F*da-se Foucault: Como a História Homossexual do Século XVIII valida o Modelo Essencialista

Por Rictor Norton*(1)Versão expandida de uma apresentação feita em 27 de maio de 2010 como parte do Seminário Mellon Sawyer da UCLA, “Homossexualidades, da Antiguidade ao Presente”.

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Nota do Editor: Este artigo não é recomendado para menores de 16 anos. Contém descrições de sexo e violência de interesse histórico.

Construcionismo versus Essencialismo

Durante os anos 1980 e 1990, a abordagem mais tradicional dos “Estudos Gays e Lésbicos” foi substituída por uma disciplina mais formal de “Teoria Queer” ou “Estudos Queer”, na qual o modelo construcionista social se tornou o paradigma hegemônico da investigação dos assuntos homossexuais. O que costumava ser uma meta simples de descobrir um passado homossexual foi marginalizado, e o cisma entre as abordagens tradicional e radical se aprofundou. Como David Robinson aponta em seu livro Closeted Writing,(2)D. M. Robinson, Closeted Writing and Lesbian and Gay Literature: Classical, Early Modern, Eighteenth-Century, Ashgate Publishing, 2006. “os acadêmicos publicados pela Routledge, Duke, Zone… raramente citavam aqueles publicados por Haworth/Harrington Park, Cassell ou Journal of the History of Sexuality”. Os do primeiro grupo se consideravam teóricos sofisticados e dispensavam os do último grupo como tradicionalistas ingênuos. A Teoria Queer rapidamente tornou-se um campo hermeticamente fechado, cujos praticantes, à maneira da escolástica medieval, citavam apenas os trabalhos uns dos outros e de suas “autoridades”: Michel Foucault,(3)M. Foucault, The History of Sexuality, Volume I: An Introduction, trans. Robert Hurley, Pantheon, 1978. Jeffrey Weeks,(4)J. Weeks, Coming Out: Homosexual Politics in Britain, from the Nineteenth Century to the Present, Quartet, 1977; Weeks, Against Nature: Essays on History, Sexuality and Identity, Rivers Oram Press, 1991. Alan Bray,(5)A. Bray, A. Homosexuality in Renaissance England, Gay Men’s Press, 1982. David Halperin,(6)D. Halperin, “Is there a history of sexuality?”, History and Theory, 28 (1989): 257–74; Halperin, One Hundred Years of Homosexuality, Routledge, 1989; Halperin, “How to do the history of male homosexuality”, GLQ, 6 (2000): 87–123. Judith Butler,(7)J. Butler, Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity, Routledge, 1990. Eve Kosofsky Sedgwick,(8)Eve Kosofsky Sedgwick, Epistemology of the Closet, University of California Press, 1990. Thomas Laqueur,(9)T. Laqueur, Making Sex: Body and Gender from the Greeks to Freud, Harvard University Press, 1990. e alguns teóricos franceses como Jacques Lacan, Jacques Derrida, Gilles Deleuze e Félix Guattari e cia. Tom Betteridge, em seu livro Sodomy in Early Modern Europe,(10)T. Betteridge, Sodomy in Early Modern Europe, Manchester University Press, 2002. sugere que os dois campos opostos no debate são separados de acordo com fios disciplinares: os críticos literários que vêem a homossexualidade como “uma categoria desconstrutiva proteana” versus os historiadores que a vêem como simplesmente “uma categoria descritiva cujo significado é relativamente fixo”. Rebecca Jennings, em sua introdução a A Lesbian History of Britain,(11)R. Jennings, A Lesbian History of Britain, Greenwood World Publishing, 2007. reconhece que, depois de mais de trinta anos de discussão e disputa, o debate entre as abordagens construcionista social e essencialista não foi resolvido.

Quais são as questões fundamentais desse debate? Uma das principais alegações “construcionistas” é que o conceito da “orientação” sexual foi inventado no fim do século XIX, principalmente por meio do discurso médico, que construiu uma binariedade estrita homossexual/heterossexual para facilitar as necessidades do capitalismo burguês. Como diz David Halperin: “a ‘sexualidade’ parece de fato ser uma produção singularmente moderna, ocidental e até burguesa”.(12)D. Halperin, “Is there a history of sexuality?”, History and Theory, 28 (1989): 257–274. De acordo com essa opinião, antes dos tempos “modernos” a homossexualidade era caracterizada não por um senso de identidade, mas por atos sexuais, que eram geralmente alinhados a “papeis” ativos/passivos que são concebidos como estruturas de poder. Para os construcionistas mais linha-dura, a sexualidade é um constructo “discursivo”, constituído em grande parte por linguagem e rótulos, desse modo os “homossexuais” não existiriam até que o termo em si (e seu “discurso” contextual) fosse inventado no fim dos anos 1860. Foucault proclamou celebremente que em 1870 “A homossexualidade apareceu como uma das formas da sexualidade quando foi transposta da prática da sodomia para um tipo de androginia superior, um hermafroditismo da alma. O sodomita fora um pecador temporário; o homossexual era agora uma espécie”.(13)Essas linhas de Foucault são citadas por praticamente todos os teóricos sexuais, geralmente na primeira tradução para o inglês, que usou o termo “aberração temporária” (em vez de “pecador temporário”), que é uma má tradução do termo de Foucault, relaps, que significa alguém que tem recaída para a heresia, que é melhor traduzido como “pecador”, o termo que eu uso aqui. Ver G. Robb, Strangers: Homosexual Love in the Nineteenth Century (W. W. Norton, 2003), p. 42.

A posição construcionista social é melhor entendida quando reconhecemos que ela é fundada em ideologia e política. Muitos teóricos pioneiros da História da homossexualidade foram membros de grupos socialistas comprometidos com o uso da teoria marxista para fazer oposição à opressão gay. A primeira geração de construcionistas sociais a buscar essa abordagem incluiu Mary McIntosh,(14)Mary McIntosh, “The homosexual role”, Social Problems, 16 (1968): 182–192. Michel Foucault,(15)Michel Foucault, The History of Sexuality, Volume I: An Introduction, trad. Robert Hurley, Pantheon, 1978. Jeffrey Weeks,(16)Jeffrey Weeks, Coming Out: Homosexual Politics in Britain, from the Nineteenth Century to the Present, London: Quartet, 1977. Robert Padgug,(17)R. A. Padgug, “Sexual matters: on conceptualizing sexuality in history”, Radical History Review, 20 (1979): 3–33. Ken Plummer,(18)Ken Plummer (ed.), The Making of the Modern Homosexual, London: Hutchinson, 1981. Alan Bray,(19)Alan Bray, Homosexuality in Renaissance England, London: Gay Men’s Press, 1982. David Halperin,(20)David Halperin, One Hundred Years of Homosexuality, Routledge, 1989; Halperin, “How to do the history of male homosexuality”, GLQ, 6 (2000): 87–123. Sheila Jeffreys,(21)Sheila Jeffreys, “Butch and femme: Now and then” (1987) and “Does it matter if they did it?” (1987), in Lesbian History Group (ed.), Not a Passing Phase, The Women’s Press, 1989. Jonathan Ned Katz,(22)J. N. Katz, Gay American History, Thomas Y. Crowell, 1976; J. N. Katz, The Invention of Heterosexuality, Dutton, 1995. e John D’Emilio.(23)John D’Emilio, Making Trouble: Essays on Gay History, Politics, and the University, Routledge, 1992. Quando tais teóricos falam das “construções sociais” da sexualidade, sua referência subjacente é a ideologias empregadas pelo capitalismo burguês para controlar a capacidade reprodutiva das classes trabalhadoras.(24)Dentro do modelo marxista usado pelos teóricos gays dos anos 1970 e posteriores, o homossexual foi conceituado como um indivíduo não-reprodutor e, portanto, não produtivo, e sua inutilidade dentro do capitalismo foi declarada uma explicação suficiente da homofobia. A ‘família capitalista’ foi supostamente promovida como o agente do consumo, necessária para o mercado. Mas mesmo se o capitalismo rejeitasse os homossexuais como improdutivos, não está claro por que ele criaria o conceito do homossexual. De todo modo, não há nenhuma evidência histórica de que a perseguição dos homossexuais emergiu concomitantemente com a família burguesa. Os primeiros resenhistas da obra Coming Out, de Weeks (1997), apontaram a falha de Weeks em fornecer evidências satisfatórias para apoiar sua tese central, e acrescentaram também que, pelo contrário, a homofobia caiu durante o século XIX (S. Licata e R. P. Petersen (eds.), The Gay Past: A Collection of Historical Essays,, Harrington Park Press, 1980 (reimpresso em 1985), pp. 214-219). A abordagem marxista de Halperin é transparente quando ele reconhece que seu interesse não está tanto na História da sexualidade quanto no que ele chama de “os processos pelos quais os desejos sexuais são construídos, produzidos em massa, e distribuídos”. Especificamente trazendo o desejo para dentro da teoria marxista da produção e distribuição. A ambição da “teoria crítica” socialista (emergindo da teoria econômica da sociedade da Escola de Frankfurt nos anos 1930-1940) não é achar um modelo histórico preciso, mas fomentar a mudança social. A afeição construcionista social pelas mudanças epistêmicas deriva da teoria de Marx sobre o fim da “crítica imanente”, isto é, a transformação revolucionária da sociedade, que demandará uma ruptura radical com a História em si. (Esse desejo de mudança é especialmente compreensível entre mulheres e homens gays e lésbicas, uma vez que a maior parte da História em torno desses grupos é uma História de opressão persistente.) Engajando-se na dialética da revolução, o construcionista social privilegia “o homossexual moderno” em detrimento do mero “homossexual”, com a esperança de transformar o homossexual comum num homossexual politizado, cuja “consciência de classe” — em vez de mera “autoconscientização” — permitir-lhe-á questionar radicalmente tais conceitos como gênero e heterossexualidade normativa. A meta é lutar na guerra de classes de forma que os “homossexuais” (e de fato “homens” e “mulheres”) desapareçam como classe e portanto não possam mais constituir um objeto da opressão. A estratégia é abalar a homofobia pela desconstrução da noção de uma homofobia “real” e estável. Considerou-se a desconstrução uma ferramenta tão útil para desmantelar a homofobia — que é de fato um constructo social ou cultural — que os teóricos caíram na armadilha de empregá-la para desconstruir a homossexualidade também. Para apoiar a alegação-chave de que a homofobia na verdade constrói a homossexualidade, fez-se necessário jogar fora o bebê homossexual junto com a água de banho homofóbica. O efeito disso foi apagar o homossexual da História.

Em oposição a isso está a abordagem histórica tradicionalista à História da sexualidade. Essa foi rotulada de “essencialismo” pelos teóricos críticos modernos, que usam o termo pejorativamente. Um termo mais preciso seria “realismo”, “constitutivismo” ou “inatismo”, mas ficarei com o termo “essencialismo” porque tem sido a prática comum. No modelo construcionista social, o conhecimento e a prática são construídos, desconstruídos e reconstruídos através do discurso ideológico. Nos modelo tradicionalista ou essencialista, o conhecimento e a prática são descobertos, reprimidos e redescobertos através da História e da experiência. Os construcionistas sociais enfatizam a descontinuidade e as rupturas revolucionárias; os essencialistas enfatizam a continuidade e a supressão ou liberação variada de algo que já estava lá. Os construcionistas enfatizam as práticas sociais externas e as estruturas políticas que são consideradas determinantes da identidade e prática pessoais. A posição essencialista é que, embora a sexualidade de um indivíduo seja sujeitada a vários discursos restritivos — notavelmente da lei e da religião –, o corpo em si é o mediador inicial do desejo, e que há um “impulso sexual” que opera independentemente do discurso social e que é o determinante-chave do desejo pessoal.

Segundo os essencialistas, um homossexual “nasce, não é criado”; isto é, a orientação sexual de um indivíduo é fixada antes de nascer, resultando de fatores fisiológicos, biológicos, hormonais e genéticos que não poderiam ter sido moldados por fatores sociais, ambientais ou culturais. A “essência” ou cerne do desejo homossexual é inata, congênita, constitutiva, estável e fixa, em vez de fluida. Essencialistas linha-dura concordariam com as descobertas recentes da pesquisa científica sobre a psicobiologia da orientação sexual, que demonstram, por exemplo, que a “orientação sexual” existe objetivamente;(25)A pesquisa científica da psicobiologia da orientação sexual demonstrou que as orientações homossexual e heterossexual são empiricamente objetivas, que uma esmagadora maioria das pessoas são quase exclusivamente heterossexuais e uma pequena minoria é quase exclusivamente homossexual, enquanto um número menor ainda é de intermediários ou bissexuais. A escala de 6 pontos de Kinsey é muitas vezes enganosamente chamada de “continuum”, mas quando os dados dele são postos nessa escala o que é revelado de fato é que é uma “curva J”: uma grande maioria dos homens nos dados de Kinsey, cerca de 85%, estão no ponto exclusivamente heterossexual, que é a parte vertical grande do “J”; quantidades minúsculas se espalham pelos pontos bissexuais, que são o vale do “J”; e uma minoria está no ponto exclusivamente homossexual, que é parte pequena ascendente do “J”. Mais estudos recentes de homens que tiveram relações sexuais nos doze meses anteriores descobriram que 95% delas foram com pessoas do sexo oposto, pouco mais de 3% foi com pessoas do mesmo sexo, e pouco menos de 2% tiveram relações com ambos os sexos. Não existe “panbissexualidade”. A orientação sexual é categórica em vez de contínua ou fluida. que a orientação sexual é taxonômica, não semântica; que é categórica em vez de distribuída ao longo de um continuum, que é bimodal para homens (isto é, uma grande maioria deles é quase exclusivamente heterossexual e uma pequena minoria é quase exclusivamente homossexual), e que pode ser que exista um padrão intermediário ou bissexual apenas entre as mulheres. Além disso, há diferenças claras entre homossexuais e heterossexuais que não são limitadas apenas ao sexo. Por exemplo: homens gays são mais propensos que homens héteros a ter um redemoinho no cabelo em sentido anti-horário; lésbicas são mais propensas que mulheres héteros a terem uma razão de comprimento entre o dedo médio e o indicador similar à dos homens; homens gays são 34% mais propensos que héteros a serem canhotos; lésbicas são 91% mais propensas a serem canhotas do que mulheres héteros; homens heterossexuais e lésbicas são significativamente mais pesados e maiores do que homens gays e mulheres heterossexuais. A maioria dessas assim chamadas “características gays” parecem se desenvolver ainda no útero e não poderiam ter sido moldadas pelo condicionamento social. Inúmeros estudos, incluindo testes de rotação mental e percepção espacial, e fluência verbal, demonstram que gays e lésbicas têm características “atípicas de seu sexo” estatisticamente significativas.(26)A mais proeminente crítica da pesquisa científica do sexo e das diferenças de gênero é a bióloga feminista Anne Fausto-Sterling, cujo livro Sexing the Body (2000) deu apoio a ativistas e teóricos gays que rejeitam a noção de uma congruência direta entre sexo cromossomal, gênero e orientação sexual. Mas uma crítica ao trabalho de Fausto-Sterling, de Leonard Sax (2002), sugere um enviesamento inapropriado dos dados. Em resumo, Fausto-Sterling alegou que 1,7% dos nascimentos humanos eram intersexo, com base numa definição exageradamente ampla de intersexo como “qualquer indivíduo que desviar do ideal platônico do dimorfismo sexual nos níveis cromossomal, genital, gonadal ou hormonal”. Dos dez quadros que ela descreve como intersexo, cinco não correspondem aos padrões clínicos para tal definição, e os cinco quadros restantes, que são quadros intersexo genuínos, representariam menos de 0,02% da população em geral, usando os próprios números dela. “Nenhum de seus estudos de caso são tirados dos cinco quadros mais comuns em sua tabela, mesmo embora esses cinco quadros constituam cerca de 99% da população que ela define como intersexo. Sem esses cinco quadros, a intersexualidade se torna uma ocorrência rara, de menos de dois em 10 mil nascidos vivos”. Em outras palavras, o quadro, longe de ser “bem comum”, que foi o argumento de destaque de seu livro, é tão raro que não pode ser descrito, como ela alega, como uma variação normal. A conclusão de Sax confirma o modelo binário essencialista: “Os dados disponíveis apoiam a conclusão de que a sexualidade humana é uma dicotomia, não um continuum. Mais de 99,98% dos humanos são masculinos ou femininos.” (L. Sax, “How common is intersex? A response to Anne Fausto-Sterling”, Journal of Sex Research, agosto de 2002.) O comportamento atípico para o sexo, tal como a não-conformidade de gênero durante a infância, tem um poder preditor muito alto da orientação sexual: afeminados e meninas masculinas são propensos a se tornarem adultos homossexuais.

As evidências científicas de estudos da ordem de nascimento fraterna entre homens gays(27)Estudos biográficos e históricos descobriram que, quanto mais irmãos mais velhos um homem tem, mais provável é que ele se torne homossexual. Esse efeito da ordem de nascimento fraterna tem um alto nível de significância estatística, e os estudos têm replicado com frequência esse achado. Razões sociais ou familiares possíveis foram descartadas por estudos de, por exemplo, gêmeos idênticos criados separadamente, que produzem resultados similares. Homens gays têm maior probabilidade de ter tios gays, especialmente tios maternos, e de ter primos gays do lado materno — o que sugere um fator de herança que a mãe passa ao filho. Isso provocou uma busca pelo dito “gene gay”, que foi localizado na região Xq28 do cromossomo X. — N. do. T.: Os geneticistas sabem que o comportamento não pode ser determinado por um único gene. Múltiplos genes estão envolvidos na manifestação da orientação sexual. No caso da homossexualidade, Sanders et al. (Psychological Medicine,2014) confirmaram com enorme amostra o achado de que essa região do cromossomo X contém genes com variantes claramente associadas a esse fenótipo. e o assim chamado “gene gay”, e numerosos estudos sobre os hemisférios cerebrais e o efeito dos hormônios sexuais no útero (como resumido no livro Nascido Gay: A Psicobiologia da Orientação Sexual(28)Glenn Wilson e Qazi Rahman, Born Gay: The Psychobiology of Sex Orientation (London: Peter Owen, 2005; reimpresso em 2008).) apoiam cada vez mais a opinião essencialista de que a homossexualidade é transcultural, transnacional e trans-histórica. Não há evidência científica de que a orientação sexual seja construída por fatores sociais ou ideológicos, sejam eles a criação familiar ou o capitalismo burguês. Pelo contrário, as descobertas científicas tendem a reconfirmar e validar as práticas tradicionais da História homossexual: por exemplo, a utilidade da busca por sinais de homossexualidade na biografia pessoal, incluído estereótipos sobre homens afeminados (por exemplo, “maricas” e “queens”) e mulheres másculas (por exemplo, “molecas” e “mulher-macho”(29)N. do T.: Aqui, o autor usa termos às vezes pejorativos que poderiam ser achados em documentos históricos como evidência de que alguma personalidade era homossexual. Os termos originais são “tomboy”, “sissy”, “queen” e “butch dyke”. Os termos que escolhi são equivalentes aproximados.); a importância de se focar nas vidas homossexuais em vez de em discursos homofóbicos; a utilidade nada anacrônica do termo geral “homossexual” para muitos períodos e culturas; e, acima de tudo, a precisão de uma perspectiva histórica que reconheça que a continuidade vence a contingência.

