8 ao conhecimento corrente: Sanders, A. R., E. R. Martin, G. W. Beecham, S. Guo, K. Dawood, G. Rieger, J. A. Badner, et al. “Genome-Wide Scan Demonstrates Significant Linkage for Male Sexual Orientation.” Psychological Medicine, November 17, 2014, 1–10. https://doi.org/10.1017/S0033291714002451 

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