No domingo de 28 de abril de 1996, Martin Bryant acordou com o despertador às seis da manhã. Despediu-se da namorada quando ela saiu de casa, comeu alguma coisa para o café da manhã, e ligou o alarme antifurto antes de sair de sua residência em Hobart, Austrália, como sempre fazia. Ele parou um pouco para comprar um café na cidadezinha de Forcett, onde ele pediu ao caixa “ferva a água por menos tempo”. Depois ele dirigiu até a cidade próxima de Port Arthur, um assentamento de condenados da era colonial com poucas centenas de habitantes. Foi aqui que Bryant tirou dois rifles e uma espingarda de uma bolsa esportiva no banco de passageiro do carro para perpetrar o pior massacre da história moderna australiana. Quando terminou, havia matado 35 pessoas e deixado mais 23 feridas.

Martin Bryant, assassino australiano (wikicommons)

Surpreendentemente, Bryant foi capturado vivo. Foi preso ao fugir de um incêndio na casa em que havia se abrigado durante uma troca de tiros com a polícia. Mais tarde ele confessou culpa de uma série de acusações descritas como “sem precedentes” pelo juiz do caso, e foi condenado à prisão perpétua sem possibilidade de condicional, assim poupando suas vítimas e outros sobreviventes de sofrer (ou talvez ter a catarse de) um julgamento prolongado. Mas, apesar de confessar culpa, Bryant não aproveitou a oportunidade de uma declaração oficial de defesa para dar seus motivos para a atrocidade. Em vez disso, fez piada: “Com certeza vocês acharão a pessoa que causou tudo isso”, disse ele, antes de acrescentar “eu”. Especulações intensas da imprensa vieram a seguir, com foco principal no histórico de dificuldades de comportamento de Bryant. Essas dificuldades foram tratadas como evidências possíveis de um transtorno psiquiátrico tal como a esquizofrenia (que dificilmente seria suficiente como explicação causal para os seus crimes). No entanto, o fato mais notável e concreto sobre a condição psicológica de Bryant é o seu QI extremamente baixo de 66 — bem dentro da faixa das doenças mentais.

As pontuações de QI são classificadas de várias formas, todas bastante similares. A Escala Wechsler de Inteligência Adulta (WAIS-IV) estabelece sete categorias de pontuações de QI. A maioria de nós está na faixa ‘Média’, que consiste entre 90 e 109. Aqueles que obtêm pontuação de 130 ou mais são considerados ‘Muito Superiores’. No outro extremo, pontuações de 69 ou menos são classificadas como ‘Muito Baixas’, e automaticamente classificam um diagnóstico de ‘retardo brando’, segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais da Associação Psiquiátrica Americana. É nesta faixa que se encaixou a pontuação de Bryant.

A conexão entre a inteligência e problemas comportamentais tais como o Transtorno de Conduta (TC) ou o Transtorno de Personalidade Antissocial (TPA) era bem documentada na época do Massacre de Port Arthur. Uma revisão de Sonia Jain, bioestatística e professora da UCSD, cita estudos contemporâneos para sugerir que as baixas pontuações de QI na infância deveriam ser consideradas um fator de risco para TPA e TC. Em 2010, vários psicólogos publicaram resultados de um estudo longitudinal contendo dados de mais de um milhão de homens suecos que foram acompanhados desde o alistamento militar por pouco mais de 20 anos. Descobriram que as pontuações de QI obtidas de testes no alistamento militar eram um preditor significativo e robusto não só de TPA ou TC, como também para todas as categorias de transtornos mentais. Conscritos com baixo QI tinham chance substancialmente maior de serem diagnosticados com uma ou mais de uma doença mental, de sofrerem de transtornos de humor ou personalidade, e de serem hospitalizados por doença mental. Aqueles na faixa mais baixa de QI — como Bryant — eram os que tinham o maior risco de terem transtornos psicológicos severos.