Não quer dizer que a sociedade e a cultura são completamente irrelevantes para o historiador essencialista. Reconheceríamos, por exemplo, que embora a identidade pessoal homossexual emerja em primeira instância de dentro do indivíduo, que ela possa então ser consolidada pelas linhas sugeridas pela subcultura homossexual e também deformada pela sociedade homofóbica mais ampla. Contudo, tal contingência histórica foi em grande medida exagerada. A gama de costumes homossexuais que diferem de cultura para cultura é na verdade bem limitada e previsível — por exemplo, padrões de homossexuais masculinos efeminados e lésbicas masculinas são comuns na maioria das culturas e na maior parte dos períodos temporais, apesar da muito ampla gama de restrições e controles específicos de cada cultura.

Esse, em resumo, é o arcabouço do debate. Voltemo-nos agora às concepções europeias da homossexualidade antes do século XIX.

Sodomitas e Safistas Natos

A opinião pública durante o século XVIII na maior parte considerava a homossexualidade um vício; se a questão de sua causa chegou a ser tratada, muitos — particularmente os satiristas — pensavam que seria o que agora chamamos de “adquirida”. O autor de Simples Razões para o Crescimento da Sodomia (1731)(30)N. do T.: Tradução livre. sugeriu que o menino que brinca com meninas, tem aulas de dança e vai à ópera e é mimado pela mamãe virará um sodomita ao crescer. O sodomita era também visto como alguém que imita os costumes de culturas estrangeiras, particularmente os da Itália, e cujo comportamento é encorajado pela moda de homens se beijarem em público. Mas Simples Razões também oferece a opinião alternativa essencialista: “esse Vício [é] mais predominante naqueles nos quais a Natureza foi tão econômica em suas Bênçãos que eles não encontram um Chamado equivalente ao de outros Homens. E, portanto, em vez de se exporem, eles tomam o Caminho contrário”. A homossexualidade é, nessa opinião, um comportamento compensatório para uma insuficiência ou ausência inata de vigor másculo.

Outros escritores aludiram aos efeitos dos climas mornos do sul; ou aos efeitos desmoralizantes do comércio e da manufatura sobre a moral pública; ou à luxúria efeminada. Muitos reconheceram o que chamamos agora de “homossexualidade situacional” nas práticas que acontecem em escolas de internato em que os meninos dormem juntos; ou em mosteiros; ou em navios entre marujos desprovidos de mulheres. Durante os julgamentos da sodomia, alguns homens alegaram que foram seduzidos a essa prática durante a juventude, e outros alegaram que estavam bêbados quando o fizeram, o que sugere uma libertação das inibições.

Textos do século XVIII também contêm, entretanto, referências frequentes à “depravação de raiz profunda” ou aos “hábitos inveterados de tais monstros” — expressões que sugerem algo inato em vez de adquirido, ou ao menos algo fundamental ao temperamento de alguém. O autor de um memorial publicado em 1747 observou que “alguns Vícios são constitutivos. Ouvi falar de um Reverendo Vigário de uma Vila vizinha, cujo Assistente havia mais de uma vez adornado seu Pelourinho para Práticas Sodomíticas, declarar muitas vezes que ele nunca teve a menor Inclinação por uma Mulher em toda a sua Vida, embora [ele tivesse] então quase Setenta [anos]”.(31)Memoirs of Mr. Thomas Chubb, Londres, 1747, pp. 41-42; ele também se refere a “os Vieses da Inclinação”. Em 1749, uma criada menina da Taverna Globe, na Fleet Street, contou ao magistrado que, quando foi mandada a uma alcova e viu seu amo deitado nu sobre as costas de outro homem, “ao perguntar ao seu Amo se ele não tinha vergonha de ser Culpado de tal Ato, ele respondeu que era uma dádiva infeliz conferida a ele por Deus, e sem a qual ele não poderia Viver”.(32)Middlesex Sessions Papers — Justices’ Working Documents, 20 de abril de 1749, disponível na íntegra em http://rictornorton.co.uk/eighteen/1749fawc.htm. Num relato da Bastilha em 1701, um prostituto é descrito como tendo sido “pervertido desde a infância”. O assim chamado “vício antinatural” era às vezes percebido como sendo natural para o sodomita. Thomas Cannon, em sua defesa da homossexualidade intitulada Pederastia Antiga e Moderna Investigada e Exemplificada,(33)N. do. T.: Tradução livre. publicada em 1749, diz: “Desejo Antinatural é uma Contradição em Termos; flagrante Disparate”. Todos os “Impulsos amatórios”, “não importa como construídos” são parte da natureza. “A natureza às vezes assume uma Aparência incomum; Mas o Pederasta extraordinário, buscando Fruição, age tão naturalmente quanto o ordinário Homem das Mulheres nessa Busca”.(34)”The Indictment of John Purser, Containing Thomas Cannon’s Ancient and Modern Pederasty Investigated and Exemplify’d”, Editado por Hal Gladfelder, Eighteenth-Century Life, 31 (Número 1, Inverno 2007), pl 54. — Ou, em outras palavras, o homossexual buscando satisfação se comporta tão naturalmente quanto o homem heterossexual comum buscando o mesmo.

O entendimento da homossexualidade do início da modernidade creditava grande importância a características atípicas de um sexo, e os homens efeminados eram sujeitados frequentemente à sátira. Muitos satiristas brincavam que a natureza cometeu um erro ou teve um momento de indecisão quando criou o sexo de petits maîtres ou garotos bonitinhos. E alguns sugeriam que os meninos efeminados foram gerados pelos pais num momento de embriaguez ou de baixa potência sexual. Seja como for, os dados do século XVIII sugeririam que um número substancial de homens homossexuais eram de fato afeminados e que algumas lésbicas eram másculas, não apenas em sua autorrepresentação, como no travestimento, mas também em sua forma física e conduta. Em muitos países as pessoas observaram que os sodomitas condenados falavam de forma efeminada ou tinham uma voz fina, às vezes andavam com um rebolado e por vezes gesticulavam de forma exagerada. Hester Lynch Piozzi, nos anos 1790, chamava sodomitas conhecidos seus de “giradores de dedo” porque ela observou esse comportamento em homens como Sir Horace Mann e o pintor George James.(35)Thraliana: The Diary of Mrs. Hester Lynch Thrale (Later Mrs. Piozzi) 1776-1809, ed. Katharine C. Balderston, 2 vols., 2ª ed., Oxford: Clarendon Press, 1951, apontamento do dia 29 de março de 1794, ii. 874-875. No romance pornográfico francês de Pierre Beauchamps, A História do Rei Apprius,(36)N. do T.: Tradução livre. publicado em 1728, os sodomitas são classificados em dois tipos, os Ugobars e os Chedabars. Os Ugobars são modestos e discretos, e tomam cuidado em não serem reconhecidos pela sociedade; os Chedabars são efeminados e extravagantes, andam com um passo afetado, e são quase desafiadores em seu desvio. Podemos facilmente reconhecer os paralelos com os tipos gays do começo e meados do século XX: homens gays ou veados que se apresentam como normais e se integram à sociedade, em contraste com monas ostentadoras e bichas que “acabam com a imagem dos gays”. Beauchamps também observou que alguns sodomitas efeminados se apresentam de uma forma mais convencional quando envelhecem, o que parece refletir observações genuínas.(37)Ver discussão por Shapiro em Foster, Long Before Stonewall, pp. 360-361.

As teorias de causas foram buscadas mais explicitamente no caso das lésbicas. Muitos textos quase-médicos descreviam a “tríbade” como uma hermafrodita com um clitóris aumentado. Em 1744, um cirurgião e anatomista proeminente de Veneza investigou o caso de Catterina Vizzani, uma mulher que se travestia e procurava mulheres, tentando determinar se seu lesbianismo tinha causas fisiológicas. Ele terminou por dissecar o seu corpo e determinou que ela tinha órgãos sexuais normalmente desenvolvidos, e concluiu que a homossexualidade dela era causada por algo desconhecido. A pessoa que traduziu um panfleto sobre esse caso para o inglês, que provavelmente era John Cleland, sugeriu que o gosto de Vizzani por mulheres fora causado por uma sedução mais antiga por parte de uma mulher. Mas o pai dela protestara que sua filha era um “prodígio da natureza”, isto é, nascida daquela forma, que suas irregularidades sexuais eram observáveis desde a tenra infância, e que sua “Constituição não se dava à repressão por Palavras ou Tapas, a Natureza deve seguir seu Curso”.(38)The True History and Adventures of Catharine Vizzani, por Giovanni Bianchi, Londres, 1755.

Se precisamos de alguma prova de que a identidade lésbica moderna existia antes de 1869, temos apenas de investigar a vida da proprietária de terras do condado de Yorkshire, Anne Lister (1791-1840). Durante os anos 1810 e 1820, ela possuía uma personalidade completamente formada como lésbica, com características facilmente reconhecíveis para lésbicas modernas. Ela ativamente procurava e fazia sexo com mulheres na primeira década do século XIX, o que ela descrevia vividamente em entradas cifradas de seus diários, que foram decifrados e publicados nos anos 1980. Ela tinha uma forma física máscula e era com frequência confundida com um homem, e tinha sonhos eróticos em que ela se imaginava portando um pênis. Como muitos homossexuais de um período mais tardio, Anne percebia que ela era diferente e tentava entender a natureza de sua sexualidade. Para uma amante de Paris ela “Disse como era tudo pela natureza. Se não fosse autêntica, a coisa teria sido diferente. Eu disse que pensei muito, estudei anatomia, etc. Não pude descobrir. Não pude entender a mim mesma.” Enquanto isso, na Inglaterra, Mariana, amante de Anne, certa feita disse a Anne que tinha horror a qualquer coisa “antinatural”. Anne respondeu que os seus próprios sentimentos eram “certamente naturais para mim na medida em que não foram ensinados, não são fictícios, mas instintivos”.(39)Para uma análise mais plena, ver Rictor Norton, “Anne Lister, The First Modern Lesbian”, Lesbian History, http://rictornorton.co.uk/lister.htm. Então, em situações da vida real, fora do discurso satírico, as pessoas que realmente conheciam lésbicas e homens gays às vezes reconheciam o que mais tarde veio a ser chamado de inversão congênita.

Linguagem e Orientação

Durante meados do século XVIII, a sexualidade lésbica foi conceituada através do emprego de termos genéricos tais como “tipo”, “espécie” e “gênio” (significando gênero); por expressões abstratas como “congregação feminina” ou “companhia de outras mulheres”; e por eufemismos como “irregularidades viciosas”, “intimidades irresponsáveis”, “luxúria incomum e preternatural”, “afeições antinaturais”, “poluções abomináveis e antinaturais”.(40)Resumido por E. Donoghue, Passions Between Women: British Lesbian Culture 1668-1801, Scarlet Press, 1993. Ambas homossexualidades, masculina e feminina, eram contempladas pela expressão “apetites antinaturais em ambos os sexos”; encontramos até mesmo a palavra “antinaturalismo”.(41)The Fruit-Shop, A Tale; or, A Companion to St. James’s Street, Londres, 1766. Historiadores da escola foucaultiana, ao se focarem tão estreitamente na retórica oficial e no discursos de elite dos legisladores e sexólogos, e ao fazerem um fetiche do termo “homossexual”, ignoraram o fato de que a maioria das pessoas usam eufemismos e termos não científicos para descrever o comportamento sexual e a orientação sexual. Alegar que não havia palavras para a homossexualidade antes do fim do século XIX revela um alto grau de insensibilidade linguística.

A teoria rigidamente aplicada das “construções discursivas” teve um efeito de especial distorção na historiografia do lesbianismo. O argumento de que não havia discurso pré-moderno para o amor erótico entre mulheres é muitas vezes fundado em imprecisões do Oxford English Dictionary, que rastreia a palavra “lesbianismo” (como um termo relacionado à orientação sexual em vez de apenas à famosa poetisa e sua ilha) apenas até 1870, a palavra “lésbica” a 1890 (como um adjetivo) e a 1925 (como substantivo), e “safismo” a 1890. As datas erradas do OED para termos lésbicos foram citadas amplamente por teóricos construcionistas sociais. Mas Emma Donoghue, em Paixões entre Mulheres (1993),(42)N. do T.: Tradução livre. estabeleceu para além de dúvidas que ao longo dos séculos XVII e XVIII a palavra “lésbica” foi usada no mesmo sentido de hoje, e que as lésbicas eram vistas como um grupo sexual e social delimitado. Para citar um exemplo de um trabalho literário que não foi citado no OED, os relacionamentos sexuais entre mulheres são descritos como “Amores Lésbicos” por William King em The Toast, em 1732, em que ele diz que uma personagem mulher “amou Mulheres da mesma Maneira que os Homens as amam; ela era uma Tríbade”. Na literatura francesa, a palavra “lesbienne” foi usada no sentido moderno desde o século XVI. Hester Lynch Piozzi, em seus diários, sugere que as famosas Damas de Llangollen (Sarah Ponsonby e Lady Eleanor Butler, que fugiram juntas) eram “safistas desgraçadas” e notou que mulheres relutavam em passar a noite em sua companhia ao menos que estivessem acompanhadas por homens.(43)Donoghue, Passions Between Women, pp. 149-150. É o dicionário que é construção social — não a sexualidade.

A abordagem construcionista social trata de forma similar o termo “orientação sexual” como um constructo do discurso moderno, mas esse termo tem muitos sinônimos ao longo da História, tais como “predileções”, “propensões”, “inclinações” e “apetites sensuais” — a maioria dos quais sugerem algo inato. Uma nota de rodapé de uma tradução das obras de Safo para o inglês, de 1798, faz referência aos rumores de seu “desvio infeliz às inclinações naturais”. Isso se encaixa facilmente no conceito “moderno” de orientação sexual desviante. Biografias dos séculos XVI e XVII estão cheias de referências a homens com “inclinações vergonhosas”. Inclinações sexuais preferenciais são muitas vezes alvo de comentário, e são claramente percebidas como uma predisposição mental ou orientação.

O termo “orientação” não é um termo científico que emergiu da sexologia moderna, mas uma metáfora direcional tirada especialmente do campo da astrologia. A tradição astrológica era que a orientação dos planetas ao nascer de um indivíduo determina se ele será heterossexual, bissexual ou homossexual. Por exemplo, em um manual de astrologia publicado em 1792, aprendemos que “Se Marte e Vênus estão a sós juntos em aspecto” no nascimento de um homem, ele “se satisfará em todo excesso com as mulheres; mas se uma dessas estrelas for ocidental, e a outra oriental, em Quartil ou Oposição, então ele estará propenso a ambos homens e mulheres”; entretanto, “se ambos esses planetas estiverem no ocidente… ele ferverá de luxúria antinatural para com homens e garotos”.(44)Astrology. The Wisdom of Solomon in Miniature, being A New Doctrine of Nativities, reduced to Accuracy and Certainty; or, The Art of Determining Future Events by the only True Method, the Radical Figure of Birth, por C. Heydon, Astrophilo, Impresso para A. Hamilton, 1792, pp. 182-183.

A datação da emergência do homossexual a apenas cento e pouco anos atrás é a parte mais fraca da teoria construcionista social em voga. É muito fácil para historiadores estabelecer que a maioria das categorias sexuais que supostamente surgiram sob o capitalismo moderno na verdade existiram muito antes. Por exemplo, em 1734, os sodomitas holandeses foram descritos por contemporâneos como “hermafroditas em suas mentes”(45)L. J. Boon, “Those damned sodomites: Public images of sodomy in the eighteenth century Netherlands”, in K. Gerard & G. Hekma (eds), The Pursuit of Sodomy: Male Homosexuality in Renaissance and Enlightenment Europe (New York: Harrington Park Press, 1989), p. 246. — um encaixe exato para o “hermafroditismo da alma” que Foucault alegou que surgiu apenas no século XIX. Acadêmicos notaram declarações sobre “pederastas” registradas pela polícia de Paris nos anos 1720, tais como “Ele teve esse gosto por toda a vida”, ou “Desde tenra idade ele não fez nada além de se deleitar com homens; esses prazeres estavam em seu sangue.”

O outro termo que tem assolado nosso entendimento da História homossexual é a palavra “sodomia”. O dogma foucaultiano é que a sodomia é uma categoria “totalmente confusa”, e os teóricos queer alegam que o termo foi aplicado a uma variedade tão ampla de comportamentos desviantes que seu significado essencial não pode ser determinado em períodos mais antigos. Mas, na verdade, o termo “sodomia”, na vasta maioria dos exemplos, se referia especificamente a relações sexuais entre homens, e é esse significado representativo do termo, em vez de seus significados excepcionais ocasionais, que deve vir ao primeiro plano. Helmut Puff, em Sodomia na Alemanha e na Suíça da Reforma, 1400-1600,(46)N. do. T.: Tradução livre. conclui que a avaliação foucaultiana do uso do termo é claramente errônea. Puff demonstra que “Quando escritores medievais e do início da modernidade usavam ‘sodomia’, na maior parte dos casos se referiam a atividades sexuais homem-com-homem”.(47)H. Puff, Sodomy in Reformation Germany and Switzerland 1400-1600, University of Chicago Press, 2003, p. 12. Até quando o discurso ao redor usa termos referentes a conotações de, por exemplo, “heresia”, ainda assim esses termos “centram-se em atos sexuais do mesmo sexo”. Até no discurso do início da Idade Média, a alegação de que o termo era instável é em larga medida exagerada. Praticamente todas as referências ao “crime indizível” claramente denotam sexo entre homens. Ao chegar o século XVIII, não há dúvida de que a “sodomia” significava amor erótico entre homens. Por exemplo, em Um Chicote Ardente para a Libertinagem (1700),(48)N. do T.: Tradução livre. a “Sodomia” é definida como “a Lascívia Antinatural de Homens por Homens”, e é atribuída não apenas aos antigos sodomitas, mas a “Idólatras Anticristãos” do tempo da Dissolução dos Mosteiros da Inglaterra. Num longo catálogo de lascívias, vícios, abominações, luxúrias antinaturais, degeneração, bestialidade e etc., a palavra “sodomia” é reservada exclusivamente ao sexo entre homens. Esse “Amour Antinatural” provocou a ira de Deus contra as Cidades da Planície: “Esse é o primeiro Exemplo que encontramos de Luxúrias chegando a tal estatura prodigiosa que Objetos Desnaturais são buscados”. Esse é um exemplo bem típico do discurso sobre Sodoma e Gomorra que distingue o desejo pelo mesmo sexo como uma escolha do gênero “errado” como o objeto de desejo. Isto é, a luxúria do mesmo sexo é concebida estreitamente como relacionada ao objeto sexuado de desejo, em vez de a um ato sexual específico. Também ilustra como o gênero correto/incorreto do objeto de desejo se encaixa no discurso sobre luxúria “desnatural”, ao se referir à “Proposta desavisada a Ló de suas próprias Filhas (a elas), que eram objetos mais naturais e apropriados da Luxúria delas”. O “etos penetrativo” dos teóricos queer não está presente aqui: o que é antinatural não é que um homem será penetrado por um homem, mas que um homem deseja um objeto masculino. Em dicionários publicados durante o século XVIII, as palavras mais comuns relacionadas à homossexualidade são “sodomia” e “buggery”, o que não é surpresa. Mas, embora “buggery” seja entendida amplamente como sexo anal entre homens, a palavra “sodomia” parece ter um sentido algo mais amplo, isto é, o sexo de qualquer tipo entre homens. De fato, no Cocker’s English Dictionary, de 1724, a sodomia é definida simplesmente como “o venéreo masculino”, que é mesmo tão abstrato quanto o sinônimo moderno “homossexualidade masculina”.

