Estudos de Ressentimento e Corrupção da Academia: Como Publicamos um Capítulo de Hitler numa Revista Feminista e Outros Artigos Fraudulentos

Embora esperemos que este ensaio, que é a descrição mais detalhista dos nossos esforços, seja acessível para todos, ele foi escrito para os que já têm alguma familiaridade com os problemas do trabalho acadêmico motivado por ideologia, por ceticismo radical e por construtivismo cultural.

Parte I: Introdução

Alguma coisa deu errado na universidade — especialmente em algumas áreas dentro das humanidades. O trabalho acadêmico que se baseia menos em descobrir a verdade e mais em denuncismo social se tornou firmemente estabelecido, se não completamente dominante, dentro dessas áreas, e os acadêmicos que o fazem cada vez mais intimidam estudantes, administradores e outros departamentos a aderir à sua visão de mundo. Essa visão de mundo não é científica e não é rigorosa. Para muitos, esse problema tem ficado cada vez mais óbvio, mas faltavam evidências fortes disso. Por esse motivo, nós três passamos um ano trabalhando dentro do tipo de trabalho acadêmico que vemos como uma parte intrínseca desse problema.

Passamos esse tempo escrevendo artigos acadêmicos e publicando-os em periódicos respeitados com revisão por pares associados às áreas acadêmicas conhecidas informalmente como “estudos culturais” ou “estudos identitários” (por exemplo, estudos de gênero), ou “teoria crítica”, porque tem raiz no tipo de “teoria” pós-moderna que emergiu no fim dos anos sessenta. Como resultado desse trabalho, viemos a chamar essas áreas de “estudos de ressentimento”,(1)N. do T.: No original em inglês, grievance studies, o que também pode ser traduzido como estudos denuncistas / de queixa / reclamação / agravo / indignação. como uma abreviação por causa da meta em comum deles de problematizar aspectos da cultura nos mínimos detalhes para tentar diagnosticar desequilíbrios de poder e opressão com raiz na identidade.

Realizamos este projeto para estudar, entender e expor a realidade dos estudos denuncistas, que estão corrompendo a pesquisa acadêmica. Por ser quase impossível ter conversas francas e de boa fé em tópicos de identidade como gênero, raça e sexualidade (e as partes da academia que trabalham com isso), nosso objetivo foi reiniciar essas conversas. Esperamos que isso dê às pessoas — especialmente às que acreditam no liberalismo, no progresso, na modernidade, na investigação aberta e na justiça social — um motivo evidente para ver a maluquice identitária vindo da esquerda acadêmica e ativista e dizer “não, não vou me juntar a isso. Vocês não falam por mim”.

Este documento é um primeiro vislumbre do nosso projeto e uma tentativa inicial de lidar com o que estamos aprendendo e o que isso significa. Por causa da extensão e dos detalhes, o texto é organizado como se segue, com as informações factuais vindo primeiro e as explicações mais detalhadas vindo depois.

  • Nossa metodologia, que é central em contextualizar nossas afirmações;
  • Um resumo deste projeto desde o seu começo até que fomos expostos e forçados a vir a público antes de concluir nossa pesquisa;
  • Uma explicação do porquê de termos feito isso;
  • Um resumo do problema e de sua importância;
  • Uma explicação clara de como esse projeto foi elaborado;
  • Os resultados do nosso estudo, incluindo uma lista completa de todos os artigos que submetemos para publicação, do resultado final deles, e dos comentários relevantes dos revisores feitos até aqui;
  • Uma discussão da significância dos resultados;
  • Um resumo do que pode vir no futuro

Parte II: Métodos

A nossa abordagem é melhor entendida como um tipo de etnografia reflexiva — isto é, conduzimos um estudo sobre uma cultura acadêmica peculiar nos imergindo nela, refletindo a produção dela e modificando nosso entendimento dela até que nos tornamos “forasteiros internos” a ela.

Nosso objetivo foi aprender sobre essa cultura e estabelecer que nos tornamos fluentes em sua língua e costumes ao publicar artigos revistos por pares em seus mais prestigiosos periódicos, o que só especialistas na área geralmente são capazes de fazer. Por virmos a conceituar este projeto como um tipo de estudo etnográfico reflexivo em que buscamos entender a área e como ela funciona participando dela, obter os comentários dos revisores dos artigos sobre o que estávamos fazendo certo e o que precisávamos mudar para tornar aceitáveis teses absurdas foi o cerne do projeto. De fato, os comentários dos revisores são de muitas formas mais reveladores sobre o estado dessas áreas do que a aceitação dos artigos.