Razões de risco para diagnóstico em diferentes categorias de transtorno psiquiátrico de acordo com uma escala de nove faixas de pontuações de QI. O QI mais alto possível (codificado na faixa 9) é o grupo de referência. As estimativas são ajustadas por idade de alistamento, ano de nascimento, centro de alistamento, idade dos pais e status socioeconômico dos pais. (n = 1.049.663)

Por mais que essas correlações sejam preocupantes, elas não oferecem uma explicação para as atrocidades de Bryant. Numa população em que a inteligência é distribuída numa normal com média de 100, pouco mais de 2% das pessoas pontuariam QI’s próximos de Bryant. Outros 15% pontuariam QI’s abaixo de 84 — bem além do limiar para serem desqualificados no Teste de Qualificação das Forças Armadas, usado para determinar aptidão para o Exército dos EUA até 1980. As carreiras para pessoas abaixo desse limiar são extremamente raras — um fato que poderia ajudar a explicar a correlação entre baixo QI e um risco aumentado de cometer delitos e crimes, dada a escassez de empregos com bom pagamento para aqueles que têm um QI abaixo de 84.

Mas muito dessa correlação se deve a pequenos delitos e violência de rua, não assassinato em massa, e seria abominável — até obsceno — sugerir que as pessoas com baixo QI deveriam ser tratadas com suspeita, ou como assassinas enrustidas. Em quase todos os casos, esses indivíduos não oferecem risco a ninguém além deles mesmos, e têm mais chances de serem vítimas de outras pessoas. Por outro lado, seria igualmente irresponsável ignorar as dificuldades específicas que aqueles com baixo QI enfrentam. As consequências dessa ingenuidade — por melhores que sejam as intenções — podem ser devastadoras.

Talvez o melhor exemplo é ofertado pela história recente da Guerra Fria. Enquanto o complexo militar-industrial americano era sofisticado o suficiente para prover os Estados Unidos de todas as armas e armamentos que poderiam querer, sempre há coisas que o dinheiro não pode comprar. Neste caso, eram corpos — jovens homens americanos precisavam lutar em solo no Vietnã dos anos 1960, onde encontraram o mais inclemente dos campos de batalha entre as selvas e campos de arroz humildes da região. A alta e incomum taxa de atrito entre os soldados mandados para lá, além do uso frequente da dispensa de estudante e falsas doenças para escapar do alistamento (a desculpa do Presidente Trump de ‘esporões ósseos temporários’ é um exemplo famoso), resultaram em uma falta de homens que significava que mais soldados eram necessários do que a nação conseguia suprir.

O governo ficou perplexo com esse problema por um tempo, tentando reprimir, mas com má vontade, a evasão do alistamento como uma solução temporária, até que o Secretário da Defesa, Robert McNamara, chegou a uma alternativa mais permanente. O governo americano alistaria homens cujas pontuações de QI lhes tivessem desqualificado para o serviço militar até aquele momento. Esse estratagema — apelidado de ‘Projeto dos 100 mil’ — e suas graves consequências foram detalhados no livro A Tolice de McNamara,(1)N. do T.: Tradução livre. pelo saudoso Hamilton Gregory. Gregory testemunhou o destino dos alistados de baixo QI em primeira mão enquanto serviu como soldado no Vietnã. Esses alistados — apelidados cruelmente de ‘idiotas de McNamara’ — geralmente eram capazes de cumprir tarefas simples, mas até mesmo uma tarefa simples executada imperfeitamente pode ser desastrosa na guerra.

Secretário da Defesa americano Robert McNamara numa coletiva de imprensa sobre o Vietnã (26 de abril de 1965).

Um estudo de caso do livro é ‘Jerry’ (nome fictício). Jerry era um entre os 100 mil que tinham sido mandados para fazer função de guarda num campo perto da Linha Verde de Quan Loi. A tarefa de Jerry era parar qualquer um se aproximando do campo dizendo “Alto! Quem se aproxima?” e depois “Avante e se apresente!” como tréplica após uma resposta. Essa tarefa demandava muito pouco, dadas as diferenças claramente visíveis entre um soldado americano e o guerrilheiro vietcongue médio. Mas quando um oficial americano popular retornou ao campo, Jerry se atrapalhou no protocolo. Ao ver o oficial se aproximando, ele gritou “Alto!” e logo depois abriu fogo, matando o homem ali mesmo. Jerry mais tarde desapareceu no que foi ou um ato arrependido próprio de retirada ou assassinato por parte de membros revoltados de seu batalhão. Em outro caso descrito por Gregory, um dos ‘idiotas’ brincou com seus colegas de esquadra jogando para eles uma granada de mão desarmada. Apesar de ter apanhado por isso, ele achou essa brincadeira tão divertida que a repetiu todo dia até que o inevitável aconteceu; ele se esqueceu de desarmar a granada, causando as mortes de dois soldados e feridas graves em muitos mais.