Allen Frantzen, em seu estudo da homossexualidade anglo-saxã e medieval, mostrou que, séculos antes de Peter Damian cunhar o termo “sodomia” por volta do ano 1050, a literatura anglo-saxã havia usado os termos “Sodoma”, “o Sodomita”, “sodomítico” e “à maneira de um sodomita” para se referir sem ambiguidade ao sexo entre homens.(49)Allen J. Frantzen, Before the Closet: Same-Sex Love from Beowulf to Angels in America (University of Chicago Press, 1998), ex. p. 134. Além disso, penso que é notável que, em meio a numerosas discussões do comportamento sexual ilícito nos Livros Penitenciais do início da Idade Média, não há palavras para tipos específicos de pecadores sexuais, exceto para o sodomita. Por exemplo, não há palavras específicas para aqueles que praticam a masturbação (que seriam chamados de “wankers”(50)N. do T.: Traduzindo literalmente, “punheteiros”. Mas usado como um xingamento mais geral, por exemplo em brigas no trânsito de Londres. na gíria britânica moderna), enquanto há várias palavras importantes para os que praticam a sodomia, tais como “sodomitae”, “molles”, “baedling” e “masculus cum masculo”. Em outras palavras, embora os atos sejam enfatizados nos Penitenciais, somente no contexto homossexual ouvimos termos referentes a atores sexuais.

O ato de privilegiar o assim chamado “discurso da sodomia” depreciou seriamente o nosso entendimento da História homossexual do início da modernidade. O historiador tradicional sempre reconheceu a necessidade de diferenciar entre as categorias de fontes textuais para determinar quais têm mais valor de compra na precisão histórica e quais são mais provavelmente enviesadas. Mas os teóricos do discurso agrupam regularmente sátiras literárias e registros de julgamentos e sermões religiosos e novelas pornográficas como se todos constituíssem um único discurso monolítico que reflete a “homofobia”. Por exemplo, Cameron McFarlane, em O Sodomita na Ficção e na Sátira, 1600-1750,(51)Cameron McFarlane, The Sodomite in Fiction and Satire, 1660-1750 (New York: Columbia University Press, 1997, pp. 146-157) analisa Um Relatório do Processo contra o Capitão Edward Rigby por Sodomia no Tribunal de Old Bailey em 1698(52)N. do T.: Tradução livre. como se fosse simplesmente um “texto” literário em vez de um registro histórico. Ao botá-lo na mesma categoria que Memórias de uma Mulher do Prazer (1749),(53)N. do T.: Tradução livre. de John Cleland, McFarlane trata essa transcrição relativamente precisa e completa de tramitações judiciais como se fosse ficção pornográfica projetada para “reinscrever subversivamente o desejo homossexual”. Para McFarlane, ela se torna uma narrativa de intriga, empregando dispositivos literários para mimetizar a realidade, incluindo expressões que lhe deem “um ar apropriado, que soe jurídico”. A especulação de McFarlane, de que esse é apenas um simulacro de documento legal, surpreenderia à maioria dos historiadores do Direito em atividade. Na verdade, todos os detalhes obscenos nos autos publicados são, sem exceção, copiados nas mesmas palavras do depoimento não publicado que William Minton, alvo da sedução de Rigby, forneceu para a instauração do processo(54)London Metropolitan Archives, MJ/SP/1698/12/024-025. e de atestados de três testemunhas ou policiais.(55)MJ/SP/1698/12/021-023. Esses são, com certeza, evidentes documentos históricos: não são fabricações simplistas de um discurso legal, e as informações que contêm são dados historicamente valiosos em vez de ideologia homofóbica.

A abordagem semiótica ou discursiva do estudo da História homossexual tende a se focar exclusivamente no discurso da homofobia. Por exemplo, Helmut Puff, em Sodomia na Alemanha e na Suíça da Reforma, 1400-1600 (2003),(56)N. do. T.: Tradução livre. não está interessado no caso de os insultos sexuais serem ou não objetivamente verdadeiros; ele só se interessa pela maneira como o consciente social coletivo percebe tais acusações difamatórias. Puff regularmente enfatiza a utilidade política e social da sodomia como uma acusação e sistematicamente se recusa a considerar a probabilidade de que o discurso reflete uma realidade do comportamento homossexual. Por exemplo, em 1414 rumores diziam de um estalajadeiro da Lucerna que ele havia sodomizado outro homem, mas um magistrado o inocentou da acusação; oito anos depois, em 1422, o mesmo homem foi mais uma vez chamado diante da câmara para explicar por que um ladrão o tinha xingado de sodomita, e ele jurou que nunca havia cometido sodomia; onze anos depois, um cidadão mais uma vez o caluniou como um sodomita e ele de novo asseverou que era um homem de honra, e tanto ele quanto o caluniador foram multados em dez florins. Para Puff, esse é um estudo da difamação e da retórica da fofoca — não as pegadas históricas de um homem que praticara a homossexualidade durante um período de quase vinte anos. O livro de Puff é repleto de erudição sólida, e é um dos melhores produtos da abordagem construcionista, mas ainda assim é fundamentalmente defeituoso por sua recusa dogmática a olhar para além do “discurso”. Não importa quantos exemplos de invectiva e rumores que Puff desvende, ele nega que eles tenham qualquer referência a algo fora do texto e do discurso da homofobia. Isso está em contradição direta com a abordagem do historiador tradicional, que reconheceria que esse padrão de rumores aumenta a probabilidade de o homem ser mesmo homossexual. Estranhamente, Puff de fato reconhece que a difamação sexual regularmente se refere a algo fora de si mesma, isto é, a alguma animosidade pessoal ou política da parte daqueles que expressaram a difamação. É difícil ver sobre quais bases filosóficas Puff pode permitir que o discurso da difamação emerja do preconceito pessoal do difamador, mas não reflita os desejos pessoais do difamado.

Discurso Legal

Teóricos críticos dentro da Teoria Queer se focam muito estreitamente nas percepções e atitudes da sociedade em geral para com os homossexuais. A maioria dos construcionistas sociais, tomando a deixa de Weeks e Foucault, concentram-se no “discurso” da homossexualidade, isto é, a discussão e a investigação de elite da homossexualidade por especialistas profissionais tais como sexólogos e médicos, e eles tendem a ignorar ou descontar as evidências que caem fora desse discurso. Os estruturalistas mais linha-dura defendem que não há fatos objetivos que possam ser estabelecidos fora do campo do discurso textual.

Nosso entendimento da História homossexual do início da modernidade foi depreciado por esse foco reducionista no discurso legal — o que é uma característica comum do modelo construcionista social. Isso levou muitos historiadores a se focarem em atos em vez de pessoas ou desejos. Muitos historiadores da homossexualidade citaram a posição resumida por Jeffrey Weeks em 1977: “o ponto central [do Ato de Henrique VIII de 1533 criminalizando a sodomia] foi que a lei era direcionada contra uma série de atos sexuais, não a um tipo particular de pessoa. Não havia o conceito do homossexual na lei, e a homossexualidade era considerada não um atributo particular mas um potencial de todas as criaturas pecadoras.”(57)J. Weeks, Coming Out: Homosexual Politics in Britain, from the Nineteenth Century to the Present, Londres, 1977, p. 12. Mas a inferência de Weeks é errada. É claro que é verdade que um foco em atos em vez de pessoas é característico de todos os estatutos legais em todos os períodos. Mas isso não é nem surpreendente nem significativo. Identificar escrupulosamente e definir atos em vez de categorias de pessoas sempre foi o trabalho dos legisladores, porque o único modo praticável de controlar as pessoas é controlar as suas ações. As leis regularmente citam os crimes em vez de criminosos, e delitos em vez de delinquentes são a matéria da legislação. As leis da Inglaterra não proíbem ladrões e bandidos de estrada — elas proíbem o furto e o roubo de estrada. Definições legalistas não podem ser tratadas como se fossem exatamente equivalentes a entendimentos sociais. Em sentido nenhum proveem evidências de que os tipos de pessoas susceptíveis ao crime não eram reconhecidos pela sociedade ou na lei. Enquanto os legisladores resolvem a precisão das suas normas, as pessoas que aplicam a lei, além da sociedade em geral, prescindindo do discernimento minucioso da escolástica e de advogados e teóricos queer, com regularidade se referiam a certos tipos de pessoas como “criminosos” habituados: ladrões, bandidos de estrada, batedores de carteira, prostitutas — e sodomitas.

Os construcionistas sociais vendaram seus próprios olhos ao dar o primeiro plano à teoria da lei estatutária em vez de à prática da lei. Na verdade, eram os sodomitas, como pessoas, em vez de seus atos ou papeis, que ocuparam o lugar central dos julgamentos. Dentro do tribunal de Old Bailey, apesar do foco estreito do discurso legalista que estrutura a lei estatutária, a orientação sexual era uma consideração fundamental nas ações penais por infrações sodomíticas. Mais testemunhas eram trazidas a foro para dar provas do caráter (isto é, da natureza de uma pessoa) do que para dar provas de um ato sexual alegado. Vizinhos às vezes reconheciam ter “ouvido murmúrios” de que um réu era “inclinado à Sodomia”.(58)OBP [Old Bailey Sessions Papers Online], abril de 1726, julgamento de George Whittle (ref. no. t17260420-68). Por exemplo, em 1774 três homens pegaram um homem chamado William Pretty em Kensington Gardens e depois extorquiram dinheiro dele pela ameaça de acusá-lo de sodomia; revelou-se que William Pretty, cuja esposa estava há tempos morta, havia sido extorquido de forma similar quatro anos antes, e seus vizinhos testemunharam que ele “tinha o caráter de um sodomita”.(59)OBP, julho de 1774, julgamento de John Clarke, John Pullen e William Rooke (t17740706-60). Testemunhas do caráter eram com frequência chamadas pela defesa para atestar pela heterossexualidade do acusado, como no julgamento de John Burgess, para quem uma mulher depôs que “sei que o [Réu] é… muito apegado a uma Garota bonita para cair em Ações sodomíticas; e isso eu sei por Experiência, com base em minha Palavra, e meu juramento, e minha Honra”.(60)OBP, outubro de 1728, julgamento de John Burgess (t17281016-61). Ele foi condenado. William Brown, apanhado por um michê que se fez de informante da polícia em Moorfields, chamou testemunhas para demonstrar que ele “amava a Companhia das Mulheres mais do que a de seu próprio Sexo”.(61)OBP, julho de 1726, julgamento de William Brown (t17260711-77). Ele foi condenado. Em 1761, William Bailey chamou 18 testemunhas para confirmar que elas “jamais viram qualquer inclinação antinatural por parte dele… ele tinha uma paixão natural pelas mulheres, e nenhuma por seu próprio sexo”.(62)OBP, outubro de 1761, julgamento de William Bailey (t17611021-35). Conforme ilustram esses exemplos, a binariedade heterossexual/homossexual era um pressuposto comum nos tribunais do século XVIII.(63)Esse também era um pressuposto comum de toda a literatura europeia por séculos. Vários romances do século XII ilustram amplamente que não poderiam ter sido escritos ou entendidos sem um pressuposto de que a heterossexualidade era a posição padrão. Presumia-se que homens e mulheres se amavam; que homens tinham seus desejos (carnais) açulados ao ver mulheres bonitas; e que todas as mulheres e todos os homens desejam se casar e apreciar o sexo conjugal. Não há nem mesmo um indício de que seria natural (ou em alguma medida comum) que homens desejassem homens, e nenhum de que as mulheres pudessem desejar mulheres. Talvez o primeiro exemplo de desejo homoerótico a aparecer na tradição dos romances ocorre numa publicação de Marie de France (provavelmente século XII tardio), Lanval, da linha 271 em diante, quando Lanval rejeita as investidas da Rainha porque ele na verdade ama outra mulher, e ela entende mal a frieza dele: “Penso que tu não te importas com esse tipo de prazer. Contaram-me muitas vezes que não tens nenhum desejo por mulheres. Tutelaste mancebos, E tomaste com eles o teu prazer”. As evidências nesse trecho claramente indicam que o amor carnal entre um cavaleiro e rapazes sob sua tutela era considerado primeiramente incomum e, em segundo lugar, antinatural, repreensível e desonroso. Também indica claramente que há duas “formas diferentes de prazer” — isto é, um binário entre heterossexual e homossexual. A alegação (de Jonatahan Ned Katz e outros) de que a heterossexualidade é uma invenção moderna é, francamente, ridícula.

Os delitos homossexuais eram processados nas cortes criminais inglesas pelo uso de uma terminologia legal arcaica que definia o crime da sodomia em termos estatutários como “fazer um ataque doloso… contra a ordem da natureza… para cometer e perpetrar aquele vício detestável, abominável e inominável contra os Cristãos, chamado Sodomia”. Mas, nas Tramitações do Tribunal de Old Bailey do século XVIII, esse discurso Tudor havia se tornado uma fórmula vazia, sobrevivendo apenas no indiciamento. Fora dos indiciamentos em si, os termos “pecaminoso”, “abominável” e “detestável” eram usados por testemunhas em apenas dois julgamentos de um total de 135. Os termos mais fortes usados pelas testemunhas que apareceram no Old Bailey, para descrever o sexo entre homens, foram “sujo”, “vil” e “antinatural”. Apesar da persistência universal da palavra “sodomita”, as percepções derivadas da narrativa bíblica de Sodoma e Gomorra são quase ausentes dos depoimentos dos processos. Uma opinião muito mais secular prevalecia e, à altura do ano 1772, o discurso religioso da sodomia estava sendo ridicularizado em jornais populares como “declamações de fogo e lenha”.(64)Morning Chronicle, 8 de agosto de 1772. Em resumo, o discurso legal nunca é um guia seguro para as percepções públicas.

Um foco no sistema de justiça criminal com respeito aos alegados sodomitas — nos processos de acusação, condenação e punição — produziu uma História da homofobia em vez de uma História da homossexualidade. Muitos historiadores, incluindo historiadores gays, falham em distinguir adequadamente entre a homossexualidade e a homofobia, entre homossexuais e a percepção e repressão aos homossexuais. Enfatizar o controle social da sexualidade é mudar o foco dos gays para os homofóbicos. Quanto mais buscamos a História da homofobia, mais nos arriscamos a perder de vista os homens gays e as lésbicas. O estudo da percepção e da repressão aos homossexuais constitui uma História do preconceito heterossexual, em vez de uma História gay apropriada. Enfatizar o controle legal da homossexualidade, em vez de estruturas e valores da vida homossexual quotidiana, é construir o homossexual como pouco mais que uma vítima de perseguição. Em muitas Histórias da homossexualidade, uma atenção desproporcional foi devotada à documentação da opressão, ao ponto de obscurecer o que foi reprimido. Esse foco predominantemente negativo nas atitudes da sociedade heterossexual, em vez de nos valores da cultura homossexual, construiu o homossexual, sob a virada pós-moderna, como um artefato imaginário da ideologia heterossexual.

Se observamos para além dos indiciamentos formulaicos, começaremos a apreciar que muitos homens foram com efeito processados simplesmente por serem homossexuais. Em 1727, vigias encontraram dois homens deitados no pórtico da igreja de St. Dunstan, Stepney (Londres), abraçados, nus abaixo da cintura, adormecidos ou fingindo dormir. “O Júri, considerando a Vergonha da Postura em que foram pegos, concluiu que não eram melhores que dois daqueles degenerados Canalhas da Raça dos Homens, chamados Sodomitas, e os considerou ambos culpados”.(65)OBP, agosto de 1727, julgamento de John Painter e John Green (t1727083053). Esses dois homens foram postos em pelourinho e aprisionados por uma “contravenção” indefinida e não especificada, que não se referia à sodomia, nem à agressão dolosa, nem mesmo à indecência, principalmente porque eles foram percebidos como pertencentes a uma “Raça” de degenerados. A verdade é que categorias de pessoas, em vez de categorias de atos, formam o cerne da História homossexual nos registros do tribunal de Old Bailey. Durante o século XVIII, os juízes, júris, promotores, testemunhas e os próprios acusados reconheciam duas orientações sexuais mutuamente exclusivas. Os sodomitas eram percebidos como uma minoria delimitada, cujo comportamento sexual era considerado muito estranho, se não repulsivo, um componente integral de seu caráter essencial, e incompatível com uma inclinação heterossexual.

Ao longo do período medieval, os homens que faziam sexo com homens eram com frequência percebidos como misóginos, ou ao menos como não tendo desejo por mulheres, e ao longo da História a determinação de uma mulher a não se casar (que é uma atitude em vez de um ato) era vista como uma característica de um tipo lésbico. A insistência construcionista social de que os “sodomitas” eram percebidos somente em termos de atos em vez de identidades ignorou o fato de que desde ao menos o fim do século XVII o termo comum para o sodomita era “aquele que odeia mulheres”(66)Cf. a balada The Women-Hater’s Lamentation, Londres, 1707: “A natureza eles rejeitaram, / Para gratificar sua Luxúria; / Eles odeiam mulheres ao lado, / Portanto seu Destino foi justo. // Dizei odiadores de mulheres, / O que vosso peito inspira, / Que de um modo Brutal, / Admirais vosso próprio sexo?” [N. do T.: Tradução livre.] Essa não é uma comparação simplista dos sodomitas àqueles que cometem a sodomia, mas uma ênfase às características de personalidade. — o que ressalta claramente uma das características consideradas centrais para uma orientação em relação ao gênero em vez de a um ato sexual específico tal como o sexo anal. Algo equivalente a “odiar mulheres” é comum em muitas línguas antigas, em que termos que denotam a atração pelo mesmo sexo são complementados por termos que sugerem uma orientação de repelência pelo sexo oposto — o mesmo tipo de antipatia inexplicável atribuída a homossexuais por sexólogos dos séculos XIX e XX. A resistência do janota e do almofadinha às atrações das mulheres é um elemento comum da comédia do período da Restauração da Monarquia e do século XVIII. Na peça de Thomas Baker, O Fazendeiro de Kent (1703)(67)N. do T.: Tradução livre., a sra. Hillaria, que tenta mas falha em seduzir o molly(68)N. do T.: Molly, um nome comum feminino, plural mollies, foi uma gíria britânica do século XVIII para se referir a gays. sr. Maiden, afirma que “Penso que nada pode ser feito desse Sujeito, há algo em sua natureza que é contrário ao Amor” (p. 42).(69)N. do T.: Note que o nome do personagem sr. Maiden é parte da sátira, pois “maiden” significa “donzela”. Em inúmeras sátiras, uma característica distintiva dos “Antinaturalistas” é que eles são “Desertores da Feira de Frutas”.(70)The Fruit-Shop, A Tale; or, A Companion to St. James’s Street, Londres, 1766, vol. I, p. 160. — N. do T.: A referência a frutas do satirista provavelmente tem a ver com a semelhança de algumas frutas com genitais.

