A verdadeira guerra à ciência

por John Tierney, colunista de ciência do New York Times*

Meus amigos de esquerda(1)N. do T.: Nos EUA usa-se o termo “liberal” como sinônimo de esquerdista. Quem é no Brasil chamado de “liberal” está mais próximo de quem é chamado de “libertário” por lá. às vezes me perguntam por que não dedico mais do meu jornalismo científico aos pecados da direita. Tudo bem expor pseudociência na esquerda, dizem, mas por que você não equaliza as suas oportunidades de desmascarar charlatães? Por que não escreve sobre a ameaça conservadora à ciência?

Meus amigos não gostam da minha resposta: é porque não há muito o que escrever. Os conservadores não têm tanto impacto na ciência. Sei que isso soa estranho para os Democratas que reclamam dos criacionistas Republicanos e chamam a si mesmos de “o partido da ciência”. Mas eu fiz meu dever de casa. Li as acusações da esquerda, incluindo o bestseller de Chris Mooney, A Guerra Republicana contra a Ciência.(2)N. do T.: Tradução livre. Terminei-o com a mesma pergunta sobre essa guerra que eu tinha no início: onde estão as vítimas?

Onde estão os cientistas que perderam os seus empregos ou verbas? Que pesquisa vital foi corrompida ou suprimida? Que debate científico foi silenciado? Sim, o livro revela que criacionistas Republicanos existem, mas eles não afetam os biólogos ou antropólogos que estudam a evolução. Sim, George W. Bush recusou verbas federais à pesquisa com células-tronco embrionárias, mas isso dificilmente a parou (e pouca coisa mudou depois que Barack Obama reverteu essa política). Mooney ralha com os cientistas e políticos que se opõem às políticas governamentais favorecidas por progressistas como ele próprio, mas se você estiver procurando danos sérios ao empreendimento científico, ele oferece apenas três exemplos.

Todos os três estão no primeiro capítulo, quando Mooney brevemente reconhece que esquerdistas “aqui e ali” têm culpa por “maltratar a ciência”. Primeiro, há a oposição da esquerda aos alimentos geneticamente modificados, que reprimiu a pesquisa sobre o que poderia ter sido uma segunda Revolução Verde para alimentar a África. Segundo, há a campanha dos ativistas de direitos animais contra pesquisadores médicos, cujo trabalho já foi dificultado e teria sido devastado se os ativistas tivessem conseguido banir a experimentação animal. Terceiro, há a resistência dentro da academia a estudar as bases genéticas do comportamento humano, que afastou muitos cientistas sociais das revoluções recentes em genética e neurociência. Cada um desses ataques é muito mais significativo que qualquer coisa que os conservadores tenham feito, e há muitos outros. A única guerra bem-sucedida contra a ciência é aquela tocada pela esquerda.

O perigo vindo da esquerda não nasce da estupidez nem da desonestidade; essas falhas são bipartidárias. Algumas pesquisas mostram que os Republicanos, particularmente os libertários, são mais cientificamente alfabetizados que os Democratas, mas há muita ignorância de todos os lados. Ambos os lados selecionam convenientemente as pesquisas e deturpam evidências para apoiar às suas agendas. Quem quer que esteja no poder, a Casa Branca brinca de política ao nomear comissões de aconselhamento e editar os resumos executivos dos seus relatórios. Cientistas de todas as ideologias exageram a importância de sua própria pesquisa e buscam resultados que lhes darão mais atenção e verbas.

Mas duas grandes ameaças à ciência são peculiares à esquerda — e estão piorando.

A primeira ameaça é o viés da confirmação,

a bem-documentada tendência das pessoas a buscar e aceitar informações que confirmem as suas crenças e preconceitos. Em um estudo clássico da revisão por pares, pediram a 75 psicólogos que revisassem um artigo sobre a saúde mental de estudantes ativistas de esquerda. Alguns revisores viram uma versão do artigo que mostrava que a saúde mental dos estudantes ativistas era acima do normal; outros viram dados diferentes, mostrando que era abaixo do normal. E, como era de se esperar, os revisores mais de esquerda eram mais propensos a recomendar a publicação do artigo favorável aos ativistas de esquerda. Quando a conclusão era oposta, eles rapidamente encontravam problemas na metodologia.

Os cientistas tendem a evitar o viés da confirmação ao expor o seu trabalho à revisão por pares, a críticos com diferentes opiniões, mas é cada vez mais difícil para esquerdistas encontrar tais críticos. Tradicionalmente, os acadêmicos tendem à esquerda politicamente, e muitas áreas se tornaram essencialmente monoculturas, especialmente nas ciências sociais, onde os Democratas agora superam em número os Republicanos em ao menos 8 para 1. (Na sociologia, onde a razão é de 44 para 1, um estudante tem muito mais chance de ter aulas com um marxista do que com um Republicano.) A razão desproporcional levou a outro fenômeno bem documentado: as crenças das pessoas se tornam mais extremas quando estão cercadas por colegas que pensam similarmente. Elas presumem que as suas opiniões são não apenas a norma, mas também a verdade.