O que aconteceu com muitos dos 100 mil (cujo total na verdade passou de 350 mil) não era difícil de prever. “Para sobreviver no combate você tinha de ser inteligente”, escreve Gregory. “Tinha de saber como usar o seu rifle efetivamente e mantê-lo limpo e operável, como explorar as selvas e campos de arroz sem alertar o inimigo, e como se comunicar e cooperar com outros membros da sua equipe.” Realizar todos ou qualquer um desses requisitos mínimos para a sobrevivência num campo de batalha depende de um certo nível de inteligência verbal e visoespacial que muitos dos alistados de McNamara não possuíam. Isso, por fim, levou a taxa de fatalidade no Vietnã a superar em três vezes a de outras mobilizações.

O perigo de danos corporais enfrentado por pessoas de baixo QI não é restrito ao campo de batalha. Um estudo de 2016, conduzido por quatro psicólogos que usaram o Banco de Dados Dinamarquês de Alistamento Militar (contendo 728.160 homens), revelou que o baixo QI pode ser um fator de risco para quase todas as causas de morte. Uma queda de apenas um desvio padrão no QI (cerca de 15 pontos) foi associada a um aumento de 28% no risco de mortalidade. A associação entre baixo QI e mortalidade foi particularmente grande para o homicídio e as doenças respiratórias (tais como o câncer de pulmão). A alta taxa de homicídio poderia refletir uma predisposição para pessoas de baixo QI de se envolverem em situações perigosas, talvez por causa de uma falta de oportunidade econômica ou de uma maior probabilidade de serem vitimizadas por indivíduos predatórios. Características similares poderiam explicar a prevalência de doenças respiratórias, que podem ser produto de altas taxas de fumo além de chances maiores de habitar áreas industriais mais poluídas onde é mais fácil encontrar emprego de baixa qualificação. Claramente, nascer com QI baixo é suficiente para preparar alguém para uma vida infeliz e de má sorte. Mas será que o baixo QI poderia ter contribuído — não explicando, mas sendo um fator — no massacre cometido por Martin Bryant?

Para responder a essa pergunta, devemos ir além das meras correlações entre o QI e diferentes tipos de resultados, e considerar que pessoas de baixo QI têm muito mais chances de passar por infortúnios em aparentemente toda empreitada. Ter inteligência é o que nos permite operar no mundo — tanto por nós mesmos quanto dentro das sociedades que habitamos. As pessoas que têm sorte de ter alto QI têm menos dificuldade em lidar com os vários desafios que encontram, e portanto ascendem naturalmente dentro das hierarquias de competência. Podemos imaginar qualquer uma dessas hierarquias, a maioria das quais não são importantes (a hierarquia da velocidade de resolução do cubo mágico, por exemplo, é provavelmente irrelevante), mas todas demandam algum grau de inteligência. Além disso, algumas dessas áreas de sucesso — tais como grupos de amizade, relacionamentos amorosos e emprego profissional — são tão fundamentais à busca individual pela felicidade que não conseguir progredir nelas é profundamente danoso ao bem-estar e ao senso de autovalorização.

Isso significa não apenas que ter baixo QI dá mais chances de ser morto ou de ser vítima de um acidente. Também significa que dá mais chances de passar por dificuldades ao galgar toda escada da vida. Alguém assim se sente muitas vezes permanentemente preso na “estaca zero” — incapaz de melhorar ou mudar a sua posição. A maioria de nós experimenta esse sentimento ao menos algumas vezes na vida, seja na escola (não conseguindo ser aluno ‘nota 10’), seja na vida social (não conseguindo estabelecer ou manter uma relação amorosa de sucesso), ou em áreas comparativamente triviais. Todavia, na maioria dos casos, é algo passageiro — some quando mudamos nossos esforços para uma nova empreitada, ou depois de produzirmos uma solução para o problema. Poucos de nós sabemos como é ter esse sentimento quase o tempo todo — ter uma grande proporção das nossas tentativas de aperfeiçoamento ou avanço pessoais frustradas por forças que parecem fora do nosso controle. Ficar preso nesse estado psicológico sombrio, mesmo que por um intervalo breve, pode levar à ansiedade, depressão ou dependência. Em alguns, esse sentimento de “estaca zero” (de que o mundo é manifestamente injusto e que trabalha contra eles) levará ao ressentimento — e o ressentimento pode virar capacidade de matar.