Ainda que nossos artigos sejam extravagantes e intencionalmente falhos de modos significativos, é importante reconhecer que eles se encaixam quase perfeitamente junto aos outros nas disciplinas sob consideração. Para demonstrar isso, precisamos que os artigos fossem aceitos, especialmente por periódicos importantes e influentes. Esse mero encaixe não poderia gerar a  profundidade necessária para o nosso estudo, no entanto. Também precisávamos escrever artigos que corressem riscos ao testar algumas hipóteses, de tal modo que a sua aceitação em si diga algo sobre o problema que estamos estudando (veja abaixo a seção de artigos). Em consequência, embora este estudo não se qualifique como particularmente bem controlado, nós de fato controlamos uma variável importante: a metodologia abrangente que usamos para escrever cada um dos artigos.

Nossa metodologia de redação de artigos seguiu sempre um padrão específico: começava com uma ideia que ressoasse com nossas preocupações epistemológicas ou éticas com a área, e depois buscava dobrar a comunidade acadêmica existente a apoiá-la. O objetivo era sempre usar o que a literatura existente oferecia para tornar aceitável algum pedacinho de maluquice ou perversidade para os níveis mais altos da respeitabilidade intelectual dentro da área. Portanto, cada artigo começava com algo absurdo ou profundamente antiético (ou ambos) que queríamos passar ou concluir. Depois fazíamos a literatura revista por pares existente cumprir nossa demanda na tentativa de sermos publicados no cânone acadêmico.

Esse é o sentido primário do projeto: O que acabamos de descrever não é produção de conhecimento; é sofisma. Ou seja, é um embuste de conhecimento que não deveria ser confundido com a coisa real. A maior diferença entre nós e a comunidade acadêmica que estamos estudando por imitação é que nós sabíamos que estávamos inventando coisas.

Esse processo é a única linha que junta todos os vinte dos nossos artigos, embora tenhamos usado uma variedade de métodos para inventar as várias ideias postas neles para ver como os editores e revisores responderiam. Às vezes só pensamos em alguma ideia louca ou desumana e a apresentamos. E se escrevêssemos um artigo dizendo que devemos treinar homens como treinamos cachorros — para prevenir a cultura do estupro? Daí veio o artigo do “Parque dos Cães“. E se escrevêssemos um artigo alegando que quando um homem se masturba em ambiente privado pensando em uma mulher (sem o consentimento dela — na verdade, sem que ela jamais descubra) ele está cometendo violência sexual contra ela? Essa ideia nos deu o artigo sobre masturbação. E se alegarmos que a razão pela qual a superinteligência artificial é potencialmente perigosa é que ela está sendo programada para ser masculinista e imperialista, usando o Frankenstein de Mary Shelley e a psicanálise lacaniana? Esse é nosso artigo sobre “Inteligência Artificial Feminista”. E se defendermos que “o corpo gordo é legitimamente fisiculturista” como um fundamento para introduzir uma categoria de fisiculturismo gordo dentro do esporte do fisiculturismo profissional? Você pode ler como isso funcionou na publicação Fat Studies.

Em outros momentos, esquadrinhamos a literatura de estudos de ressentimento para ver onde ela já estava indo mal e então tentamos ampliar esses problemas. Glaciologia feminista? OK, copiaremos isso e escreveremos um artigo de astronomia feminista que alega que a astrologia feminista e queer deve ser considerada parte da ciência da astronomia, que acusaremos de ser intrinsecamente sexista. Os revisores ficaram muito entusiasmados com essa ideia. Usando um método como análise temática para dar interpretações enviesadas de dados? Certo, escrevemos um artigo sobre pessoas trans no ambiente de trabalho que faz exatamente isso. Os homens usam “reservas masculinas” para pôr em prática discursos masculinos moribundos de “macho” de uma forma que a sociedade ao redor não aceita? Sem problemas. Publicamos um artigo que pode ser resumido como “Um acadêmico vai ao Hooters(2)N. do. T.: Rede de bares famosa por contratar garçonetes sensuais. Hooter significa buzina e é uma referência aos seios das garçonetes. para tentar descobrir por que o lugar existe”. “Desfamiliarizando-se” com experiências comuns, fingindo perplexidade com elas e buscando construções sociais para explicá-las? OK, nosso artigo sobre consolos fez isso para responder à pergunta “Por que homens heterossexuais tendem a não se masturbar pela penetração anal, e o que poderia acontecer se tentassem?” Dica: de acordo com nosso artigo, publicado em Sexuality and Culture, um dos mais importantes periódicos sobre sexualidades, eles serão menos transfóbicos e mais feministas se tentarem.