Papeis Sexuais

Há muito poucas provas para justificar que homens acusados de sodomia fossem classificados como libertinos sexuais. Em textos modernos sobre a História sexual, o “libertino” da Restauração é regularmente deturpado como um bissexual. Mas, na verdade, o “libertino” arquetípico da vida e da literatura era um mulherengo e sua sexualidade dissoluta era quase exclusivamente heterossexual. A libertinagem da Restauração desgraçava as mulheres, não os jovens. A poesia obscena de John Wilmot, Conde de Rochester (1647-1680), de fato afirma uma bissexualidade indiscriminada, mas as anedotas sobre a vida pessoal de Wilmot são na maior parte sobre suas amantes, e há apenas um rumor contemporâneo que alega que ele também fazia sexo com um pajem. Além de Wilmot, há apenas dois ou três exemplos do “libertino bissexual” na Inglaterra. Como aponta Michael Young, “Qualquer um que lê amplamente a História da homossexualidade encontra esses poucos exemplos repetidos incestuosamente de um trabalho para outro”.(71)M. Young, King James and the History of Homosexuality, New York University Press, 2000, p. 146.

As alegações de que a sexualidade era “fluida” antes dos tempos modernos e a grande tese de Randolph Trumbach, de que um tipo de bissexualidade indiferente era a norma universal entre os homens antes do século XVIII, não são apoiadas pelos dados dos séculos XVII e XVIII. Nos julgamentos, a maioria dos homens acusados de práticas homossexuais eram solteiros. Os registros de julgamentos sugerem que a percepção popular de uma binariedade delimitada entre heterossexualidade e homossexualidade emerge de observações precisas. Dos 65 homens implicados em delitos sodomíticos julgados no Old Bailey de 1715 a 1760, um período em que o percurso das tramitações judiciais é completo e bem detalhado, dois terços (63%) parecem ter sido solteiros e sem nenhuma relação com mulheres: tipicamente, eles viviam solitários em alojamentos, ou nas instalações de seu amo se fossem aprendizes ou serviçais. Somente um sexto (17%) eram casados ou chamaram testemunhas para atestar que eles amavam mulheres. Essa minoria de homens tecnicamente bissexuais incluía homens que estavam viúvos há muitos anos, homens separados de suas esposas, e homens como Thomas Rodin, apelido Ellinor, que, em outubro de 1722, foi acusado de tentativa de sodomia: de acordo com um homem que alegou ter visto Rodin fazendo sexo com outro homem, Rodin “estava tão longe de ter vergonha de tal Coisa, que se vangloriava disso; pois ouvi-lo dizer depois que ele tinha mais Prazer em se deitar com um Homem do que com a mais bela Mulher do Mundo; e que ele não tinha tocado em sua esposa por nove Meses”.(72)Julgamento de Thomas Rodin, in Select Trials (Londres, 1742), 1:280-282; a versão publicada nos Proceedings é menos detalhada (OBP, outubro de 1722, julgamento de Thomas Rodin [t17221010-2]). Se os comentários de Rodin foram relatados com precisão, então vemos aqui um homem que refletiu sobre a sua natureza o suficiente para fazer uma declaração sobre a sua preferência a homens mais que a mulheres. Está claro que essa preferência homossexual é não apenas muito forte, como também que ele não é tanto “um bissexual” quanto alguém que cruzou o limiar e está a caminho de se tornar exclusivamente homossexual. Mesmo se essa for uma acusação falsa — pois o acusador tinha ressentimento de Rodin, e Rodin foi absolvido — ainda assim a acusação demonstra que alguém podia conceber um “sodomita” que claramente preferia homens a mulheres apesar de ele ser casado. Rodin não foi retratado como um libertino interessado indiscriminadamente em qualquer um dos sexos. O acusador trabalhava num bordel como cafetão, e esse incidente aconteceu alegadamente nos alojamentos acima do bordel (não no próprio bordel), então essa concepção de um certo tipo de homossexual vinha de um homem que presume-se que tinha algum conhecimento do submundo erótico. (Em um quinto dos casos (20%), não há informação suficiente disponível para determinarmos o status conjugal ou relações com mulheres.)

Uma carta a um jornal em 1722 expressou a crença comum de que os sodomitas tinham mulheres para disfarce: “Eles têm várias amantes para dois propósitos: primeiro, elas removem toda suspeita; segundo, estão disponíveis para aparecerem caso precisem no Old Bailey, para servirem de contraprova à acusação feita contra eles, pois não seria o Cavalheiro viciado em mulheres?”(73)Public Ledger, 5 de agosto de 1722; ver na íntegra no meu website, Homosexuality in Eighteenth-Century England: A Sourcebook, http://rictornorton.co.uk/eighteen/jones7.htm. Numa carta de amor homossexual publicada em 1723, que tenho defendido que é genuína e foi escrita antes de 1694, o Conde de Sunderland explica a seu namorado que ele tomou uma amante “para parar algumas Reflexões de boa intenção feitas a respeito da minha Indiferença nessa direção”.(74)Love-Letters Between a certain late Nobleman And the famous Beau Wilson; para uma discussão completa ver R. Norton, Mother Clap’s Molly House, edição de 2006 (Chalford Press), Capítulo 2. Em um memorial escandaloso publicado em 1791, Marie Antoinette é retratada como uma lésbica que deliberadamente disfarçou sua paixão por mulheres ao tomar homens como amantes: “ao ser licenciosa abertamente com suas inclinações de um modo, ela imaginou que tinha escondido com eficácia o real objeto de suas buscas”.(75)Memoirs of Antonina, Queen of Abo. Displaying the Private Intrigues, and Uncommon Passions. With Family Sketches, and Curious Anecdotes of Great Persons. Traduzido do francês. Dois volumes em um. Londres: Impresso para E. Bently, no. 22, Fetter Lane, 1791; vol. I, p. 32. Sarah Churchill, em 1708, disse que a Rainha Anne “não tinha inclinação por qualquer um exceto o próprio sexo”. Abigail Masham, a favorita da Rainha Anne, é descrita numa sátira como percebendo que ela vista como “bastante viciada em outro Tipo de Paixão, de ter uma Consideração grande demais por meu próprio Sexo, a tal medida que poucas Pessoas pensaram que eu um dia me Casaria; mas para me livrar dessa Aspersão sob a qual algumas de nosso Sexo trabalham, por gostarem demais umas das outras, decidi me Casar tão rápido quanto pudesse arranjar para minha Vantagem ou Inclinação”.(76)The Rival Dutchess; or, Court Incendiary, Londres, 1708, pp. 6-7. Dessa forma vemos que a aparência de desejar o sexo oposto enquanto na realidade se deseja o mesmo sexo é dificilmente uma invenção moderna.

Papeis Sexuais de Ativo/Passivo

Outro equívoco que foi promovido pelo foco em atos estruturais em vez de identidades essenciais contribuiu para a falsa alegação de que, antes da invenção do homossexual moderno, as relações homossexuais foram construídas seguindo um plano binário com um jogo de papeis “ativo” ou “passivo” estritos. O discurso legal europeu sobre os delitos sodomíticos herdou a distinção entre “agente” e “paciente” usada no Direito romano e no cânone legal eclesiástico. Isso foi explorado por sociólogos em sua construção de tipologias dos papeis sexuais. Entretanto, nenhuma História social útil será servida pela análise de uma distinção alegada entre os papeis “ativo” ou “introdutor” e “passivo” ou “receptor”. Em contraste, as evidências muito plenas dadas durante os julgamentos sodomíticos no tribunal de Old Bailey revelam uma descrição nuançada e abrangente de uma sexualidade gay que vai bem além dos papeis ativo/passivo. Os julgamentos contêm ampla evidência de que os assim chamados “sodomitas” gozavam de uma ampla gama de atividades, incluindo beijos, aconchegos, palavras de amor, carícias, exibição sexual, masturbação mútua, sexo oral e sexo anal recíproco. Às vezes tudo isso ocorria no curso de um único encontro: Por exemplo, em 1772, Charles Gibson beijou um homem de 19 anos no pub Red Lion em Moorfields, depois saiu para os fundos com ele para urinar, onde segurou seu pênis e disse que “era um muito bom, e que ele gostou muito dele”; depois eles foram para a casinha de latrina, onde Gibson sentou o outro homem e o masturbou até que ejaculasse; depois Gibson o beijou “mui calorosamente” enquanto desabotoava seus próprios calções e punha a mão do outro homem em seu próprio pênis; depois Gibson começou a fazer cócegas, massagear, beijar e chupar o pênis do outro homem até que estivesse ereto mais uma vez, e então se virou e se sentou nu sobre o colo do outro homem, direcionando o pênis do outro a seu traseiro. Depois que terminaram, Gibson pediu ao outro homem que mudasse de posição com ele para que ele pudesse sodomizá-lo de volta.(77)OBP, setembro de 1772, julgamento de Robert Crook e Charles Gibson (t17720909-18). Categorizar Gibson como um “homem adulto passivo” seria grosseiramente enganoso. Semelhantemente, muitos homens se revezavam ao sodomizar um ao outro, e muitos homens confessaram masturbação mútua mas negaram a sodomia. Uma maioria deles gostavam de um pacote integrado e variado de amor e sexo, para o qual uma tipologia de “papeis” rigidamente distintos de “ativo” e “passivo” é, na prática, sem sentido.

O discurso da penetração, como é empregado por teóricos que reduzem a relações de poder, não nos ajuda a entender a História da homossexualidade, que deve se focar, em vez disso, nas nuances do desejo. Muitos julgamentos envolveram homens que pegavam e sodomizavam aprendizes ou garotos de recados; com certa frequência o homem mais velho, depois de terminar de sodomizar o mais novo, pedia ao homem mais novo “para fazer o mesmo com ele”, uma clara indicação de que a penetração ativa não era seu único interesse. No entanto, em muitos exemplos o homem mais novo se recusava porque, nas palavras de um desses rapazes, ele não era “esse tipo de homem”.(78)OBP, dezembro de 1721, julgamento de George Duffus (t17211206-20). Tais dados devem ser tratados como evidências do desejo (ou da falta disso) em vez de evidências de interpretação de papeis. Em tais encontros, “esse tipo de homem” era claramente classificado como um homossexual que desejava sexo recíproco. Os historiadores construcionistas usaram erroneamente esses dados para construir um paradigma que alega que homens mais velhos “ativos” regularmente se pareavam com homens mais novos “passivos”. Um paradigma mais preciso simplesmente classificaria o homem mais velho como um homem com uma orientação homossexual, e seu parceiro mais novo como um parceiro comercial, ou seja, um rapaz heterossexual que não era contrário a praticar sexo em troca de dinheiro ou outro benefício contanto que ele não iniciasse esse sexo e portanto se sentisse compelido a classificar a si mesmo como um homossexual. Isto é, tais dados ilustram categorias de pessoas em vez de categorias de atos.

Tais dados também contradizem o modelo antropológico ortodoxo, segundo o qual somente aqueles homens que se engajam em sexo “passivo” são estigmatizados como homossexuais, enquanto o parceiro “ativo” não é estigmatizado ou classificado com uma identidade específica porque ele teria o mesmo papel de homens heterossexuais e portanto seria parte da norma. Os registros no tribunal de Old Bailey mostram o exato oposto: o que é estigmatizado e em consequência classificado com uma identidade é aquele que expressa um desejo homossexual, não importa seu papel sexual ou ato específico, enquanto o que se submete à proposta sexual, mesmo se envolver sexo “passivo”, não se sente implicado no desejo, assim escapando da estigmatização e da identidade.

Isso nos leva a uma importante questão no debate entre construcionistas sociais e essencialistas: a existência de uma identidade social homossexual antes dos tempos modernos.

Identidade e Subculturas

Uma consciência de um desejo erótico avassalador e quase exclusivo em direção a alguém do mesmo sexo está na raiz da identidade homossexual, e há uma abundância de evidências de que essa consciência existiu bem antes do século XIX. Identidades próprias são especialmente prováveis de tomar forma quando os homens são desafiados a justificar seu comportamento. Sabemos que os sodomitas eram regularmente confrontados sobre a natureza da sua sexualidade pelos garotos de recados que eles pegavam para sexo, que muitas vezes expressavam espanto diante da ideia do sexo entre homens. Muitos sodomitas estavam preparados para defender suas ações e justificar a si mesmos. Uma resposta era que diziam que já haviam desfrutado de experiência prévia e regular do mesmo tipo, e que era portanto nada com o que se preocupar. Alguns homens aderiam à filosofia do Esclarecimento de Locke, segundo a qual “todo homem tem posse de seu próprio corpo: a ele ninguém tem direito a não ser ele mesmo”. Dessa forma, quando William Brown, apanhado em Moorfields, teve de responder a um policial que perguntou por que ele havia tomado tais liberdades indecentes, Brown “não teve vergonha de responder, eu o fiz porque pensei que o conhecia, e acho que não há Crime em fazer o uso que eu quiser do meu próprio Corpo”.(79)OBP, julho de 1726, julgamento de William Brown (t17260711-77); e Select Trials (Londres, 1742), 3: 39-40. Esse tipo de justificação não era incomum. Em 1718, um vigia flagrou duas pessoas fazendo amor apoiadas nas balaustradas na frente da Igreja de Covent Garden. Quando ele as abordou, viu que ambas eram homens, e começou a chamá-los de sodomitas sujos. Um dos homens, cujos calções estavam baixados até os tornozelos, respondeu “Sirrah! o que tens com isso, não posso fazer uso do meu próprio Corpo? Não fiz nada que eu não vá fazer de novo.”(80)OBP, dezembro de 1718, julgamento de John Bowes e Hugh Ryly (t1718120524).

Em um dos primeiros documentos da História gay, em 1698, o Capitão Edward Rigby foi condenado por tentativa de sodomia de William Minton, um rapaz de 19 anos que ele havia pegado no Parque St. James no dia 5 de novembro, Noite da Fogueira.(81)N. do T.: Na Grã-Bretanha se comemora na noite deste dia o fracasso dos planos de Guy Fawkes de explodir as Casas do Parlamento em 5 de novembro de 1605. Há fogueiras, figuras de papel machê imoladas pelas ruas e fogos de artifício. Quando Rigby disse a Minton que “Ele havia excitado sua lascívia ao mais alto grau”, Minton perguntou-lhe “Como pode ser? Somente uma mulher serviria para isso”, e Rigby respondeu “Que se danem, são todas Port,(82)N. do T.: Aqui, não está claro que sentido a palavra Port tem. Poderia ser uma comparação ao vinho do Porto ou uma comparação com escotilhas, mais ofensiva. não quero nada com elas”. Embora o jovem não homossexual pareça não estar ciente da existência da possibilidade de homens desejarem sexo com homens, Rigby, em posse de tal desejo, não apenas percebe que há dois tipos distintos de desejo sexual — de um homem por outro homem, e de um homem por uma mulher — mas também claramente acredita que o primeiro é tão preferível ao segundo que ele está interessado exclusivamente no primeiro. Em outras palavras, Rigby percebe que há duas orientações sexuais distintas, que agora chamamos de homossexual e heterossexual, e vê esses desejos como mutuamente excludentes. Isso ilustra duas características supostamente da posse apenas do “homossexual moderno”: uma crença na binariedade heterossexual/homossexual e uma homossexualidade exclusiva. Embora Minton perceba o binário masculino/feminino, ele não tem experiência suficiente para reconhecer a existência do binário heterossexual/homossexual, enquanto Rigby é plenamente ciente deste: isso sugere que a consciência desse binário emergiu no próprio homossexual, em vez de ser uma ideia ou construção forçada sobre ele pela sociedade heterossexual ou não homossexual em geral. Quando Rigby pergunta a Minton “se poderia Fodê-lo”, Minton exclama “como pode ser”, e Rigby responde “não é nada além do que já foi feito no tempo dos nossos Ancestrais”, dizendo a ele que Jesus e João eram parceiros sodomíticos e alegando “Que o Rei Francês o fazia, e o Czar de Moscou fez de Alexander, um Carpinteiro, um Príncipe para esse propósito”. Como homossexuais ao longo dos séculos XIX e XX, Rigby justifica seu desejo homossexual pela alegação de que foi praticado por pessoas famosas ao longo da História. Essa postura marcantemente “moderna” demonstra que Rigby punha a si mesmo dentro de uma categoria de pessoas que gostavam do sexo homossexual — isto é, via a si mesmo como um membro de um grupo delimitado por seus desejos sexuais. Não parece de modo algum anacrônico para mim chamar o Capitão Rigby de “um homossexual”.(83)Para o texto completo do panfleto do julgamento e reportagens contemporâneas nos jornais, ver Rictor Norton, “The Trial of Capt. Edward Rigby, 1698”, Homosexuality in Eighteenth-century England: A Sourcebook, http://rictornorton.co.uk/eighteen/rigby.htm.

Parece inevitável para mim que algum grau de autoconhecimento homossexual teria emergido nas mentes dos homens que tinham sexo regular com homens. Todas as provas dadas nos processos do tribunal de Old Bailey contradizem categoricamente o consenso pós-moderno, expressado por Tim Hitchcock, de que “A vasta maioria dos homens do século XVIII que cometiam sodomia não pensavam em si mesmos como nada além de membros comuns e cotidianos da sociedade. Eles não pertenciam a uma subcultura, nem tinham uma identidade própria distintiva. Considerariam o sexo com outros homens simplesmente como uma extensão das formas de comportamento sexual comuns no cortejo e no casamento.”(84)Tim Hitchcock, English Sexualities, 1700-1800, Macmillan, 1997, pp. 63-64. A alegação de que os homens eram indiferenciadamente “sexuais” ou bissexuais antes da alegada construção do binário hétero/homo no fim do século XIX é flagrantemente bizarra. Qualquer alegação de que o praticante habitual de relações com o mesmo sexo era indiferente à rotulação que poderia receber é facilmente refutada pelo número de homens que cometeram suicídio depois de serem levantadas contra eles suspeitas ou acusações de que fizeram sexo com outros homens. Em 1701, o ajudante de paróquia da Igreja de St. Dunstan-in-the-East, “ao ser dispensado de sua Posição após Suspeita de um Crime antinatural”, cortou a própria garganta.(85)English Post, 5-7 de março de 1701. Muitos dos primeiros mollies(86)N. do T.: Molly, um nome comum feminino, plural mollies, foi uma gíria britânica do século XVIII para se referir a gays. a serem presos, em 1707, se enfocaram ou cortaram suas gargantas enquanto aguardavam julgamento. Em 1728, um tapeceiro chamado Thomas Mitchell foi preso por cometer sodomia, e a esse ponto “ele tentou, e quase conseguiu, destruir a si mesmo, ao cortar a grande Artéria do seu Braço Esquerdo quase totalmente”, mas os cirurgiões salvaram a sua vida apesar da grande perda de sangue, e ele foi em seguida indiciado por sodomia.(87)Weekly Journal; or, British Gazetteer, 14 de dezembro de 1728. Em 1752, um homem preso por práticas sodomíticas perto da Torre de Londres teve fiança concedida e logo depois se enforcou.(88)General Advertiser, 2 de setembro de 1752. Em setembro de 1772, um comerciante de Southwark se enforcou depois de ser pego fazendo sexo com seu aprendiz de 13 anos.(89)The Craftsman; or Say’s Weekly Journal, 26 de setembro de 1772.