A vida de Martin Bryant, caracterizada por solidão, depressão e várias tentativas frustradas de fazer amigos, é repleta de exemplos que seguem esse padrão. Claramente, suas ações fazem dele um ponto fora da curva extremo entre pessoas de baixo QI — mas suas experiências de vida conturbadas são preocupantemente representativas do grupo. Quatro em 30 crianças em salas de aula EUA afora são postas para competir com seus pares por notas e vagas nas universidades apesar do baixo QI e com pouco sucesso. E, como elas, Bryant achou o ‘normal’ da sociedade algo simplesmente inatingível. Por ser desenfatizado o papel da capacidade cognitiva no sucesso infantil, que é tratado muitas vezes como resultado apenas de esforço, as crianças nessa condição podem se encontrar se esforçando mais que todas as outras crianças na turma, enquanto são admoestadas a fazer ainda mais esforço. Por mais que os cuidadores mais sábios se abstenham de culpar essas crianças totalmente por seus fracassos, um tabu sobre reconhecer a importância da inteligência significa que os próprios indivíduos de baixo QI podem não saber de sua condição e de todas as ramificações dela, o que os faz propensos a culpar a si mesmos repetidamente e a ferir a sua autoestima e estabilidade mental.

Nada disso é para sugerir que pessoas de baixo QI, ou pessoas que passam por um período de “estaca zero” por causa de limitações cognitivas, devem ser vistas como tendo alta probabilidade de violar a lei ou de cometer crimes violentos. Mas é uma explicação possível para o fato de que pessoas de baixo QI são mais prováveis de fazê-lo que pessoas de QI médio ou alto. E a realidade desconfortável é que os ressentidos, neste caso, têm certa razão em sua análise — foram postos num jogo viciado contra eles desde o começo. Pesquisas recentes da genômica o confirmaram: um estudo de 2018, na Nature,(2)Lee, James J., Robbee Wedow, Aysu Okbay, Edward Kong, Omeed Maghzian, Meghan Zacher, Tuan Anh Nguyen-Viet, et al. “Gene Discovery and Polygenic Prediction from a Genome-Wide Association Study of Educational Attainment in 1.1 Million Individuals.” Nature Genetics 50, no. 8 (August 2018): 1112–21. https://doi.org/10.1038/s41588-018-0147-3. usou genes sequenciados de mais de um milhão de indivíduos para examinar as contribuições genéticas para o sucesso escolar. Esse processo permite a construção de perfis para a capacidade individual ao avaliar os escores poligênicos (PGS). Nesse estudo, as pessoas no maior quintil de PGS tinham uma probabilidade de cerca de 50% de concluir o ensino superior; já aquelas no menor quintil, só 10%. Mas nenhuma parte dessa diferença em ‘qualidade genética’  pode ser explicada pelo mérito ou conquista individuais. É uma diferença de importância crucial, no entanto é determinada para nós, como indivíduos, pela pura sorte.

Escores poligênicos do estudo da Nature (2018)

Enquanto sistemas de bem-estar social de países ocidentais de fato fornecem benefícios aos mais desfavorecidos pela loteria cognitiva, uma proporção muito maior deles não se qualifica para assistência nenhuma. Em vez disso, pessoas com QI abaixo de 84 muitas vezes são forçadas a trabalhar em serviços manuais árduos, já que é improvável que possuam um arsenal de qualificações obrigatórias para o trabalho não-manual. Esses trabalhos fazem delas as pessoas mais marginalizadas na nossa complexa sociedade capitalista — e até essas oportunidades de trabalho estão diminuindo sob a pressão incansável por custos mais baixos  maior eficiência. Profissões como motorista, limpador e trabalhador de linha de montagem estão desaparecendo rapidamente devido à automação, deixando as pessoas com baixo QI sem lugar. Enquanto a maioria de nós desfruta dos confortos e luxúrias anunciados pela revolução da automação agora em curso, esses mesmos confortos — tais como carros de condução automática, aspiradores de pó autônomos e linhas de montagem robotizadas — estão prestes a deixar os 15% cognitivamente vulneráveis da população desempregados e não-empregáveis.