Usamos outros métodos, também, como por exemplo “imagino se aquela ‘lista progressiva‘ que apareceu nas notícias(3)N. do T.: A lista progressiva consiste numa hierarquia de chance de falar aplicada em manifestações da esquerda progressista. Quanto mais oprimida for a identidade de alguém, mais chance essa pessoa tem de falar primeiro. poderia ser descrita num artigo que propusesse que os homens brancos na universidade não deveriam ter permissão para falar em sala de aula (ou de terem seus emails respondidos pelo instrutor), e, melhor ainda, que se pedisse a eles para se sentarem acorrentados no chão para que possam ‘vivenciar a dívida histórica’.” Esse foi nosso artigo sobre a “lista progressiva”. A resposta parece ser sim, e a revista importantíssima de feminismo Hypatia foi surpreendentemente simpática à ideia. Outra ideia dura de engolir nossa foi “será que publicariam uma reedição feminista de um capítulo do Mein Kampf de Adolf Hitler?” A resposta para essa pergunta se revelou também um “sim”, dado que a revista de serviço social feminista Affilia acabou de aceitar o artigo. Conforme progredíamos, começamos a perceber que mais ou menos qualquer coisa poderia funcionar, contanto que ficasse dentro da ortodoxia moral da área e demonstrasse um entendimento da literatura existente.

Em outras palavras, nós agora temos boas razões para acreditar que, se nos apropriarmos da literatura da área da forma certa — e sempre parece haver uma citação ou uma corrente da literatura que torna isso possível — podemos dizer qualquer coisa que quisermos que esteja na moda na política. As perguntas subjacentes em cada caso eram as mesmas: O que precisamos escrever, e o que precisamos citar (todas as nossas citações são reais, a propósito) para conseguir publicar essa loucura como um “trabalho acadêmico” de alto nível?

O Que Fizemos?

Escrevemos 20 artigos que os submetemos para publicação nas melhores revistas nas áreas relevantes (mais a respeito abaixo) com sucesso considerável, mesmo tendo de vir a público com o projeto prematuramente, e assim parar o estudo, antes que pudesse ser concluído de modo apropriado. Na data em que publicamos esta explicação, nós temos:

  • 7 artigos aceitos.

    4 desses foram publicados online.

    3 outros foram aceitos e não houve tempo de a publicação acontecer. (Isso pode levar meses).
  • 7 artigos ainda em tramitação que tivemos de abandonar.

    2 foram “revistos e ressubmetidos” e estão aguardando decisão. (O julgamento da fase de “revisão e ressubmissão” geralmente resulta na publicação após a compleição das correções pedidas. Um parecer de “rejeição e ressubmissão” pode resultar na publicação após correções mais substanciais. É muito raro que artigos sejam aceitos de imediato.)

    1 ainda está sob revisão em seu periódico atual.

    4 estão pendentes sem prazo de submetê-los aos periódicos após rejeição (2), revisão e ressubmissão (1) ou rejeição e ressubmissão (1).
  • 6 foram retirados por serem fatalmente defeituosos para além de reparos.
  • 4 convites foram feitos para que fôssemos revisores de outros artigos como resultado do nosso trabalho acadêmico exemplar. (Por razões éticas, recusamos todos esses convites. Se quiséssemos ter participado por completo na cultura deles dessa forma, no entanto, teria sido uma oportunidade única de improvisar para ver quão longe poderíamos chegar com a hipótese de que o cânone da literatura dessas áreas fica enviesado em parte porque o processo de revisão por pares estimula os vieses políticos e ideológicos políticos delas.)
  • 1 artigo (sobre a cultura do estupro em parques de cães) ganhou um reconhecimento especial por sua excelência no periódico em que foi publicado, Gender, Place, and Culture, um periódico de alto calibre que lidera a área da geografia feminista. O periódico premiou o artigo como uma de doze obras de geografia feminista como parte da celebração do aniversário de 25 anos da revista.

Em resumo, passamos 10 meses escrevendo os artigos, terminando cada artigo numa média de 13 dias. (Sete artigos publicados em sete anos é um número considerado muitas vezes suficiente para ganhar uma posição estável na maioria das universidades, embora, na realidade, os requisitos variem por instituição.) Quanto ao nosso desempenho, 80% dos nossos artigos passaram pela completa revisão por pares, o que corresponde ao padrão de 10-20% dos artigos que são “rejeitados de pronto” sem revisão nos maiores periódicos da área. Melhoramos essa taxa de 0% no começo para 94,4% depois de alguns meses experimentando na produção de outros artigos fraudulentos. Por termos sido forçados a vir a público antes que pudéssemos completar nosso estudo, não temos certeza de quantos artigos teriam sido aceitos se houvesse tempo de acompanhá-los no processo — artigos tipicamente levam 3-6 meses ou mais para completarem o processo inteiro e um dos nossos estava sob revisão de dezembro de 2017 a agosto de 2018 — mas uma estimativa de chegar a ao menos 10 aceitações, provavelmente até 12, parece garantida no momento em que precisamos encerrar.