Qualquer alegação de que a sociedade era de modo geral tolerante às relações com o mesmo sexo é facilmente refutada por uma superabundância de casos em que um homem rejeita veementemente as investidas sexuais de outro. Num incidente típico, em 1701, quando um rapaz foi abordado por outro homem na “casa de ofício” da Pousada Lincoln, que “revelou a ele a sua Inclinação de Cometer o Pecado imundo da Sodomia, com ele, e tentou forçá-lo”, o rapaz gritou e os porteiros e sentinelas da pousada correram à sua ajuda, e lançaram o ofensor na casa de ofício.(90)London Post, 20-23, junho de 1701. Esses homens não exibem evidências de aceitarem casualmente investidas do mesmo sexo. Claramente um estigma estava em operação, um estigma que não é compatível com uma bissexualidade indiscriminada ou uma sociedade indiferente e liberal. A partir do começo do século, há numerosos casos de homens sendo açoitados e postos no pelourinho por acusar falsamente outros homens de sodomia. Em vez de os homens serem indiferenciadamente bissexuais, eles temiam por sua reputação com respeito à orientação sexual, e chantagistas que ameaçavam acusá-los de serem inclinados à sodomia eram detestados. A asserção de que a sodomia era considerada simplesmente uma alternativa não é amparada pelo número de testemunhas que pareciam genuinamente surpresas e chocadas pelas cenas sodomíticas que presenciavam. Ao menos uma mulher ficou tão assustada por isso que quase desmaiou: “a Mulher, que espiava por um bom tempo, finalmente gritou Não posso olhar mais! Vou desmaiar! Ele arruinará o Garoto”.(91)OBP, abril de 1722, julgamento de John Dicks (t17220404-29). A sodomia estava claramente numa categoria separada muito especial fora da norma, algo desnatural, algo estranho. Já que uma maioria das pessoas comuns pensavam dessa forma, é provável que muitos sodomitas também se sentiam assim ou ao menos se sentiam compelidos a contestar a opinião comum. É difícil ver como homens que sabiam do estigma aplicado a eles não teriam a sua identidade moldada por esse estigma de alguma forma. Quando sodomitas eram capturados e arrastados para a sarjeta, eram rotulados com nomes como “sodomita”, “molly” e “buggerer”. Com tais rótulos eram forçados a ver que pertenciam a uma categoria de homens diferente da norma. Homens que faziam sexo com homens liam os mesmos jornais e sátiras que o resto da sociedade, e testemunhavam homens semelhantes a si postos no pelourinho em muitas esquinas e pendurados na forca em Tyburn.(92)N. do T.: Tyburn é uma vila no condado de Middlesex, localizada em atuais bairros de Londres, onde se faziam execuções públicas no período. Os sodomitas não poderiam ter permanecido alheios à sua própria identidade quando todos os outros na sociedade tinham alguma noção dela.

Ao menos uma identidade sexual básica (embora não necessariamente uma identidade social ou cultural) pode ser deduzida dos casos de infratores reincidentes, que podem ser às vezes rastreados nos registros. Tal era o caso de Richard Manning, que em 1745 foi condenado por transar com outro homem e encarcerado por seis meses e, exatamente seis meses depois, no mesmo dia em que foi libertado, ele tentou pegar um homem na Fleet Street e foi novamente preso, dessa vez por doze meses. Essa pode ser uma boa ilustração da teoria defendida por Hester Lynch Thrale Piozzi, uma amiga do Dr. Johnson, que pensava que os sodomitas tinham de esconder e reprimir os seus desejos a tal grau que, quando agiam de acordo com eles, quase perdiam o controle e a cautela, muitas vezes com consequências desastrosas de flagrantes. A sra. Piozzi era uma astuta observadora dos sodomitas e comentava com frequência sobre eles em seus diários privados. Por exemplo, ela pensava que o dramaturgo Richard Cumberland era um sodomita, porque “ele é tão superatento, tem aparentemente tanto medo de sua Esposa, que parece pouco capaz de esconder o Ódio & Repulsa que ela tem dele, enquanto a corteja diligentemente na esperança de que todos de alguma forma o observarão”. Ela até percebeu essas inclinações no drama ou ficção dos escritores: “Cumberland se estende a respeito dos Charmes pessoais de seus Heróis sempre com uma afeição voluptuosa extremamente particular, como se ele próprio estivesse Apaixonado por eles. O mesmo pode ser observado em Vathek, um Romance escrito por Beckford com muita Criatividade, pois então Beckford é um Professor da Pederastia. … A Propensão favorita do sr. Beckford é o tempo todo visível, penso eu”.(93)Para citações e fontes completas, ver Rictor Norton, “Mrs Piozzi’s Reminiscences”, http://rictornorton.co.uk/eighteen/piozzi.htm. Sendo ou não precisas as observações da sra. Piozzi, claramente indicam que as pessoas do fim do século XVIII especulavam sobre a natureza dos homossexuais.

Alguns homens eram homossexuais autoconscientes inquestionáveis, como o grande colecionador e empreiteiro William Beckford, que se identificava explicitamente como pederasta e colecionava recortes de notícias sobre sodomitas e travestis e os colava em álbuns,(94)Rictor Norton, “William Beckford’s Gay Scrapbooks”, Gay History and Literature, http://rictornorton.co.uk/beckfor2.htm; Rictor Norton, “Oddities, Obituaries and Obsessions: Early Nineteenth-Century Scandal and Social History Glimpsed through William Beckford’s Newspaper Cuttings”, The Beckford Society Annual Lectures 2004–2006, ed. Richard Allen, The Beckford Society, 2008. um recurso também usado por homens gays no século XX para consolidar sua identidade gay. Mas penso que podemos dizer que homens menos letrados que eram homossexuais habituais também eram claramente guiados por seu desejo e possuíam uma identidade sexual autoconsciente, como John Twyford, que em 1745 disse que “ele amava um soldado como amava a própria vida”.(95)OBP, julho de 1745, julgamento de John Twyford (t17450710-17). Ou como William Marriot, de quem disseram, em seu julgamento em 1707, que era “tão notoriamente viciado a esse tipo de Lascívia que ninguém poderia ficar quieto na Royal Exchange [bolsa de valores], nem mesmo na hora da mudança de turno, sem ser perturbado pelas ações Obscenas & Repugnantes dele; & que ele contou a alguém sobre as Provas, que era muito mais prazeroso para ele que o uso de uma Mulher”.(96)Tryal, Examination and Conviction Of several Notorious Persons call’d Sodomites, No Guild-Hall na Segunda-Feira, 20 de outubro de 1707. Ou como Henry Thorp, que em 1729 respondeu às investidas de um homem que então ameaçou denunciá-lo se não lhe desse dinheiro; Thorp expressou seu desesperou por sucumbir a desejos aos quais já havia atendido cinco anos antes mas suprimira até ali, e posteriormente se enforcou.(97)OBP, agosto de 1729, julgamento de George Wood e Joseph Pinhorn (por roubo / assalto em estrada, t17290827-35). A vergonha era um fator de algumas identidades homossexuais do século XVIII, tanto quanto foi nos anos 1950: os jornais às vezes relatavam suicídios que se seguiam a encarceramentos por solicitação,(98)Para dois casos de 1752, ver http://rictornorton.co.uk/eighteen/1752news.htm. e um escândalo público era às vezes seguido de uma onda de suicídios ou de homens fugindo do país.

Subculturas

A posição construcionista social de que a homossexualidade não poderia ter se tornado uma característica definidora da identidade até o discurso médico/sexológico dos tempos modernos é simplesmente incorreta. O “demônio” do desejo tem sido parte da psicodinâmica da identidade por muitos séculos. De forma talvez mais interessante, os registros legais através da Europa claramente documentam a existência não apenas de homens que preferiam seu próprio sexo e estavam cientes dessa preferência como uma característica definidora da identidade, mas também de homens que participavam de subculturas urbanas homossexuais, que iam das subculturas geográficas dos locais de caça do sexo às subculturas altamente organizadas dos estabelecimentos comerciais.

Desde o começo do século XVIII, havia locais de caça populares em Londres para o contato homossexual, entre eles a London Bridge, os arcos cobertos da Royal Exchange e parques públicos. Moorfields, ao norte dos muros da cidade, era cruzado por uma trilha conhecida como o “Caminho dos Sodomitas”, onde homens ficavam parados ao longo do muro, fingindo urinar, enquanto esperavam por um homem para pegá-los.(99)Julgamento de Goddard e Rustead, 1725, in Select Trials at the Sessions-House in the Old Bailey (Dublin, 1743), 2:173-176. O parque St. James era frequentado por guardas fazendo as vezes de prostitutos, ou por chantagistas de homens que respondessem à sua solicitação. Um soldado e seu irmão, no início dos anos 1760, disseram que pegaram e chantagearam 500 cavalheiros no beco de Bird Cage, no parque.(100)OBP, dezembro de 1759, julgamento de Thomas Brown e James Brown (t17591205-24); e setembro de 1763, julgamento de James Brown (t17630914-52). É provável que muitos desses cavalheiros estivessem buscando negócios arriscados,(101)N. do T.: Tradução livre para a gíria “rough trade”, que significa “atos sexuais [consensuais] violentos, por vezes brutais, ou uma pessoa, geralmente um prostituto, que aparenta participar de tais atos” (Ver Urban Dictionary, https://www.urbandictionary.com/define.php?term=Rough%20trade). e encontraram.

Esses locais de caça eram usados tão regularmente por homens buscando sexo com homens que está claro que sua principal meta era fazer contato uns com os outros, ou com michês, em vez de simplesmente pegar garotos de recados héteros ou transeuntes inocentes. As provas em juízo mostram bem claramente que o sexo gay não era uma oportunidade casual ou incidental que emergia fortuitamente durante uma caminhada no parque. John Mitchell, que se gabou que seu pênis tinha 23cm, disse que “quando ele queria Dinheiro, caminhava pelo Parque e ganhava 4 ou 5 guinés por noite dos Cavalheiros, para que eles não fossem expostos”.(102)OBP, abril de 1729, julgamento de John Mitchell (t17290416-51). O sexo homossexual era deliberadamente buscado por homens que iam a lugares específicos onde sabiam que encontrariam outros homens que queriam fazer sexo com homens. Eles usavam gírias especializadas tais como a expressão “pegar negócios”. Usavam um sistema de sinais e gestos cifrados para indicar sua disponibilidade tais como sentar-se em um banco e dar palmadinhas nas costas das mãos; ou perfurar um lenço branco com a cauda de suas levitas e balançá-lo enquanto caminhavam para os arbustos. Homens que participavam da subcultura homossexual da Holanda sabiam e discutiam essas práticas britânicas para pegar homens.

A evidência mais clara de uma identidade homossexual coletiva na Inglaterra do século XVIII pode ser vista na subcultura organizada das ditas “molly houses”, que serviam exclusivamente a homens homossexuais. Ao menos 30 dessas casas desregradas foram investigadas ao longo do século.(103)Dezessete são listadas por R. Trumbach, R. “London”, in D. Higgs (ed.), Queer Sites: Gay urban histories since 1600, London and New York: Routledge, 1999, pp. 89–111, esp. n. 6, p. 111. Algumas eram acomodações privadas, mas algumas eram bares ou cafeterias comerciais onde 50 ou 60 homens se reuniam, especialmente em noites de domingo. Três molly houses eram administradas por homens e mulheres casados, mas a maioria delas eram mantidas por homens gays. Robert Whale e York Horner — conhecidos, respectivamente, como Peggy e Pru — viveram juntos por ao menos três anos antes de seu molly pub sofrer uma batida policial.(104)Eles foram condenados no tribunal de King’s Bench em vez de Old Bailey; reproduzi as reportagens relevantes em http://rictornorton.co.uk/eighteen/1726news.htm e http://rictornorton.co.uk/eighteen/1727news.htm. Os sodomitas socializavam uns com os outros nas molly houses, onde cantavam músicas obscenas e dançavam em passos tradicionais, faziam uma balbúrdia, engajavam-se em comportamento afetado e afeminado, às vezes faziam sexo nos quartos dos fundos e às vezes até se casavam em cerimônias formais de matrimônio.

Uma vez dentro de uma molly house, homens da classe trabalhadora e artesãos respeitáveis se descontraíam. Transformavam-se em queens espalhafatosas, efeminavam-se, falavam safadezas e se estapeavam, tudo isso capturado em depoimentos vívidos em juízo e também nas sátiras. A mais famosa molly house da Grã-Bretanha era uma cafeteria desordenada na Field Lane, bairro londrino de Holborn, mantida por Margaret Clap, conhecida como Mãe Clap. Suas instalações, frequentadas por mollies de um perímetro de 80km para além de Londres, tinham o que era conhecido como uma “sala de casamento”.(105)OBP, julho de 1726, julgamento de Margaret Clap (t17260711-54). Semelhantemente, o Royal Oak, um pub grande na esquina da Praça de St. George, rua Pall Mall, tinha, alega-se, uma sala chamada “a Capela” onde os homens podiam “se casar” entre si.(106)OBP, abril de 1726, julgamento de George Whittle (t17260420-68). Um casamento molly foi celebrado em 1728 entre um açougueiro chamado Thomas Coleman e John Hyons, um imigrante francês que usava o apelido Queen Irons. Antes, os dois haviam sido postos juntos no pelourinho e aprisionados por três meses.(107)Ver A Genuine Narrative of all the Street Robberies committed … by James Dalton (1728), parcialmente reproduzido em http://rictornorton.co.uk/eighteen/1728dalt.htm. Eles foram julgados no Guildhall. Ver Weekly Journal, 22 de outubro and 12 de novembro de 1726 (http://rictornorton.co.uk/eighteen/1726news.htm). Uma música obscena supostamente cantada por Queen Irons tinha o refrão “Entre nós mesmos seremos livres”.(108)’But Among Our Own Selves We’ll Be Free’, reproduzida em http://rictornorton.co.uk/eighteen/lechery.htm. Um julgamento registra o refrão de uma autêntica canção molly: “Venham, vamos foder com gosto”.(109)Julgamento de Thomas Wright, Select Trials (London, 1742), 2: 367–9. Esse detalhe é omitido dos impressos Proceedings, OBP, abril de 1726, julgamento de Thomas Wright (t17260420-67). Uma dama de honra desse casamento molly foi James Oviat, apelidado de Miss Kitten [Srta. Gatinha]; ele era um assaltante urbano e regularmente chantageava homens depois de oferecer sexo a eles.(110)Ver minhas anotações em A Genuine Narrative . . . by James Dalton (1728), em http://rictornorton.co.uk/eighteen/1728dalt.htm. Ele foi posto no pelourinho em 1728 por extorsão: OBP, fevereiro de 1728, julgamento de James Oviat (t17280228-82). Outra dama de honra foi John Cooper, um pajem de cavalheiros desempregado e travesti frequente conhecido de todos na vizinhança onde vivia como “Princesa Seraphina”. Quatro anos depois ele foi travestido para o primeiro ridotto al fresco [show de variedades ao ar livre] realizado em Vauxhall Gardens em 1732. Ele ganhava dinheiro pegando homens e arranjando encontros entre sodomitas.(111)OBP, julho de 1732, julgamento de Thomas Gordon (t17320705-30). Usando uma combinação de biografias de panfletos criminais, reportagens de jornais e julgamentos no tribunal de Old Bailey, é possível estabelecer que Princesa Seraphina estava no centro de uma rede de cerca de dez pequenos ladrões e cerca de duas dúzias de homens gays, e documentar as atividades que aconteciam com regularidade em várias molly houses ao longo de três ou quatro anos. Desse modo, uma imagem representativa de uma subcultura homossexual bem organizada pode emergir de um estudo biográfico centrado nesse único indivíduo que, como muitos outros, viveu e trabalhou inteiramente dentro de uma comunidade de homens gays.

Se as molly houses fossem simplesmente fenômenos de um submundo libertino, esperar-se-ia encontrar estabelecimentos mistos onde todas as variedades de sexo fossem oferecidas. Podemos levantar a pergunta: Um homem que ia a casas obscenas para fazer sexo com mulheres também ia às molly houses para fazer sexo com homens? Isto é, um mesmo e único homem usaria ambas as instituições dependendo da experiência que queria ter em diferentes ocasiões? Ou, similarmente, um homem que frequentasse casas obscenas ia às vezes às molly houses para variar ou por curiosidade? A resposta a todas essas perguntas é: Não. Não há provas de que tais práticas “libertinas” ocorriam. Certamente não com frequência, de outro modo teriam deixado algum sinal nos registros; mas não há provas de que ocorreram em absoluto. Os homens que iam às casas obscenas e os homens que iam às molly houses quase nunca expressavam um interesse no sexo oposto enquanto estavam nesses estabelecimentos respectivos. As molly houses eram exclusivamente homossexuais, com somente uma categoria de patrono buscando somente uma categoria de experiência. Isto não é para alegar que todos os clientes das molly houses eram exclusivamente homossexuais. Sabemos que alguns mollies eram homens casados e tinham esposas. Mas não há evidências de que o mesmo indivíduo iria a uma molly house numa noite e a um bordel heterossexual em outra noite. Enquanto esses homens casados estavam nas molly houses, não se sabe deles que se engajassem em qualquer tipo de “discurso bissexual” lá. Havia uma divisão clara de clientela entre casas obscenas e molly houses. Os homens que desejavam fazer sexo com mulheres iam às casas obscenas; homens que desejavam fazer sexo com homens iam às molly houses. As mulheres estavam sempre presentes nas casas obscenas, mas completamente ausentes das molly houses, exceto pelos três exemplos conhecidos em que elas e seus maridos eram os proprietários de molly houses. Os homens que iam a casas obscenas o faziam regularmente e eram frequentadores conhecidos delas. Semelhantemente, os homens que iam às molly houses eram reconhecidos como clientes frequentes e regulares delas; alguns desses homens são rastreáveis por períodos de muitos anos. Isso indica fortemente uma orientação sexual essencial. Durante o século XIX, sabemos de exemplos em que a proprietária de um bordel heterossexual ocasionalmente ofereceria buscar um garoto para seu cliente. Mas não sei de nenhum exemplo de uma mulher que tenha oferecido seus serviços a um visitante de uma molly house. Então, nessa comparação, podemos especular que, ao menos à altura do século XIX, um bordel ou casa obscena viera a se servir como um centro de devassidão sexual considerada mais amplamente, mas, mesmo assim, a molly house e o bordel homossexual continuaram a se especializar exclusivamente na orientação homossexual. Tudo isso sugere para mim que o frequentador de uma molly house concebia a si mesmo especificamente como alguém fortemente direcionado por desejos especificamente homossexuais em vez de desejos sexuais em geral.