O que exatamente estamos fazendo para retificar e aliviar a desigualdade cognitiva? A resposta, é claro, é que a ignoramos e desejamos que vá embora. Continuar forçando numerosas crianças cognitivamente desprestigiadas a passar pelos desafios árduos do sistema educacional padrão é apenas perpetuar o legado devastador do negacionismo da inteligência. Ao fazer vista grossa para o fato das diferenças de QI, McNamara alistou homens com dificuldades intelectuais para uma zona de guerra mais desafiadora e letal que qualquer coisa que teriam enfrentado em casa e assim causou as mortes desnecessárias de milhares. Além disso, a iniciativa dele deixou dezenas de milhares de sobreviventes com doenças psicológicas debilitantes tais como o transtorno de estresse pós-traumático, e privou de forma cruel muitos milhares de pais e parentes da chance de ver um ente querido da família envelhecer. As intenções justas aparentes desse ato de adesão conservadora à tábula rasa são desmentidas por seus resultados atrozes, que o tornam algo moralmente indefensável.

Contudo, por mais que a política de McNamara tenha sido chamada de “um crime contra os deficientes mentais”, poucos consideraram que crime pode advir da nossa indiferença para com os desprivilegiados cognitivos dentro das nossas próprias sociedades. Cinquenta anos depois de McNamara e 20 anos depois de Martin Bryant, ainda não começamos a fazer a pergunta: é mesmo justo que uma pessoa nasça com garantia intelectual de sucesso diante dos desafios da sociedade do século XXI, enquanto outra nasça com quase certeza de fracasso? Até que aceitemos que as pessoas com baixo QI existem, e que as ramificações de sua condição são de fato severas, como é que poderemos sequer começar a discutir o que poderia ser feito para aliviar o sofrimento delas? A importância da capacidade cognitiva para o sucesso de vida na nossa sociedade tecnologicamente complexa faz da resposta a essa pergunta um imperativo moral — mas os líderes econômicos e políticos têm mostrado pouco interesse nessa questão. Apesar do fato de o baixo QI estar correlacionado a resultados negativos num grande número de áreas e afligir cerca de 15% da população, parecemos incapazes de tratá-lo como qualquer outro problema de saúde pública.

Simplesmente desejar que vá embora o fato de que as circunstâncias genéticas e ambientais do nascimento de uma pessoa inevitavelmente conferem a todos — para o melhor ou para o pior — uma personalidade, um nível de sociabilidade e uma inteligência é uma forma de negacionismo que só serve para atender nossa vontade de exoneração moral. Fingir que as pessoas que carregam o fardo do QI baixo são apenas preguiçosas, ou que prescindem de motivação apropriada, é uma forma de nos absolver da responsabilidade de ajudá-las. Aceitar que a inteligência existe, que a inteligência é importante, e que os menos inteligentes são nossos iguais em valor moral e, portanto, dignos de ajuda, é o primeiro passo para tratar dessa crescente necessidade de acomodar por completo os cognitivamente desprivilegiados.

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Por Wael Taji, pseudônimo de um doutorando e pesquisador da inteligência que trabalha com economia comportamental e neurociência na Universidade de Pequim. Sua primeira publicação, “China’s Urban-Rural Cognitive Divide: Evidence from a Longitudinal Cohort Study”, está sob revisão no periódico Intelligence, publicado pela Elsevier. Twitter @coevolutionist. Publicado originalmente em Quillete, 25 de agosto de 2018.

Tradução: Eli Vieira

 

Notas   [ + ]

1. N. do T.: Tradução livre.
2. Lee, James J., Robbee Wedow, Aysu Okbay, Edward Kong, Omeed Maghzian, Meghan Zacher, Tuan Anh Nguyen-Viet, et al. “Gene Discovery and Polygenic Prediction from a Genome-Wide Association Study of Educational Attainment in 1.1 Million Individuals.” Nature Genetics 50, no. 8 (August 2018): 1112–21. https://doi.org/10.1038/s41588-018-0147-3.

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