Os rascunhos finais submetidos tinham ao todo pouco menos de 180 mil palavras e o projeto inteiro entre 300 mil e 350 mil palavras, incluindo todas as notas, rascunhos, resumos e respostas aos revisores das revistas. Os artigos compreendiam ao menos 15 subdomínios do pensamento nos estudos de ressentimento, incluindo estudos (feministas) de gênero, estudos de masculinidades, estudos queer, estudos de sexualidade, psicanálise, teoria crítica da raça, teoria crítica da branquitude, estudos da adiposidade, sociologia e filosofia educacional. Eles expunham epistemologias radicalmente céticas e perspectivistas enraizadas no pós-modernismo, epistemologia feminista e racial crítica enraizada no construtivismo social crítico e também na psicanálise. Buscamos ser bem humorados neles todos ao menos de algum modo modesto (e muitas vezes em grande forma). O projeto, até aqui, gerou mais de 40 relatórios editoriais e de leitores especialistas, constituindo cerca de 30 mil palavras adicionais de dados que fornecem um ponto de vista singular e interno sobre a área e como ela opera.

Nossos artigos também apresentam metodologias muito fracas, incluindo estatísticas incrivelmente implausíveis (“Parque dos Cães”), alegações não sustentadas pelos dados (artigos “CisNorm”, “Hooters” e “Consolos”), e análises qualitativas motivadas por ideologia (“CisNorm”, “Pornografia”). (Ver seção de artigos abaixo.) Metodologias qualitativas questionáveis tais como a pesquisa poética e a autoetnografia (às vezes chamada pejorativa e corretamente de “meusquisa”) foram incorporadas (especialmente no caso das “Reuniões Lunares”).

Muitos artigos defendiam uma ética altamente duvidosa, incluindo o treinamento de homens como cães (“Parque dos Cães”), a punição de universitários homens brancos pela escravidão histórica que consiste em se sentarem acorrentados em silêncio no chão durante as aulas, na expectativa de que aprendam com o desconforto (“Lista Progressiva”), a celebração da obesidade mórbida como um estilo de vida saudável (“Fisiculturismo Gordo”), o tratamento da masturbação privada como uma forma de violência sexual contra as mulheres (“Masturbação”), e a programação da superinteligência artificial com disparates irracionais e ideológicos antes de deixá-la mandar no mundo (“Inteligência Artifical Feminista”). Houve também tolices consideráveis, incluindo a alegação de termos examinado minuciosamente os genitais de pouco menos de dez mil cachorros enquanto interrogávamos os donos a respeito da sexualidade dos animais (“Parque dos Cães”), uma aparente perplexidade diante de homens heterossexuais se interessarem por mulheres (“Hooters”), a insistência de que há algo a ser aprendido sobre o feminismo ao botar quatro homens para assistir a milhares de horas de pornografia pesada durante um ano enquanto respondiam repetidamente ao Teste de Associação Implícita de Gênero e Ciência (“Pornografia”), a expressão de confusão sobre por que as pessoas se preocupam mais com a genitália dos outros quando consideram fazer sexo com eles (“CisNorm”), e a recomendação para homens penetrarem a si mesmos analmente para se tornarem menos transfóbicos, mais feministas e mais preocupados com os horrores da cultura do estupro (“Consolos”). Nada disso, exceto por “Helen Wilson” ter registrado “um estupro canino por hora” em parques urbanos para cães em Portland, Oregon, levantou suspeitas em qualquer revisor, até onde mostram os relatórios deles.

Perto do fim de julho de 2018, uma necessidade urgente de encerrar o projeto prematuramente surgiu depois que nosso artigo do “parque dos cães” atraiu atenções incrédulas nas redes sociais geradas pela conta Real Peer Review, que é uma plataforma dedicada a expor trabalhos acadêmicos de péssima qualidade. Essa incredulidade merecida levou pequenas publicações jornalísticas, e mais tarde maiores, a investigarem nossa autora fictícia, Helen Wilson, e nossa instituição inexistente, a Portland Ungendering Research Initiative (PURI), e a não acharem vestígios de nenhum dos dois. Sob pressão, o periódico que publicou o artigo, Gender, Place and Culture, pediu a nossa autora que provasse a sua identidade e depois publicou um termo de preocupação acerca do artigo. Isso despertou mais atenção e finalmente levou ao envolvimento do Wall Street Journal, e, o que é bem mais importante, mudou a ética de uso do embuste dentro do projeto. Com mais jornais e (naquele momento) dois periódicos pedindo que provássemos as identidades dos nossos autores, a ética mudou de uma necessidade defensável de investigação e surgiu uma necessidade de mentir para continuar. Não nos sentimos bem com essa possibilidade e decidimos que a hora de vir a público com o projeto havia chegado. Como resultado, nos entendemos com o Wall Street Journal no começo de agosto e começamos a preparar um resumo tão rápido quanto possível, embora ainda tivéssemos vários artigos progredindo com confiança no processo de revisão por pares.