Os mollies comumente adotavam “nomes de dama”, isto é, apelidos femininos. Por exemplo, em 1728, numa molly house na rua Tottenham Court, “Quando qualquer Membro entrava em sua Sociedade, ele era batizado com um Nome feminino, e tinha um Quartilho de Genebra [ou seja, um copo de gim] atirado em sua Cara; um era chamado Orange Deb, outro Nell Guin, e um terceiro Flying Horse Moll [algo como “Maria do Cavalo Voador”].”(112)Proceedings at the Sessions of the Peace, outubro de 1728, julgamentos de Julius Caesar Taylor e John Burgess. Esse batismo de brincadeira é claramente um ritual de iniciação projetado para solidificar a solidariedade entre os membros de uma comunidade. Flying Horse Moll havia sido preso três anos antes, após uma batida policial numa festa privada de drag queens numa casa perto da Drury Lane, na véspera de ano novo. Alguns dos nomes de dama dos homens presos nessa ocasião eram Cochineal Sue [“Sue Cochonilha”], Green-Pea Moll [“Maria Ervilha”] e Plump Nelly [“Nelly Rechonchuda”].(113)A propósito, o nome verdadeiro de Nelly Rechonchuda era Samuel Roper; ele e sua esposa administravam uma molly house, e ele morreu mais tarde na prisão enquanto esperava julgamento por sodomia. A corte descobriu que os apelidos desses homens eram baseados nos nomes dos cavalos que competiam nas corridas de Newmarket naquele ano. Então devemos ter em mente que esses apelidos molly não podem ser tratados de forma reducionista como se emergissem apenas da identificação feminina — embora, presuma-se, os cavalos fossem castrados.

O uso amplamente documentado de apelidos femininos constitui à primeira vista evidência de identidade, pois a identificação é a função primária dos apelidos. Ao contrário de epítetos homofóbicos, um apelido que é usado voluntariamente, dentro de um círculo de amigos, é geralmente escolhido ou aceito porque parece expressar a verdadeira natureza de alguém melhor do que o nome de batismo, ou ao menos refletir seus traços característicos ou distintivos. A predominância de apelidos especificamente femininos pode indicar um senso profundo de gênero da pessoa, ou, alternativamente, pode ser uma forma de situar a si mesmo em relação ao gênero do objeto de desejo — que, estritamente falando, é uma questão de orientação sexual em vez de gênero. O comportamento efeminado é parte do pacote de adotar uma identidade subcultural gay em vez de simplesmente um papel de gênero. Contudo, em parte pela História gay ter sido incluída nos “Estudos de Gênero”, o comportamento efeminado e os apelidos femininos foram usados para construir um modelo do molly em termos de papel de gênero em vez de orientação homossexual. Havia, no entanto, muitos casais masculinos em que ambos os parceiros adotavam apelidos femininos — tais como Peggy e Pru, mencionados antes — e, dos 14 homens que foram julgados em específico como resultado das batidas em molly houses, dois terços foram acusados de adotar o dito papel “ativo” na sodomia. De qualquer forma, é muito claro, do comportamento registrado nos julgamentos e panfletos satíricos, que os mollies não imitavam as damas — eles imitavam as prostitutas.(114)O manto de efeminação e até travestismo foi lançado longe demais na maioria dos estudos da História homossexual. O travestismo masculino fora revelado quase exclusivamente quando festas molly de máscaras, chamadas de “noites de festival”, eram alvos de batidas. Essas festas ocorriam geralmente durante os feriados de natal e ano novo, então bailes de drag queens podem ter sido celebrações de datas especiais em vez de eventos frequentes. Os historiadores observam que os homens se vestiam de mulher nessas ocasiões, mas os jornais noticiavam que alguns dos homens se vestiam de imperadores e também de rainhas (p. ex., The Weekly Journal; or, British Gazetteer, 2 de janeiro de 1725). Há muito poucos julgamentos — talvez só um — em que alguém alega ter reconhecido um sodomita por causa de seus maneirismos ou comportamento afeminados. A palavra em si parece surgir somente em três julgamentos. Em dois deles, a expressão formulaica “Ações imundas, indecentes e efeminadas” claramente se refere não a um desmunhecar, mas a uma mão máscula que se enfiou em calções alheios (OBP, outubro de 1728, julgamento de Julius Caesar Taylor, t17281016-60; e OBP, outubro de 1728, julgamento de Richard Challoner, t17281016-62). No terceiro exemplo, uma mulher alega que o sodomita acusado “nunca se comportou com nenhuma efeminação que o mostrasse afeito a seu próprio sexo” (OBP, outubro de 1761, julgamento de William Bailey, t17611021-35). Sátiras literárias de fato retratam os mollies como afeminados, mas os registros em juízo sugerem que o comportamento afetado era limitado a um contexto específico das molly houses e era parte do pacote de adotar uma identidade subcultural em vez de uma identidade de gênero. Muito do seu comportamento imitava os gestos chamativos e o exibicionismo escandaloso empregado por meretrizes comuns para atrair a atenção de homens que procuravam por diversão.

Subculturas homossexuais semelhantes às londrinas são evidentes em várias cidades por toda a Europa. Nos Países Baixos, uma subcultura homossexual foi revelada com a descoberta de uma gangue de chantagistas em Amsterdã em 1689. Com a chegada dos anos 1720, redes extensas de sodomitas foram encontradas em Roterdã, Haarlem e Utrecht. Relacionamentos homossexuais variavam de encontros transientes a contratos de matrimônio selados com sangue, uma indicação clara de que o amor homossexual estava no coração da identidade de alguns homens. Alguns homens tinham relacionamentos de longa duração e se tratavam por “nicht”, que significa “prima”.(115)D. J. Noordam, “Sodomy in the Dutch Republic, 1600–1725”, in K. Gerard & G. Hekma (eds), The Pursuit of Sodomy: Male Homosexuality in Renaissance and Enlightenment Europe (New York: Harrington Park Press, 1989), pp. 207–28. Os sodomitas holandeses discutiam entre si por que sua sexualidade parecia ser constituída como a das mulheres, embora a maior parte dos homens que foram julgados alegassem que uma sedução precoce tivera causado que fossem como eram.(116)T. van der Meer, “Sodomy and the pursuit of a third sex in the early modern period”, in G. Herdt (ed.), Third Sex, Third Gender (New York: Zone Books, 1996). Em 1730, cerca de 60 homens foram executados por sodomia,(117)Detalhes de mais de 250 julgamentos são resumidos por L. W. A. M. von Römer, “Uranism in the Netherlands up to the nineteenth century with special emphasis on the numerous persecutions of uranism in 1730: a historic and bibliographic study” (1906), trad. M. A. Lombardi-Nash, in M. A. Lombardi-Nash (ed. & trad.), Sodomites and Urnings: Homosexual Representations in Classic German Journals (New York: Harrington Park Press, 2006), pp. 127–219. resultando em numerosos julgamentos, dando evidências abundantes de subculturas sodomíticas, e consolidando a percepção pública do sodomita como não simplesmente um homem que ocasionalmente cometia um certo ato, mas como um tipo de pessoa.(118)A. H. Huussen, Jr., ‘Sodomy in the Dutch Republic during the Eighteenth Century’, in R. P. Maccubbin (ed.), ’Tis Nature’s Fault: Unauthorized Sexuality during the Enlightenment (New York: Cambridge University Press, 1987), pp. 169–78; G. Hekma, “Amsterdam”, in D. Higgs (ed.), Queer Sites: Gay urban histories since 1600 (London and New York: Routledge, 1989), pp. 61–88. Um panfleto fala de “uma mente feminina num corpo masculino”(119)Boon, “Those damned sodomites”. e outro diz que os sodomitas são uma “raça” que pode ser reconhecida por causa de sua “voz e comportamento alterados, iguais aos do sexo feminino”.(120)Römer, “Uranism in the Netherlands”, p. 162.

Subculturas homossexuais similares foram documentadas em Lisboa em meados do século XVII.(121)L. Mott, “Love’s labors lost: Five letters from a seventeenthcentury Portuguese sodomite”, in K. Gerard & G. Hekma (eds), The Pursuit of Sodomy: Male Homosexuality in Renaissance and Enlightenment Europe (New York: Harrington Park Press, 1989), pp. 91–101. Homossexuais efeminados se reuniam em casas de cômodos e usavam apelidos com diminutivos femininos. Alguns homens tinham relacionamentos de longo prazo,(122)D. Higgs, “Lisbon”, in D. Higgs (ed.), Queer Sites: Gay urban histories since 1600 (London and New York: Routledge, 1999), pp. 112–137. e muitos sodomitas que eram casados com mulheres mesmo assim reconheciam a si mesmos como parte de um grupo que compartilhava de gostos homossexuais. Uma subcultura similar existia no início do século XVIII em Paris, onde os sodomitas se reuniam em certas tavernas em que dançavam e cantavam juntos, imitavam mulheres e usavam apelidos femininos.(123)M. Rey, “Parisian homosexuals create a lifestyle, 1700–1750: The police archives”, in R. P. Maccubbin (ed.), ’Tis Nature’s Fault: Unauthorized Sexuality during the Enlightenment, New York: Cambridge University Press, 1987, p. 186. Oito tavernas desse tipo foram registradas em 1748. Os registros policiais revelam homens que reconheciam em si mesmos uma inclinação vitalícia que os fazia diferentes da maioria dos homens.(124)J. Merrick, “The arrest of a sodomite, 1723”, Gay and Lesbian Review Worldwide, 8(5) (1º de setembro de 2001).

Em terras de língua alemã, uma rede ampla de sodomitas da cidade de Colônia foi revelada já em 1484. Os sodomitas se congregavam regularmente em pontos de encontro perto dos mercados centrais e tinham seu próprio sistema de comunicação e gíria sexual que incluía apelidos femininos. Ele eram reconhecidos como um grupo social distinto cujas gesticulações e maneirismos os distinguiam dos outros.(125)Bernd-Ulrich Hergemöller, Sodom and Gomorrah (London and New York: Free Association Books, 2001), capítulo 5.

O “minorizante” versus o “universalizante”

Em contradição direta com a riqueza de dados acumulados pelo tipo de pesquisa histórica tradicional ilustrada na seção anterior, os defensores do construcionismo social preferem minimizar a existência antiga das subculturas homossexuais. Eve Kosofsky Sedgwick distinguiu entre duas diferentes abordagens do estudo da homossexualidade: os pontos de vista minorizante e universalizante. A posição essencialista geralmente adota a opinião minorizante de que os homossexuais constituem uma minoria e que a identidade homossexual é melhor desenvolvida com referência a essa posição de minoria. Por exemplo, estimularíamos o crescimento e desenvolvimento da subcultura homossexual e uma postura separatista em vez de assimilacionista. Em termos de pesquisa histórica, esperaríamos encontrar evidências da identidade homossexual especialmente dentro de uma subcultura homossexual minoritária, e tais subculturas seriam nosso foco primário. Tal foco, acredito, é também mais provável de revelar a História homossexual. Em contraste, a abordagem “universalista”, ao se afastar da subcultura, ignora dados importantes para uma História abrangente da homossexualidade.

Por exemplo, Charles Upchurch, em seu muito bom estudo do sexo entre homens durante o período 1820-1870,(126)C. Upchurch, Before Wilde: Sex between Men in Britain’s Age of Reform, University of California Press, 2009. praticamente ignora relatos de jornais e sátiras e discussões sobre batidas policiais em molly houses ou bordeis homossexuais, em parte porque incidentes como os escândalos da Cleveland Street já foram adequadamente tratados em outros livros, e em parte porque a polícia praticamente parou de investigar tais estabelecimentos a partir de 1830 e as informações sobre eles parece desaparecer dos registros. O que ele estuda, em vez disso, são exemplos espalhados e desconectados principalmente de homens comuns e respeitáveis sendo presos após fazer contato sexual nas ruas públicas como resultado de sua caça. Dados desse tipo, que são mais abundantes que os dados subculturais estreitos, permitem que ele chegue a uma conclusão universalizante que é elogiada por Jeffrey Weeks: a saber, que “a geografia do sexo entre homens nesse período” consistia “não em espaços separados e segregados” mas, em vez disso, em “parte da vida cotidiana da cidade”(127)Upchurch, p. 76. e dizia respeito a “homens que parecem na maior parte não ter qualquer conexão com uma subcultura mas que estavam bem conectados a redes de família e comunidade”.(128)Upchurch, p. 85. É estritamente verdadeiro que esses homens se aventuravam ruas do West End e outros espaços públicos na metrópole. Mas a insinuação de Upchurch, de que as vidas desses homens eram socialmente integradas, não sobreviverá ao escrutínio: encontros sexuais furtivos em banheiros públicos simplesmente não eram parte de um passeio normal de um homem pelo parque com sua esposa e filhos numa tarde de domingo. O resumo que Upchurch faz de seu argumento trai a sua fraqueza com uma autocontradição reveladora: “a vasta maioria das evidências… [se relacionam] a um grupo mais amplo de homens cujos atos sexuais com outros homens, em vez de serem separados do resto de suas vidas, eram relegados aos ‘momentos de penumbra’ dentro delas”.(129)Upchurch, p. 21. Em outras palavras, o que as evidências de Upchurch ilustram amplamente é o caso clássico da “compartimentalização”: A incapacidade de reconciliar a respeitabilidade com o estigma posto sobre o desejo pelo mesmo sexo levou muitos homens a manter suas vidas homossexuais firmemente separadas de suas vidas sociais comuns. Se Upchurch tivesse adotado uma abordagem “minorizante” e dado maior atenção aos escândalos em torno dos bordeis masculinos, penso que ele teria chegado a um entendimento mais pleno das vidas e identidades homossexuais do começo do século XIX.

Historiadoras do sexo feministas como Margaret Hunt chegam ao ponto de afirmar que o foco do historiador gay em subculturas homossexuais identificáveis “expulsou algumas abordagens mais amplas da História da sexualidade”.(130)Em seu posfácio a Queering the Renaissance, ed. Jonathan Goldberg, Duke University Press, 1994. Hunt critica o que ela chama de prática “estreita, presentista e… minorizante, em vez de ampla, culturalmente sensível e universalizante” na História gay e lésbica. Então o que ela sugeriria como um foco apropriadamente “universalizante” para corrigir os erros desse foco “minorizante”? Primeiramente, ela estimularia um estudo maior da família heterossexual durante os períodos de mudança social rápida. Em segundo lugar, para desafiar “uma forma de História que se dobra à identidade e é em última análise danosa, ou no melhor dos casos míope”, ela instaria por um estudo maior da opressão de raça e classe como revelada pela metodologia dos estudos feministas. Em terceiro lugar, ela insiste que o próprio conceito de identidade é uma construção ocidental moderna que na realidade não tem lugar no estudo de grupos mais antigos, não-ocidentais e oprimidos, mas o que realmente precisamos estudar são coisas como as estruturas patriarcais de dominação. Com efeito, na opinião de Hunt, os historiadores de gays e lésbicas devem abandonar a História homossexual para voltar suas atenções à História heterossexual. Eu rejeito essa opinião.(131)Uma razão pela qual me sinto justificado ao rejeitar a promoção de uma História universalista por parte de Margaret Hunt é porque ela tem de promovê-la com tantas imprecisões históricas, na forma como ela interpretou mal os dados da História minorizante. Por exemplo, ela está errada quando alega que a subcultura molly foi “uma coleção muito heterogênea de pessoas” incluindo prostitutas mulheres: na verdade, as prostitutas se opunham ferozmente aos homossexuais masculinos e estavam sempre na primeira fila de pessoas que atiravam imundícies nos mollies quando eles eram postos no pelourinho. Ela está incorreta ao alegar que “incluía números significativos de esposas, pais e avós, filhos e filhas, e irmãos e irmãs”: na verdade, as subculturas homossexuais eram sociedades exclusivas das quais as famílias estavam excluídas (ou nas quais as famílias ocasionalmente rejeitavam seus membros homossexuais), e a maioria dos homens que eram julgados por delitos sodomíticos eram solteiros.

Em contrapartida, o movimento de Libertação Gay do fim dos anos 1960 e começo dos anos 1970 acreditavam que a perspectiva universalista homogeneizava as diferenças e confirmava a dominância dos grupos majoritários. Foi essa crença que estimulou muitos homens gays e lésbicas a começarem a pesquisar a História homossexual, que “revelou” o que os historiadores convencionais haviam ignorado ou ativamente ocultado por meio da censura, e escolhemos celebrar essa cultura minoritária. É incrível, para mim, que teóricos queer tenham tentado reverter essas conquistas, e, mais uma vez, enterrar a História gay por baixo de uma História alegadamente “universalista”.

Pelo contrário, penso que é importante que historiadores de gays e lésbicas se concentrem ainda mais resolutamente nessas características essenciais que distinguem as pessoas gays enquanto gays. Quando faço uma retrospectiva da História homossexual do início da modernidade, o que mais me impressiona é a continuidade entre o presente e o passado. Há realmente muito pouco nos registros sodomíticos do século XVIII que não seria reconhecido por qualquer homem gay britânico ou americano que cresceu, digamos, nos anos 1950 e 1960, sejam as bichas afeminadas ou os negócios arriscados,(132)N. do T.: Tradução livre para a gíria “rough trade”, que significa “atos sexuais [consensuais] violentos, por vezes brutais, ou uma pessoa, geralmente um prostituto, que aparenta participar de tais atos” (Ver Urban Dictionary, https://www.urbandictionary.com/define.php?term=Rough%20trade). o sexo anônimo nos banheiros públicos ou as chantagens, a vergonha ou a rebeldia, os homens em relacionamentos estáveis ou homens que vão à balada a cada noite e abdicam dela a cada manhã. Minha pesquisa sugere que os sodomitas e mollies do século XVIII e os homens gays modernos vêm reconhecivelmente do mesmo tecido, e as safistas e mulheres-maridos são reconhecíveis nas lésbicas e sapatões pós-modernas. Podemos até encontrar pessoas que se identificavam como membros de uma comunidade cultural gay, e alguns que defendiam ao menos uma consciência protopolítica de que todos têm o direito de usar de seus corpos como bem entendem. Os historiadores modernos da sexualidade construíram uma falso abismo entre os homossexuais modernos e os sodomitas e as safistas do início da modernidade. É tempo de reconhecer que o passado e o presente compartilham algumas características essenciais — e essencialistas.

Sinais de Mudança

A inadequação da teoria do discurso é apenas um dos muitos fracassos do construcionismo social e da teoria queer em explicar as pessoas e os comportamentos homossexuais em termos históricos. A noção de que o sujeito homossexual pode emergir apenas através de uma rede discursiva de linguagem e estrutura não apenas é filosoficamente defeituosa, mas também voluntariamente ignorante dos fatos históricos. Em resumo, não há na realidade evidência histórica ou linguística nenhuma que apoie a teoria de que em torno de uma certa data a identidade baseada em papeis específicos de sexo e gênero foi substituída pela identidade baseada na orientação sexual geral, ou que a orientação homossexual foi conceituada apenas nos tempos modernos. O debate moderno sobre a identidade criou uma falsa dicotomia entre o papel e a orientação, e entre ações e inclinações. A maioria dos participantes desse debate, como notado anteriormente, misturaram erroneamente a homossexualidade à homofobia.

Um dos primeiros acadêmicos a tentar refutar a opinião construcionista social da História homossexual foi John Boswell,(133)J. Boswell, Christianity, Social Tolerance, and Homosexuality, University of Chicago Press, 1980; Boswell, ‘Categories, experience and sexuality’, in E. Stein (ed.), Forms of Desire: Sexual Orientation and the Social Constructionist Controversy, Routledge, 1990, pp. 133–173. que proveu dados empíricos abundantes formando uma fundação sólida para a maior parte do trabalho essencialista do início da História homossexual. Desenvolvendo parte do trabalho de Boswell, a acadêmica de clássicos Amy Richlin(134)A. Richlin, ‘Not before homosexuality’, Journal of the History of Sexuality, 3 (4) (1993): 523–573. demonstrou sistematicamente, ao inverso das alegações de Halperin, “que os homens identificados como homossexuais realmente existiam em Roma” e que o homossexual passivo ou cinaedus “vivia com uma identidade social e um fardo social bem parecido com o que Foucault definiu para o termo moderno ‘homossexual'”. Mais recentemente, Thomas Hubbard,(135)T. Hubbard (ed.), Homosexuality in Greece and Rome: A Sourcebook of Basic Documents, University of California Press, 2003. em seu exaustivo livro de referências sobre a Homossexualidade na Grécia e em Roma, concluiu semelhantemente que “O exame minucioso dos textos antigos sugere que algumas formas de preferência sexual eram, de fato, consideradas uma característica distintiva dos indivíduos. Muitos textos até mesmo veem tais preferências como qualidades inatas e, portanto, como aspectos ‘essenciais’ da identidade humana”.

A rejeição do modelo foucaultiano tem ganhado tração ao longo dos últimos anos, e números crescentes de historiadores estão dispostos, como faz Benemann,(136)W. Benemann, Male-Male Intimacy in Early America, Harrington Park Press, 2006. a levantar a bandeira essencialista: “Junto minha voz àqueles que começaram a questionar algumas das teorias de Michel Foucault a respeito da formação da identidade homossexual”. Robinson,(137)D. M. Robinson, Closeted Writing and Lesbian and Gay Literature: Classical, Early Modern, Eighteenth-Century, Ashgate Publishing, 2006. se referindo diretamente à divisão teórica e metodológica, usando os termos “diferencista” versus “continuista” (em vez dos mais comuns “construcionista social” versus “essencialista”), empenha-se em “demonstrar, contra o consenso dominante na História da Sexualidade, nos Estudos Gays e Lésbicos e na teoria queer, que há continuidades importantes na História do amor e da libido pelo mesmo sexo masculinos e femininos, compreendendo os períodos de antes, durante e depois da ‘invenção’ moderna da homossexualidade”. Robinson tem sucesso, especificamente, em demonstrar a existência de textos homossexuais “enrustidos” da literatura britânica e francesa do fim do século XVI até meados do século XVIII, um tipo de comunicação cifrada que teria sido impossível sem a existência de mentalidades homossexuais autoconscientes.

Trabalhos similares de historiadores tradicionais continuaram a enfraquecer a alegação de que a categoria da pessoa “homossexual” era literalmente inconcebível até os tempos modernos. Para o norte da Europa medieval, particularmente as terras germânicas, Bernd-Ulrich Hergemöller(138)Bernd-Ulrich Hergemöller, Sodom and Gomorrah: On the everyday reality and persecution of homosexuals in the Middle Ages, Free Association Books, 2001. (2001) encontrou evidências de “formas preliminares e precoces da cultura e vida homossexual cotidianas que mostram analogias e paralelos surpreendentes à subcultura homossexual de épocas mais tardias”. Hergemöller tenta chegar a um acordo entre ambos os lados do debate construcionista-essencialista, mas basicamente ele decide a favor de reconhecer a continuidade histórica das sexualidades. Como ele comenta: “A cada descoberta de uma nova fonte, a base dos fatos “essencialistas” se expande.”

Para a Inglaterra renascentista, o historiador Michael Young(139)M. Young, King James and the History of Homosexuality, New York University Press, 2000; Young, “James VI and I: Time for a Reconsideration?”, Journal of British Studies, 51 (July 2012): 540–567. trata corretamente o caso do Rei Jaime I & IV (1566-1625) como um importante estudo de caso teste para avaliar a precisão de alegações sobre as “construções” modernas da homossexualidade. Young demonstra que uma opinião distintivamente moderna da homossexualidade já estava bem estabelecida à altura do início do século XVII. Contrariamente às alegações do historiador gay Alan Bray,(140)A. Bray, Homosexuality in Renaissance England, Gay Men’s Press, 1982. o discurso jacobeu sobre o amor de Jaime por outros homens empregava conceitos familiares de hoje em vez de um “discurso sodomítico” medieval. Young critica os historiadores gays pioneiros por construírem um falso abismo entre os homossexuais modernos e os sodomitas do início da modernidade. Young nota que a “História da homossexualidade é um campo de estudo relativamente novo no qual as hipóteses de alguns acadêmicos precoces tenderam a se tornar pontos de vista doutrinários”. Young refuta substancialmente o dogma reducionista de que a homossexualidade é uma “invenção” do século XVIII, ou XIX, ou XX; além disso, ele não encontra praticamente evidência nenhuma para apoiar a alegação de que uma “revolução de gênero” ocorreu no século XVIII, ou que a bissexualidade era a norma em períodos primevos, ou que um constructo binário entre heterossexual e homossexual não existia até os tempos modernos.

Uma contribuição recente e importante ao enfraquecimento progressivo da teoria construcionista social da homossexualidade é As Ciências da Homossexualidade na Europa do Início da Modernidade,(141)N. do T.: Tradução livre. — K. Borris, K. & G. Rousseau (eds), The Sciences of Homosexuality in Early Modern Europe, Routledge, 2008. de Borris e Rousseau, que estabelece que “os esforços de produzir explicações científicas para os desejos e comportamentos sexuais pelo mesmo sexo não são uma invenção moderna, mas têm sido há muito tempo característicos do pensamento europeu. As ciências da antiguidade postularam vários tipos de afinidades sensuais pelo mesmo sexo enraizadas em naturezas singulares. Esses conceitos foram renovados, reelaborados e reavaliados da retomada científica do período medieval tardio ao princípio do Esclarecimento”.

Um livro recente que ilustra o retorno à abordagem essencialista é Bem Antes de Stonewall: Histórias da Sexualidade do Mesmo Sexo na América Primeva,(142)N. do T.: Tradução livre. uma coletânea de ensaios editada por Thomas Foster.(143)T. A. Foster (ed.), Long Before Stonewall: Histories of Same-Sex Sexuality in Early America, New York University Press, 2007. A conclusão geral desse volume é que a concepção da “sodomia como um ‘ato’ simples, discreto e pecaminoso pouco faz para descrever a riqueza da expressão sexual no início da era moderna” (p. 8). Os ensaios nessa coletânea demonstram que a homossexualidade — ou o que os autores preferem chamar de “sexualidade do mesmo sexo” — era entendida como parte da identidade de uma pessoa e como uma categorização conceitual até na Nova Inglaterra do século XVII. O paradigma “atos versus identidades” é desafiado repetidamente, e a sexualidade do início da idade moderna nos Estados Unidos é considerada “mais semelhante à moderna do que diferente dela” (p. 12).

Concluirei com uma observação feita por Robinson(144)D. M. Robinson, Closeted Writing and Lesbian and Gay Literature: Classical, Early Modern, Eighteenth-Century, Ashgate Publishing, 2006, pp. 251–258. num interessante posfácio com foco em sinais de mudança nas opiniões de David Halperin, que em muitos aspectos foi o líder da escola construcionista. Halperin, no ano 2000, num ensaio intitulado “Como Fazer a História da Homossexualidade Masculina”, alegou que “as tradições discursivas da amizade e da sodomia ainda se mantinham separadas hermeticamente até mesmo na Inglaterra do século XVIII”. No entanto, respondendo a críticas, em 2002 Halperin qualificou suas “hipóteses provisórias”, e, como explicou um ano depois (em sua introdução a uma coletânea editada por O’Donnell e O’Rourke, 2003),(145)D. Halperin, Introduction to K. O’Donnell & M. O’Rourke (eds), Love, Sex and Intimacy Between Men, 1550–1800, Palgrave Macmillan, 2003. “Dou margem para a possibilidade de que a retórica da tradição da amizade pudesse ser usada por personagens dramáticos como um disfarce para o que os dramaturgos e suas plateias poderiam igualmente ter entendido como um relacionamento sexual”. Halperin tentou mitigar o dano à sua tese afirmando a verdade óbvia de que mesmo assim “havia uma certa separação entre a retórica da amizade e a retórica da sodomia, uma vez que, de outra forma, a primeira não poderia ser usada para proteger e dignificar a última”. Mas, à altura de 2003, Halperin aparentemente revogou sua tese original completamente. “Em resumo, admito perfeitamente que as hipóteses naquele artigo meu estão erradas: na verdade, são tão gerais, e tão historicamente infundadas, que estão condenadas a estarem erradas, ou ao menos a serem enganosas e imprecisas, dentro do contexto de muitos períodos históricos diferentes e localizações geográficas”. Assim, Halperin transitou de uma alegação forte sobre “discursos” hermeticamente separados para um reconhecimento confuso de “uma certa separação” entre “retóricas”, e depois para uma admissão franca de erro. Essa progressão ilustra o desmoronamento da teoria do discurso que podemos esperar ver ao longo dos próximos anos. Sem dúvida haverá esforços para estancar a teoria, e alguns recuos para alegar que as opiniões antigas eram meras “hipóteses provisórias” que não deveriam ter sido entendidas tão rigidamente, mas o fim do caminho será a morte de uma teoria que jamais foi sustentável em primeiro lugar.

FINIS

* Rictor Norton, PhD, 72, é um historiador independente nascido em Friendship, Nova York, e radicado em Londres desde os anos 1970. Tem oito livros publicados.

Tradução: Eli Vieira
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Notas   [ + ]