Parte III: Por Que Fizemos Isso?

Seria porque somos racistas, sexistas, intolerantes, misóginos, homofóbicos, transfóbicos, trans-histéricos, antropocêntricos, problemáticos, privilegiados, violentos, de extrema direita, homens brancos cis héteros (e uma mulher branca que estava demonstrando sua misoginia internalizada e uma necessidade urgente de aprovação masculina) que queriam autorizar a intolerância, preservar nosso privilégio e ficar do lado do ódio?

Não. Nenhuma dessas possibilidades se aplica. Entretanto, seremos acusados disso tudo, e temos alguma ideia do porquê.

Para muitos que não estão envolvidos com a academia, em particular aqueles que não acreditam no valor dela em geral, pode parecer que estamos lidando com mais uma picuinha acadêmica obscura de pouca relevância para o mundo real. Vocês estão enganados. O problema que estudamos é da maior relevância para o mundo real e todos que o habitam.

Por outro lado, aqueles que vêem a academia com bons olhos e apoiam etica e/ou politicamente a pesquisa em ciências sociais e humanidades com foco em questões da justiça social podem pensar que o trabalho que os pesquisadores estão fazendo nesses tópicos é importante e geralmente tem sanidade. Teriam razão que é importante, mas não que tem sempre sanidade — uma parte do trabalho sendo produzido é com certeza horrendo e surreal, e exerce uma influência considerável sobre a área e além. Vocês podem também considerar que há problemas emergindo da pressão da cultura publish-or-perish [publicar ou perecer], conduzida por modelos de negócios defeituosos das universidades e que serve para uma indústria oportunista de publicações tirar vantagem, mas não acreditar que há problemas sérios epistemológicos e éticos por trás disso.

Como liberais, reconhecemos que vocês possam ter resistência a considerar que nossas evidências apontam para um problema inegável na pesquisa acadêmica em questões importantes relevantes à justiça social. O trabalho feito nessas áreas alega continuar o trabalho vital dos movimentos de direitos civis, do feminismo liberal e do Orgulho Gay. Esse trabalho busca lidar com a opressão das mulheres e das minorias raciais e sexuais. Sem dúvida, vocês poderiam acreditar, portanto, que esses corpos de literatura devem ser essencialmente sãos e bons, mesmo que vocês reconheçam que há alguns exageros e tolices.

Depois de passar um ano imersos e nos tornando especialistas reconhecidos dentro dessas áreas, além de testemunhando os efeitos divisivos e destrutivos quando ativistas e turbas das redes sociais as põem em prática, podemos agora afirmar com confiança que as áreas não são boas nem sãs. Além disso, essas áreas de estudo não continuam o importante e nobre trabalho liberal dos movimentos de direitos civis; elas o corrompem enquanto abusam de seu bom nome para continuar vendendo um tipo de curandeirismo social para um público que fica cada vez mais doente. Para que saibamos qualquer coisa a respeito da injustiça na sociedade e consigamos mostrá-la para os que não estão cientes dela ou a negam, o trabalho acadêmico sobre essa injustiça precisa ser rigoroso. Atualmente, não é. Isso permite que a área e os problemas de justiça social relacionados a ela sejam descartados. É um problema sério e preocupante, e devemos resolvê-lo.

Qual é o problema?

Afirmamos com firmeza que há um problema nas nossas universidades, e que ele está se espalhando rapidamente para a cultura. Nisso, é ajudado pelo fato de que é difícil de entender e por usar intencionalmente palavras emocionalmente poderosas — como “racista” e “sexista” — de formas técnicas que significam coisa diferente do seu uso comum. Esse projeto identifica aspectos desse problema, os testa e expõe.

O problema é epistemológico, político, ideológico e ético, e está corrompendo profundamente o trabalho acadêmico nas ciências sociais e humanidades. O cerne do problema é formalmente chamado de “construtivismo social”, e seus acadêmicos mais flagrantes são às vezes chamados de “construtivistas radicais”. Expressar esse problema com precisão é difícil, e muitos que tentaram evitaram cuidadosamente fazê-lo de forma sucinta e clara. Essa hesitação, mesmo responsável, dada a complexidade do problema e suas raízes, provavelmente ajudou o problema a se perpetuar.

Esse problema é mais facilmente resumido como uma crença abrangente (quase ou por completo sacralizada) de que muitas facetas comuns da experiência e da sociedade são socialmente construídas. Essas construções são vistas como dependentes em parte ou totalmente de dinâmicas de poder entre grupos de pessoas, muitas vezes definidos pelo sexo, raça ou identificação sexual ou de gênero. Todos os tipos de coisas aceitas como tendo uma base na realidade por causa de evidências são em vez disso vistas como tendo sido criadas por maquinações intencionais e inadvertidas de grupos poderosos para manter seu poder sobre os grupos marginalizados. Essa visão de mundo produz um imperativo moral de desmantelar essas construções.

“Construções sociais” comuns vistas como intrinsecamente “problemáticas”, e dessa forma com alegada necessidade de desmonte, incluem:

  • o entendimento de que há diferenças cognitivas e psicológicas entre homens e mulheres que poderiam explicar, ao menos em parte, por que fazem escolhas diferentes em relação a coisas como trabalho, sexo e vida familiar;
  • que a assim chamada “medicina ocidental” (embora muitos cientistas médicos eminentes não sejam ocidentais) seja superior a práticas de cura tradicionais ou espirituais;
  • que as normais culturais liberais do ocidente que dão às mulheres e aos LGBT direitos iguais sejam superiores nesse aspecto a normas religiosas ou culturais não-ocidentais que não fazem isso; e
  • que ser obeso seja um problema de saúde limitante à vida em vez de uma escolha de corpo igualmente saudável e bela que é injustamente estigmatizada.

Por trás dessas alegadas “construções sociais” está a crença mais preocupante de todas. É a crença de que há uma necessidade urgente de se “desconstruir” a verdade simples de que a própria ciência — junto com nossos melhores métodos de coleta de dados, análise estatística, teste de hipóteses, refutação e replicação de resultados — é geralmente uma forma melhor de determinar informações sobre a realidade objetiva de qualquer fenômeno observável do que abordagens não-científicas, tradicionais, culturais, religiosas, ideológicas ou mágicas. Ou seja, para os acadêmicos dos estudos de ressentimento, a própria ciência e o método científico são profundamente problemáticos, se não flagrantemente racistas e sexistas, e devem ser refeitos para avançar a política identitária baseada em ressentimento acima da busca imparcial da verdade. Essas mesmas questões são estendidas também para a tradição filosófica “ocidental” que eles acham problemática por favorecer a razão acima da emoção, o rigor acima do solipsismo, e a lógica acima da revelação.

Como resultado, os construtivistas radicais tendem a acreditar que a ciência e a razão devem ser desmanteladas para deixar “outras formas de saber” terem igual validação como empreendimentos de produção de conhecimento. Alega-se que esses saberes, dependendo do ramo de “teoria” invocado, pertencem às mulheres e às minorias raciais, culturais, religiosas e e sexuais. Não apenas isso, são considerados inacessíveis a castas mais privilegiadas de pessoas, como homens brancos heterossexuais. Os construtivistas justificam esse pensamento regressivo apelando à epistemologia alternativa deles, chamada de “teoria do ponto de vista” [ou “teoria perspectivista”]. O resultado disso é um relativismo epistemológico e moral que, por razões políticas, promove formas de saber que são contrárias à ciência e éticas que são contrárias ao liberalismo universal.

O construtivismo radical é, portanto, uma ideia perigosa que se tornou referência. Propaga a ideia de que devemos, com bases morais, rejeitar em grande parte a crença de que o acesso à verdade objetiva existe (objetividade científica) e pode ser ser descoberto, em princípio, por qualquer entidade capaz de fazer o trabalho, ou, mais especificamente, por humanos de qualquer raça, gênero ou sexualidade (universalidade científica) através do teste empírico (empirismo científico). (Essa crença em particular é às vezes chamada de “ceticismo radical”, embora os filósofos também tenham outros significados para o termo.) Embora o conhecimento seja sempre provisório e aberto à revisão, há formas melhores e piores de chegar mais perto dele, e o método científio é a melhor que descobrimos. Em contrapartida, os meios oferecidos pela teoria crítica são demonstravel e fatalmente defeituosos. Particularmente, essa abordagem rejeita a universalidade científica e a objetividade e insiste, com bases morais, que nós devemos aceitar em grande medida a noção de múltiplas “verdades” baseadas em identidade, tais como a hipotética “glaciologia feminista“. Sob o construtivismo crítico, isso ganha uma motivação política explicitamente radical.

Qualquer trabalho acadêmico que parta de pressupostos radicalmente céticos sobre a verdade objetiva por definição não encontra a verdade objetiva, nem pode encontrar. Em vez disso, promove preconceitos e opiniões e os chama de “verdades”. Para construtivistas radicais, essas opiniões são especificamente enraizadas num programa político da “Justiça Social” (que transformamos de propósito em nome próprio para distingui-la do tipo de progresso social real que está sob o mesmo nome). Por causa do construtivismo crítico, que vê o conhecimento como um produto de desequilíbrios injustos de poder, e por causa desse tipo de ceticismo radical, que rejeita a verdade objetiva, esses acadêmicos são como curandeiros que fazem um diagnóstico da nossa sociedade como acometida por uma doença que somente eles podem curar. Essa doença, como eles a vêem, é endêmica em qualquer sociedade que promova a agência do indivíduo e a existência de verdades objetivas (ou cientificamente cognoscíveis).