1. Versão expandida de uma apresentação feita em 27 de maio de 2010 como parte do Seminário Mellon Sawyer da UCLA, “Homossexualidades, da Antiguidade ao Presente”.
2. D. M. Robinson, Closeted Writing and Lesbian and Gay Literature: Classical, Early Modern, Eighteenth-Century, Ashgate Publishing, 2006.
3. M. Foucault, The History of Sexuality, Volume I: An Introduction, trans. Robert Hurley, Pantheon, 1978.
4. J. Weeks, Coming Out: Homosexual Politics in Britain, from the Nineteenth Century to the Present, Quartet, 1977; Weeks, Against Nature: Essays on History, Sexuality and Identity, Rivers Oram Press, 1991.
5. A. Bray, A. Homosexuality in Renaissance England, Gay Men’s Press, 1982.
6. D. Halperin, “Is there a history of sexuality?”, History and Theory, 28 (1989): 257–74; Halperin, One Hundred Years of Homosexuality, Routledge, 1989; Halperin, “How to do the history of male homosexuality”, GLQ, 6 (2000): 87–123.
7. J. Butler, Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity, Routledge, 1990.
8. Eve Kosofsky Sedgwick, Epistemology of the Closet, University of California Press, 1990.
9. T. Laqueur, Making Sex: Body and Gender from the Greeks to Freud, Harvard University Press, 1990.
10. T. Betteridge, Sodomy in Early Modern Europe, Manchester University Press, 2002.
11. R. Jennings, A Lesbian History of Britain, Greenwood World Publishing, 2007.
12. D. Halperin, “Is there a history of sexuality?”, History and Theory, 28 (1989): 257–274.
13. Essas linhas de Foucault são citadas por praticamente todos os teóricos sexuais, geralmente na primeira tradução para o inglês, que usou o termo “aberração temporária” (em vez de “pecador temporário”), que é uma má tradução do termo de Foucault, relaps, que significa alguém que tem recaída para a heresia, que é melhor traduzido como “pecador”, o termo que eu uso aqui. Ver G. Robb, Strangers: Homosexual Love in the Nineteenth Century (W. W. Norton, 2003), p. 42.
14. Mary McIntosh, “The homosexual role”, Social Problems, 16 (1968): 182–192.
15. Michel Foucault, The History of Sexuality, Volume I: An Introduction, trad. Robert Hurley, Pantheon, 1978.
16. Jeffrey Weeks, Coming Out: Homosexual Politics in Britain, from the Nineteenth Century to the Present, London: Quartet, 1977.
17. R. A. Padgug, “Sexual matters: on conceptualizing sexuality in history”, Radical History Review, 20 (1979): 3–33.
18. Ken Plummer (ed.), The Making of the Modern Homosexual, London: Hutchinson, 1981.
19. Alan Bray, Homosexuality in Renaissance England, London: Gay Men’s Press, 1982.
20. David Halperin, One Hundred Years of Homosexuality, Routledge, 1989; Halperin, “How to do the history of male homosexuality”, GLQ, 6 (2000): 87–123.
21. Sheila Jeffreys, “Butch and femme: Now and then” (1987) and “Does it matter if they did it?” (1987), in Lesbian History Group (ed.), Not a Passing Phase, The Women’s Press, 1989.
22. J. N. Katz, Gay American History, Thomas Y. Crowell, 1976; J. N. Katz, The Invention of Heterosexuality, Dutton, 1995.
23. John D’Emilio, Making Trouble: Essays on Gay History, Politics, and the University, Routledge, 1992.
24. Dentro do modelo marxista usado pelos teóricos gays dos anos 1970 e posteriores, o homossexual foi conceituado como um indivíduo não-reprodutor e, portanto, não produtivo, e sua inutilidade dentro do capitalismo foi declarada uma explicação suficiente da homofobia. A ‘família capitalista’ foi supostamente promovida como o agente do consumo, necessária para o mercado. Mas mesmo se o capitalismo rejeitasse os homossexuais como improdutivos, não está claro por que ele criaria o conceito do homossexual. De todo modo, não há nenhuma evidência histórica de que a perseguição dos homossexuais emergiu concomitantemente com a família burguesa. Os primeiros resenhistas da obra Coming Out, de Weeks (1997), apontaram a falha de Weeks em fornecer evidências satisfatórias para apoiar sua tese central, e acrescentaram também que, pelo contrário, a homofobia caiu durante o século XIX (S. Licata e R. P. Petersen (eds.), The Gay Past: A Collection of Historical Essays,, Harrington Park Press, 1980 (reimpresso em 1985), pp. 214-219).
25. A pesquisa científica da psicobiologia da orientação sexual demonstrou que as orientações homossexual e heterossexual são empiricamente objetivas, que uma esmagadora maioria das pessoas são quase exclusivamente heterossexuais e uma pequena minoria é quase exclusivamente homossexual, enquanto um número menor ainda é de intermediários ou bissexuais. A escala de 6 pontos de Kinsey é muitas vezes enganosamente chamada de “continuum”, mas quando os dados dele são postos nessa escala o que é revelado de fato é que é uma “curva J”: uma grande maioria dos homens nos dados de Kinsey, cerca de 85%, estão no ponto exclusivamente heterossexual, que é a parte vertical grande do “J”; quantidades minúsculas se espalham pelos pontos bissexuais, que são o vale do “J”; e uma minoria está no ponto exclusivamente homossexual, que é parte pequena ascendente do “J”. Mais estudos recentes de homens que tiveram relações sexuais nos doze meses anteriores descobriram que 95% delas foram com pessoas do sexo oposto, pouco mais de 3% foi com pessoas do mesmo sexo, e pouco menos de 2% tiveram relações com ambos os sexos. Não existe “panbissexualidade”. A orientação sexual é categórica em vez de contínua ou fluida.
26. A mais proeminente crítica da pesquisa científica do sexo e das diferenças de gênero é a bióloga feminista Anne Fausto-Sterling, cujo livro Sexing the Body (2000) deu apoio a ativistas e teóricos gays que rejeitam a noção de uma congruência direta entre sexo cromossomal, gênero e orientação sexual. Mas uma crítica ao trabalho de Fausto-Sterling, de Leonard Sax (2002), sugere um enviesamento inapropriado dos dados. Em resumo, Fausto-Sterling alegou que 1,7% dos nascimentos humanos eram intersexo, com base numa definição exageradamente ampla de intersexo como “qualquer indivíduo que desviar do ideal platônico do dimorfismo sexual nos níveis cromossomal, genital, gonadal ou hormonal”. Dos dez quadros que ela descreve como intersexo, cinco não correspondem aos padrões clínicos para tal definição, e os cinco quadros restantes, que são quadros intersexo genuínos, representariam menos de 0,02% da população em geral, usando os próprios números dela. “Nenhum de seus estudos de caso são tirados dos cinco quadros mais comuns em sua tabela, mesmo embora esses cinco quadros constituam cerca de 99% da população que ela define como intersexo. Sem esses cinco quadros, a intersexualidade se torna uma ocorrência rara, de menos de dois em 10 mil nascidos vivos”. Em outras palavras, o quadro, longe de ser “bem comum”, que foi o argumento de destaque de seu livro, é tão raro que não pode ser descrito, como ela alega, como uma variação normal. A conclusão de Sax confirma o modelo binário essencialista: “Os dados disponíveis apoiam a conclusão de que a sexualidade humana é uma dicotomia, não um continuum. Mais de 99,98% dos humanos são masculinos ou femininos.” (L. Sax, “How common is intersex? A response to Anne Fausto-Sterling”, Journal of Sex Research, agosto de 2002.)
27. Estudos biográficos e históricos descobriram que, quanto mais irmãos mais velhos um homem tem, mais provável é que ele se torne homossexual. Esse efeito da ordem de nascimento fraterna tem um alto nível de significância estatística, e os estudos têm replicado com frequência esse achado. Razões sociais ou familiares possíveis foram descartadas por estudos de, por exemplo, gêmeos idênticos criados separadamente, que produzem resultados similares. Homens gays têm maior probabilidade de ter tios gays, especialmente tios maternos, e de ter primos gays do lado materno — o que sugere um fator de herança que a mãe passa ao filho. Isso provocou uma busca pelo dito “gene gay”, que foi localizado na região Xq28 do cromossomo X. — N. do. T.: Os geneticistas sabem que o comportamento não pode ser determinado por um único gene. Múltiplos genes estão envolvidos na manifestação da orientação sexual. No caso da homossexualidade, Sanders et al. (Psychological Medicine,2014) confirmaram com enorme amostra o achado de que essa região do cromossomo X contém genes com variantes claramente associadas a esse fenótipo.
28. Glenn Wilson e Qazi Rahman, Born Gay: The Psychobiology of Sex Orientation (London: Peter Owen, 2005; reimpresso em 2008).
29. N. do T.: Aqui, o autor usa termos às vezes pejorativos que poderiam ser achados em documentos históricos como evidência de que alguma personalidade era homossexual. Os termos originais são “tomboy”, “sissy”, “queen” e “butch dyke”. Os termos que escolhi são equivalentes aproximados.
30, 36, 42, 48, 52, 53, 67, 142. N. do T.: Tradução livre.
31. Memoirs of Mr. Thomas Chubb, Londres, 1747, pp. 41-42; ele também se refere a “os Vieses da Inclinação”.
32. Middlesex Sessions Papers — Justices’ Working Documents, 20 de abril de 1749, disponível na íntegra em http://rictornorton.co.uk/eighteen/1749fawc.htm.
33, 46, 56. N. do. T.: Tradução livre.
34. ”The Indictment of John Purser, Containing Thomas Cannon’s Ancient and Modern Pederasty Investigated and Exemplify’d”, Editado por Hal Gladfelder, Eighteenth-Century Life, 31 (Número 1, Inverno 2007), pl 54.
35. Thraliana: The Diary of Mrs. Hester Lynch Thrale (Later Mrs. Piozzi) 1776-1809, ed. Katharine C. Balderston, 2 vols., 2ª ed., Oxford: Clarendon Press, 1951, apontamento do dia 29 de março de 1794, ii. 874-875.
37. Ver discussão por Shapiro em Foster, Long Before Stonewall, pp. 360-361.
38. The True History and Adventures of Catharine Vizzani, por Giovanni Bianchi, Londres, 1755.
39. Para uma análise mais plena, ver Rictor Norton, “Anne Lister, The First Modern Lesbian”, Lesbian History, http://rictornorton.co.uk/lister.htm.
40. Resumido por E. Donoghue, Passions Between Women: British Lesbian Culture 1668-1801, Scarlet Press, 1993.
41. The Fruit-Shop, A Tale; or, A Companion to St. James’s Street, Londres, 1766.
43. Donoghue, Passions Between Women, pp. 149-150.
44. Astrology. The Wisdom of Solomon in Miniature, being A New Doctrine of Nativities, reduced to Accuracy and Certainty; or, The Art of Determining Future Events by the only True Method, the Radical Figure of Birth, por C. Heydon, Astrophilo, Impresso para A. Hamilton, 1792, pp. 182-183.
45. L. J. Boon, “Those damned sodomites: Public images of sodomy in the eighteenth century Netherlands”, in K. Gerard & G. Hekma (eds), The Pursuit of Sodomy: Male Homosexuality in Renaissance and Enlightenment Europe (New York: Harrington Park Press, 1989), p. 246.
47. H. Puff, Sodomy in Reformation Germany and Switzerland 1400-1600, University of Chicago Press, 2003, p. 12.
49. Allen J. Frantzen, Before the Closet: Same-Sex Love from Beowulf to Angels in America (University of Chicago Press, 1998), ex. p. 134.
50. N. do T.: Traduzindo literalmente, “punheteiros”. Mas usado como um xingamento mais geral, por exemplo em brigas no trânsito de Londres.
51. Cameron McFarlane, The Sodomite in Fiction and Satire, 1660-1750 (New York: Columbia University Press, 1997, pp. 146-157)
54. London Metropolitan Archives, MJ/SP/1698/12/024-025.
55. MJ/SP/1698/12/021-023.
57. J. Weeks, Coming Out: Homosexual Politics in Britain, from the Nineteenth Century to the Present, Londres, 1977, p. 12.
58. OBP [Old Bailey Sessions Papers Online], abril de 1726, julgamento de George Whittle (ref. no. t17260420-68).
59. OBP, julho de 1774, julgamento de John Clarke, John Pullen e William Rooke (t17740706-60).
60. OBP, outubro de 1728, julgamento de John Burgess (t17281016-61). Ele foi condenado.
61. OBP, julho de 1726, julgamento de William Brown (t17260711-77). Ele foi condenado.
62. OBP, outubro de 1761, julgamento de William Bailey (t17611021-35).
63. Esse também era um pressuposto comum de toda a literatura europeia por séculos. Vários romances do século XII ilustram amplamente que não poderiam ter sido escritos ou entendidos sem um pressuposto de que a heterossexualidade era a posição padrão. Presumia-se que homens e mulheres se amavam; que homens tinham seus desejos (carnais) açulados ao ver mulheres bonitas; e que todas as mulheres e todos os homens desejam se casar e apreciar o sexo conjugal. Não há nem mesmo um indício de que seria natural (ou em alguma medida comum) que homens desejassem homens, e nenhum de que as mulheres pudessem desejar mulheres. Talvez o primeiro exemplo de desejo homoerótico a aparecer na tradição dos romances ocorre numa publicação de Marie de France (provavelmente século XII tardio), Lanval, da linha 271 em diante, quando Lanval rejeita as investidas da Rainha porque ele na verdade ama outra mulher, e ela entende mal a frieza dele: “Penso que tu não te importas com esse tipo de prazer. Contaram-me muitas vezes que não tens nenhum desejo por mulheres. Tutelaste mancebos, E tomaste com eles o teu prazer”. As evidências nesse trecho claramente indicam que o amor carnal entre um cavaleiro e rapazes sob sua tutela era considerado primeiramente incomum e, em segundo lugar, antinatural, repreensível e desonroso. Também indica claramente que há duas “formas diferentes de prazer” — isto é, um binário entre heterossexual e homossexual. A alegação (de Jonatahan Ned Katz e outros) de que a heterossexualidade é uma invenção moderna é, francamente, ridícula.
64. Morning Chronicle, 8 de agosto de 1772.
65. OBP, agosto de 1727, julgamento de John Painter e John Green (t1727083053).
66. Cf. a balada The Women-Hater’s Lamentation, Londres, 1707: “A natureza eles rejeitaram, / Para gratificar sua Luxúria; / Eles odeiam mulheres ao lado, / Portanto seu Destino foi justo. // Dizei odiadores de mulheres, / O que vosso peito inspira, / Que de um modo Brutal, / Admirais vosso próprio sexo?” [N. do T.: Tradução livre.] Essa não é uma comparação simplista dos sodomitas àqueles que cometem a sodomia, mas uma ênfase às características de personalidade.
68, 86. N. do T.: Molly, um nome comum feminino, plural mollies, foi uma gíria britânica do século XVIII para se referir a gays.
69. N. do T.: Note que o nome do personagem sr. Maiden é parte da sátira, pois “maiden” significa “donzela”.
70. The Fruit-Shop, A Tale; or, A Companion to St. James’s Street, Londres, 1766, vol. I, p. 160. — N. do T.: A referência a frutas do satirista provavelmente tem a ver com a semelhança de algumas frutas com genitais.
71. M. Young, King James and the History of Homosexuality, New York University Press, 2000, p. 146.
72. Julgamento de Thomas Rodin, in Select Trials (Londres, 1742), 1:280-282; a versão publicada nos Proceedings é menos detalhada (OBP, outubro de 1722, julgamento de Thomas Rodin [t17221010-2]).
73. Public Ledger, 5 de agosto de 1722; ver na íntegra no meu website, Homosexuality in Eighteenth-Century England: A Sourcebook, http://rictornorton.co.uk/eighteen/jones7.htm.
74. Love-Letters Between a certain late Nobleman And the famous Beau Wilson; para uma discussão completa ver R. Norton, Mother Clap’s Molly House, edição de 2006 (Chalford Press), Capítulo 2.
75. Memoirs of Antonina, Queen of Abo. Displaying the Private Intrigues, and Uncommon Passions. With Family Sketches, and Curious Anecdotes of Great Persons. Traduzido do francês. Dois volumes em um. Londres: Impresso para E. Bently, no. 22, Fetter Lane, 1791; vol. I, p. 32.
76. The Rival Dutchess; or, Court Incendiary, Londres, 1708, pp. 6-7.
77. OBP, setembro de 1772, julgamento de Robert Crook e Charles Gibson (t17720909-18).
78. OBP, dezembro de 1721, julgamento de George Duffus (t17211206-20).
79. OBP, julho de 1726, julgamento de William Brown (t17260711-77); e Select Trials (Londres, 1742), 3: 39-40.
80. OBP, dezembro de 1718, julgamento de John Bowes e Hugh Ryly (t1718120524).
81. N. do T.: Na Grã-Bretanha se comemora na noite deste dia o fracasso dos planos de Guy Fawkes de explodir as Casas do Parlamento em 5 de novembro de 1605. Há fogueiras, figuras de papel machê imoladas pelas ruas e fogos de artifício.
82. N. do T.: Aqui, não está claro que sentido a palavra Port tem. Poderia ser uma comparação ao vinho do Porto ou uma comparação com escotilhas, mais ofensiva.
83. Para o texto completo do panfleto do julgamento e reportagens contemporâneas nos jornais, ver Rictor Norton, “The Trial of Capt. Edward Rigby, 1698”, Homosexuality in Eighteenth-century England: A Sourcebook, http://rictornorton.co.uk/eighteen/rigby.htm.
84. Tim Hitchcock, English Sexualities, 1700-1800, Macmillan, 1997, pp. 63-64.
85. English Post, 5-7 de março de 1701.
87. Weekly Journal; or, British Gazetteer, 14 de dezembro de 1728.
88. General Advertiser, 2 de setembro de 1752.
89. The Craftsman; or Say’s Weekly Journal, 26 de setembro de 1772.
90. London Post, 20-23, junho de 1701.
91. OBP, abril de 1722, julgamento de John Dicks (t17220404-29).
92. N. do T.: Tyburn é uma vila no condado de Middlesex, localizada em atuais bairros de Londres, onde se faziam execuções públicas no período.
93. Para citações e fontes completas, ver Rictor Norton, “Mrs Piozzi’s Reminiscences”, http://rictornorton.co.uk/eighteen/piozzi.htm.
94. Rictor Norton, “William Beckford’s Gay Scrapbooks”, Gay History and Literature, http://rictornorton.co.uk/beckfor2.htm; Rictor Norton, “Oddities, Obituaries and Obsessions: Early Nineteenth-Century Scandal and Social History Glimpsed through William Beckford’s Newspaper Cuttings”, The Beckford Society Annual Lectures 2004–2006, ed. Richard Allen, The Beckford Society, 2008.
95. OBP, julho de 1745, julgamento de John Twyford (t17450710-17).
96. Tryal, Examination and Conviction Of several Notorious Persons call’d Sodomites, No Guild-Hall na Segunda-Feira, 20 de outubro de 1707.
97. OBP, agosto de 1729, julgamento de George Wood e Joseph Pinhorn (por roubo / assalto em estrada, t17290827-35).
98. Para dois casos de 1752, ver http://rictornorton.co.uk/eighteen/1752news.htm.
99. Julgamento de Goddard e Rustead, 1725, in Select Trials at the Sessions-House in the Old Bailey (Dublin, 1743), 2:173-176.
100. OBP, dezembro de 1759, julgamento de Thomas Brown e James Brown (t17591205-24); e setembro de 1763, julgamento de James Brown (t17630914-52).
101, 132. N. do T.: Tradução livre para a gíria “rough trade”, que significa “atos sexuais [consensuais] violentos, por vezes brutais, ou uma pessoa, geralmente um prostituto, que aparenta participar de tais atos” (Ver Urban Dictionary, https://www.urbandictionary.com/define.php?term=Rough%20trade).
102. OBP, abril de 1729, julgamento de John Mitchell (t17290416-51).
103. Dezessete são listadas por R. Trumbach, R. “London”, in D. Higgs (ed.), Queer Sites: Gay urban histories since 1600, London and New York: Routledge, 1999, pp. 89–111, esp. n. 6, p. 111.
104. Eles foram condenados no tribunal de King’s Bench em vez de Old Bailey; reproduzi as reportagens relevantes em http://rictornorton.co.uk/eighteen/1726news.htm e http://rictornorton.co.uk/eighteen/1727news.htm.
105. OBP, julho de 1726, julgamento de Margaret Clap (t17260711-54).
106. OBP, abril de 1726, julgamento de George Whittle (t17260420-68).
107. Ver A Genuine Narrative of all the Street Robberies committed … by James Dalton (1728), parcialmente reproduzido em http://rictornorton.co.uk/eighteen/1728dalt.htm. Eles foram julgados no Guildhall. Ver Weekly Journal, 22 de outubro and 12 de novembro de 1726 (http://rictornorton.co.uk/eighteen/1726news.htm).
108. ’But Among Our Own Selves We’ll Be Free’, reproduzida em http://rictornorton.co.uk/eighteen/lechery.htm.
109. Julgamento de Thomas Wright, Select Trials (London, 1742), 2: 367–9. Esse detalhe é omitido dos impressos Proceedings, OBP, abril de 1726, julgamento de Thomas Wright (t17260420-67).
110. Ver minhas anotações em A Genuine Narrative . . . by James Dalton (1728), em http://rictornorton.co.uk/eighteen/1728dalt.htm. Ele foi posto no pelourinho em 1728 por extorsão: OBP, fevereiro de 1728, julgamento de James Oviat (t17280228-82).
111. OBP, julho de 1732, julgamento de Thomas Gordon (t17320705-30).
112. Proceedings at the Sessions of the Peace, outubro de 1728, julgamentos de Julius Caesar Taylor e John Burgess.
113. A propósito, o nome verdadeiro de Nelly Rechonchuda era Samuel Roper; ele e sua esposa administravam uma molly house, e ele morreu mais tarde na prisão enquanto esperava julgamento por sodomia.
114. O manto de efeminação e até travestismo foi lançado longe demais na maioria dos estudos da História homossexual. O travestismo masculino fora revelado quase exclusivamente quando festas molly de máscaras, chamadas de “noites de festival”, eram alvos de batidas. Essas festas ocorriam geralmente durante os feriados de natal e ano novo, então bailes de drag queens podem ter sido celebrações de datas especiais em vez de eventos frequentes. Os historiadores observam que os homens se vestiam de mulher nessas ocasiões, mas os jornais noticiavam que alguns dos homens se vestiam de imperadores e também de rainhas (p. ex., The Weekly Journal; or, British Gazetteer, 2 de janeiro de 1725). Há muito poucos julgamentos — talvez só um — em que alguém alega ter reconhecido um sodomita por causa de seus maneirismos ou comportamento afeminados. A palavra em si parece surgir somente em três julgamentos. Em dois deles, a expressão formulaica “Ações imundas, indecentes e efeminadas” claramente se refere não a um desmunhecar, mas a uma mão máscula que se enfiou em calções alheios (OBP, outubro de 1728, julgamento de Julius Caesar Taylor, t17281016-60; e OBP, outubro de 1728, julgamento de Richard Challoner, t17281016-62). No terceiro exemplo, uma mulher alega que o sodomita acusado “nunca se comportou com nenhuma efeminação que o mostrasse afeito a seu próprio sexo” (OBP, outubro de 1761, julgamento de William Bailey, t17611021-35). Sátiras literárias de fato retratam os mollies como afeminados, mas os registros em juízo sugerem que o comportamento afetado era limitado a um contexto específico das molly houses e era parte do pacote de adotar uma identidade subcultural em vez de uma identidade de gênero.
115. D. J. Noordam, “Sodomy in the Dutch Republic, 1600–1725”, in K. Gerard & G. Hekma (eds), The Pursuit of Sodomy: Male Homosexuality in Renaissance and Enlightenment Europe (New York: Harrington Park Press, 1989), pp. 207–28.
116. T. van der Meer, “Sodomy and the pursuit of a third sex in the early modern period”, in G. Herdt (ed.), Third Sex, Third Gender (New York: Zone Books, 1996).
117. Detalhes de mais de 250 julgamentos são resumidos por L. W. A. M. von Römer, “Uranism in the Netherlands up to the nineteenth century with special emphasis on the numerous persecutions of uranism in 1730: a historic and bibliographic study” (1906), trad. M. A. Lombardi-Nash, in M. A. Lombardi-Nash (ed. & trad.), Sodomites and Urnings: Homosexual Representations in Classic German Journals (New York: Harrington Park Press, 2006), pp. 127–219.
118. A. H. Huussen, Jr., ‘Sodomy in the Dutch Republic during the Eighteenth Century’, in R. P. Maccubbin (ed.), ’Tis Nature’s Fault: Unauthorized Sexuality during the Enlightenment (New York: Cambridge University Press, 1987), pp. 169–78; G. Hekma, “Amsterdam”, in D. Higgs (ed.), Queer Sites: Gay urban histories since 1600 (London and New York: Routledge, 1989), pp. 61–88.
119. Boon, “Those damned sodomites”.
120. Römer, “Uranism in the Netherlands”, p. 162.
121. L. Mott, “Love’s labors lost: Five letters from a seventeenthcentury Portuguese sodomite”, in K. Gerard & G. Hekma (eds), The Pursuit of Sodomy: Male Homosexuality in Renaissance and Enlightenment Europe (New York: Harrington Park Press, 1989), pp. 91–101.
122. D. Higgs, “Lisbon”, in D. Higgs (ed.), Queer Sites: Gay urban histories since 1600 (London and New York: Routledge, 1999), pp. 112–137.
123. M. Rey, “Parisian homosexuals create a lifestyle, 1700–1750: The police archives”, in R. P. Maccubbin (ed.), ’Tis Nature’s Fault: Unauthorized Sexuality during the Enlightenment, New York: Cambridge University Press, 1987, p. 186. Oito tavernas desse tipo foram registradas em 1748.
124. J. Merrick, “The arrest of a sodomite, 1723”, Gay and Lesbian Review Worldwide, 8(5) (1º de setembro de 2001).
125. Bernd-Ulrich Hergemöller, Sodom and Gomorrah (London and New York: Free Association Books, 2001), capítulo 5.
126. C. Upchurch, Before Wilde: Sex between Men in Britain’s Age of Reform, University of California Press, 2009.
127. Upchurch, p. 76.
128. Upchurch, p. 85.
129. Upchurch, p. 21.
130. Em seu posfácio a Queering the Renaissance, ed. Jonathan Goldberg, Duke University Press, 1994.
131. Uma razão pela qual me sinto justificado ao rejeitar a promoção de uma História universalista por parte de Margaret Hunt é porque ela tem de promovê-la com tantas imprecisões históricas, na forma como ela interpretou mal os dados da História minorizante. Por exemplo, ela está errada quando alega que a subcultura molly foi “uma coleção muito heterogênea de pessoas” incluindo prostitutas mulheres: na verdade, as prostitutas se opunham ferozmente aos homossexuais masculinos e estavam sempre na primeira fila de pessoas que atiravam imundícies nos mollies quando eles eram postos no pelourinho. Ela está incorreta ao alegar que “incluía números significativos de esposas, pais e avós, filhos e filhas, e irmãos e irmãs”: na verdade, as subculturas homossexuais eram sociedades exclusivas das quais as famílias estavam excluídas (ou nas quais as famílias ocasionalmente rejeitavam seus membros homossexuais), e a maioria dos homens que eram julgados por delitos sodomíticos eram solteiros.
133. J. Boswell, Christianity, Social Tolerance, and Homosexuality, University of Chicago Press, 1980; Boswell, ‘Categories, experience and sexuality’, in E. Stein (ed.), Forms of Desire: Sexual Orientation and the Social Constructionist Controversy, Routledge, 1990, pp. 133–173.
134. A. Richlin, ‘Not before homosexuality’, Journal of the History of Sexuality, 3 (4) (1993): 523–573.
135. T. Hubbard (ed.), Homosexuality in Greece and Rome: A Sourcebook of Basic Documents, University of California Press, 2003.
136. W. Benemann, Male-Male Intimacy in Early America, Harrington Park Press, 2006.
137. D. M. Robinson, Closeted Writing and Lesbian and Gay Literature: Classical, Early Modern, Eighteenth-Century, Ashgate Publishing, 2006.
138. Bernd-Ulrich Hergemöller, Sodom and Gomorrah: On the everyday reality and persecution of homosexuals in the Middle Ages, Free Association Books, 2001.
139. M. Young, King James and the History of Homosexuality, New York University Press, 2000; Young, “James VI and I: Time for a Reconsideration?”, Journal of British Studies, 51 (July 2012): 540–567.
140. A. Bray, Homosexuality in Renaissance England, Gay Men’s Press, 1982.
141. N. do T.: Tradução livre. — K. Borris, K. & G. Rousseau (eds), The Sciences of Homosexuality in Early Modern Europe, Routledge, 2008.
143. T. A. Foster (ed.), Long Before Stonewall: Histories of Same-Sex Sexuality in Early America, New York University Press, 2007.
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145. D. Halperin, Introduction to K. O’Donnell & M. O’Rourke (eds), Love, Sex and Intimacy Between Men, 1550–1800, Palgrave Macmillan, 2003.

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