Depois de passarmos um ano fazendo esse trabalho por nós mesmos, entendemos por que essa pesquisa fatalmente defeituosa é atraente, como exatamente está errada em seus fundamentos, e como é condutiva a ser usada para passar dos limites eticamente. Vimos, estudamos e participamos de sua cultura através da qual ela “prova” que certos problemas existem e então defende tratamentos muitas vezes divisivos, degradantes e nocivos sem os quais todos estaríamos melhor.

Também sabemos que o sistema de revisão por pares, que deveria filtrar e remover os vieses que permitem que esses problemas cresçam e ganhem influência, é inadequado dentro dos estudos de ressentimento. Isso não é tanto um problema com a própria revisão por pares quanto um reconhecimento de que a revisão por pares só pode ser tão imparcial quanto o corpo agregado de pares que são chamados a participar. Os pesos e contrapesos céticos que deveriam caracterizar o processo acadêmico foram substituídos por ventos fortes de viés da confirmação que sopram os estudos de ressentimento cada vez mais para fora de curso.  Não é assim que a pesquisa deve funcionar.

Embora não pareça imediatamente óbvio — pois os incentivos financeiros para os pesquisadores, na maior parte, não estão diretamente envolvidos (embora as editoras com certeza estejam lucrando com isso) — esse é um tipo flagrante de corrupção. Dessa forma, a pesquisa com viés político que repousa sobre premissas muito questionáveis ganha legitimidade como se fosse conhecimento verificável. E então continua a permear a nossa cultura porque professores, ativistas e outros citam e ensinam esse corpo crescente de trabalho acadêmico ideologicamente tendencioso e falacioso.

Isso é importante porque, mesmo embora a maioria das pessoas jamais lerão nem um único artigo acadêmico em suas vidas, os periódicos revistos por pares são o padrão de excelência da produção do conhecimento. E esses conceitos vazam para a cultura. Um bom exemplo disso é o conceito de “fragilidade branca” de Robin DiAngelo, que postula que as pessoas brancas se tornaram frágeis por causa de seus privilégios e fazem birra como crianças mimadas se eles forem desafiados. DiAngelo propôs esse conceito no International Journal of Critical Pedagogy(4)N. do T.: Revista Internacional de Pedagogia Crítica, em tradução livre. em 2011. Sete anos depois, em 2018, ela conseguiu um importante contrato de publicação sobre a fragilidade branca, enquanto os ativistas empurraram o conceito para o vocabulário comum e começaram a propagandeá-lo em outdoors na região de Portland, Oregon.

Como sociedade, deveríamos ter a capacidade de confiar nos periódicos de pesquisa, acadêmicos e universidades para que defendam o rigor acadêmico, filosófico e científico (porque a maioria dos periódicos acadêmicos o fazem). Precisamos saber que a postura linha-dura contra corrupções da pesquisa, adotada em domínios como os conflitos de interesse de natureza financeira e pessoal, será estendida aos vieses políticos, morais e ideológicos. Nosso projeto sugere enfaticamente que no atual momento não podemos confiar nisso nem saber dessas coisas em áreas que se curvam aos estudos de ressentimento ou trafegam por eles. O motivo é que os estudos de ressentimento baseados no construtivismo crítico (uma classe de descendentes do cinismo da filosofia pós-moderna e do pós-estruturalismo) corromperam os periódicos de pesquisa. Reparos são necessários.

É por isso que isso é importante. Mas como chegamos aqui, a esse projeto específico? E que diretrizes adotamos, e por quê?

Parte IV: O Plano — Como Aconteceu

Em maio de 2017, James e Peter publicaram um artigo num periódico de baixo ranking com revisão por pares argumentando, entre outras coisas, que os pênis causam conceitualmente as mudanças climáticas. Seu impacto foi bem limitado, e muitas críticas dele foram legítimas. A revista era pobre, e sua baixa qualidade foi de longe o fator dominante do sucesso da publicação (por ter padrões de revisão muito baixos e cobrar os autores uma taxa para publicar os artigos). Isso turvou tanto as águas que o artigo “O Pênis Conceitual” não pôde provar muita coisa sobre o estado de seu alvo pretendido: estudos acadêmicos de gênero (que se baseiam fortemente em construtivismo crítico). Para fazer isso, um estudo bem maior e mais rigoroso era necessário.

Abordamos esse esforço fazendo duas perguntas centrais: Estamos corretos na nossa alegação de que periódicos de grande prestígio nos estudos de gênero e áreas relacionadas publicariam fraudes óbvias? (Por “fraudes” queremos dizer artigos que têm ao menos uma das seguintes coisas: teses claramente ridículas e/ou ultrajantes, construção visivelmente amadora, uma transparente ausência de rigor, e que demonstram claramente pouco entendimento da área.) E, se não, o que eles publicarão?

Determinamos três regras básicas: (1) nos focaríamos quase exclusivamente nos mais importantes periódicos com revisão por pares na área, quanto mais altos no ranking melhor, e no topo de de suas subdisciplinas sempre que possível; (2) não pagaríamos pela publicação de nenhum artigo; e (3) se um editor ou revisor (mas não um jornalista!) perguntasse a qualquer momento se o que escrevemos era uma tentativa de fraude, nós confessaríamos. Essas regras foram para assegurar que quaisquer conclusões que tirássemos sobre a área viessem da própria área, não do problema não-relacionado mas significativo que também corrompe as empreitadas acadêmicas: a proliferação de revistas predatórias e quase-predatórias com muito baixo rigor. Com essas regras nos guiando, fizemos o compromisso de relatar com transparência os resultados, com ou sem sucesso.

No ano seguinte, e com a ajuda da Helen, que se juntou a nós em setembro de 2017, escrevemos vinte artigos acadêmicos para periódicos nas áreas que viemos a identificar como particularmente susceptíveis aos estudos de ressentimento e ao construtivismo crítico. Os resultados mais que satisfizeram ambas as nossas perguntas centrais.

A primeira pergunta tem uma resposta clara. “Estamos corretos na nossa alegação de que periódicos de grande prestígio nos estudos de gênero e áreas relacionadas publicariam fraudes óbvias?” foi respondida quase inequivocamente até novembro, e a resposta era negativa. Levamos só alguns meses e alguns artigos para aprender que, enquanto é possível que algumas revistas nessas áreas possam cair numa fraude óbvia contanto que ela ressoe com seus vieses morais e jargão acadêmico preferido, nada como “O Pênis Conceitual” teria sido publicado num periódico de estudos de gênero de alto prestígio. Ao acreditar que alguns poderiam ser publicados, e ao dizê-lo após aquela tentativa, estávamos errados.

Ao buscar responder à outra pergunta (“O que publicarão?”), aprendemos muitas informações úteis sobre os estudos acadêmicos de ressentimento. Em primeiro lugar, ao adotar uma abordagem etnográfica reflexiva, buscar os comentários dos revisores, atendendo aos pedidos deles, insistindo com mais veemência nos vieses que nos disseram explicitamente que nos ajudariam a publicar, tornamo-nos bem versados não apenas no trabalho acadêmico das áreas que estamos estudando, como também na cultura que os favorece. Em segundo lugar, coletamos evidências aparentemente significativas e especialidade suficiente para dizer que estávamos corretos ao alegar que há um problema de viés nas áreas influenciadas por abordagens e pressupostos do construtivismo crítico.

(Todos os artigos e pareceres de revisores podem ser encontrados aqui.)

Nota da Tradução: a Parte V: Os Resultados (de todos os 20 artigos) será publicada nos próximos dias.

Por Helen Pluckrose, James A. Lindsay e Peter Boghossian, em Areo Magazine, 2 de outubro de 2018Helen Pluckrose é pesquisadora de textos medievais tardios e pré-modernos escritos por e sobre mulheres; atualmente está escrevendo um livro sobre o pós-modernismo e a teoria crítica e seu impacto na epistemologia e na ética acadêmicas; é editora-chefe da Areo. James A. Lindsay é um pensador, não um filósofo, por admissão própria; com um doutorado em matemática e formação em física; é autor de quatro livros, mais recentemente Life in Light of Death; seus ensaios apareceram em publicações como TIME, Scientific American e The Philosopher’s Magazine. Peter Boghossian é professor de filosofia há mais de 25 anos, tendo ensinado a cerca de 30 mil estudantes em prisões, hospitais, escolas públicas e privadas, seminários e universidades; seus interesses principais são o pensamento crítico e o raciocínio moral.

Esta tradução gratuita envolveu um trabalho que pode ser avaliado em R$350,00. Considere recompensar o tradutor via Patreon

Notas   [ + ]

1. N. do T.: No original em inglês, grievance studies, o que também pode ser traduzido como estudos denuncistas / de queixa / reclamação / agravo / indignação.
2. N. do. T.: Rede de bares famosa por contratar garçonetes sensuais. Hooter significa buzina e é uma referência aos seios das garçonetes.
3. N. do T.: A lista progressiva consiste numa hierarquia de chance de falar aplicada em manifestações da esquerda progressista. Quanto mais oprimida for a identidade de alguém, mais chance essa pessoa tem de falar primeiro.
4. N. do T.: Revista Internacional de Pedagogia Crítica, em tradução livre.

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