O pensamento de manada tornou-se tão rotineiro que muitos cientistas sequer estão cientes dele. Os psicólogos sociais, que estudaram extensivamente os vieses conscientes e inconscientes contra pessoas de grupos externos, apressam-se em culpar esses vieses pela sub-representação de mulheres e minorias no mundo dos negócios e outras instituições. Mas se mantiveram em grande parte desatentos ao seu próprio problema de diversidade, que é vastamente maior. Os Democratas superam em número os Republicanos em ao menos 12 para 1 (talvez 40 para 1) na psicologia social, criando o que Jonathan Haidt chama de uma “comunidade moral-tribal” com seus próprios “valores sagrados” sobre o que vale a pena estudar e o que é tabu.

“A moralidade pega e cega”, diz Haidt, psicólogo social da New York University e autor de A Mente Moralista: Por Que Boas Pessoas são Divididas por Política e Religião.(3)N. do T.: Tradução livre.

“Ter valores em comum faz com que um grupo seja coeso, o que pode ser bem útil, mas é a última coisa que deveria acontecer com uma área científica. O progressismo, especialmente o antirracismo, tornou-se uma religião fundamentalista, tem até leis antiblasfêmia.”

Ano passado um dos mais importantes periódicos científicos, Behavioral and Brain Sciences, publicou um artigo de Haidt e cinco colegas documentando a falta de diversidade ideológica de sua profissão. Ele veio acompanhado de comentários de 63 outros cientistas sociais, e praticamente todos, até os críticos mais ferinos, aceitaram as conclusões dos autores de que a falta de diversidade política feriu a psicologia social como ciência. Os autores e comentadores apontaram para exemplo após exemplo de como a ausência de conservadores cegou os pesquisadores a defeitos em seus trabalhos, particularmente ao estudarem a ideologia e a moralidade das pessoas.

 

Os Democratas superam em número os Republicanos em ao menos 12 para 1 (talvez 40 para 1) na psicologia social.

A narrativa de que os Republicanos são anticiência foi alimentada por estudos muito divulgados relatando que os conservadores têm a cabeça mais fechada e que são mais dogmáticos que os esquerdistas. Mas essas conclusões foram baseadas em questionários que perguntavam com que intensidade as pessoas se associam à moralidade e religião tradicionais — dogmas que são muito mais importantes para conservadores do que para esquerdistas. Alguns outros estudos — não tão divulgados — mostraram que os esquerdistas podem ser mente-fechada na mesma medida quando as suas próprias crenças, por exemplo o que sentem sobre o meio-ambiente ou Barack Obama, são desafiadas.

Os psicólogos sociais com frequência relatam que os conservadores são mais preconceituosos contra outros grupos sociais do que os esquerdistas. Mas um dos co-autores de Haidt, Jarret Crawford, do College of New Jersey, recentemente observou um problema evidente com esses estudos: tipicamente eles envolvem atitudes em relação a grupos que tendem a ser de esquerda, como os afro-americanos e os comunistas. Quando Crawford (que é de esquerda) fez o próprio estudo envolvendo uma gama maior de grupos, ele descobriu que o preconceito é bipartidário. Os esquerdistas exibem forte preconceito contra os cristãos devotos e outros grupos que veem como à direita do centro.

Os conservadores foram patologizados de várias formas como antiéticos, antissociais e irracionais, simplesmente porque não partilham das crenças que parecem óbvias para os esquerdistas. Por exemplo, um estudo explorou a tomada de decisões éticas perguntando às pessoas se elas apoiariam a queixa de uma colega sobre assédio sexual. Não havia forma de saber se a queixa era justificada, mas qualquer um que não se posicionou automaticamente do lado dessa mulher hipotética foi posto na categoria de antiético. Outro estudo perguntou às pessoas se acreditavam que “a longo prazo, o trabalho duro faz uma vida melhor” — e então classificou a resposta “sim” como uma “racionalização para a desigualdade”. Outro estudo perguntou se as pessoas concordavam que “o planeta tem bastantes recursos naturais se aprendermos uma forma de desenvolvê-los” — uma opinião de muitos especialistas em economia de recursos, mas os psicólogos a patologizaram como uma “negação das realidades ambientais”.

Para combater esses vieses, mais de 150 cientistas sociais se juntaram na Academia Heterodoxa, um grupo formado por Haidt e seus co-autores para promover a diversidade ideológica entre os acadêmicos. É um bom começo, mas não estão nem perto de solucionar o problema. Mesmo se os departamentos de ciências sociais acrescentassem alguns conservadores, ainda estariam imersos em comunidades acadêmicas progressistas que se tornam cada vez menos tolerantes ao debate, pressionadas por ativistas dos campi e por burocratas federais aplicando uma interpretação cada vez mais expansiva do Título IX.(4)N. do T.: Legislação federal americana que visa a promover a igualdade de gênero. Interpretações expansivas em algumas ocasiões buscam forçar, por exemplo, que haja 50% de atletas femininas num campus mesmo que menos mulheres que homens busquem os esportes. E o seu trabalho ainda seria filtrado ao público por repórteres com tendências de esquerda, também — é por isso que a imprensa promoveu o mito da guerra Republicana contra a ciência. Quando, em campanha, Obama se esquivou diplomaticamente de responder a uma pergunta sobre a idade da Terra (“Não presumo saber”), a imprensa não prestou atenção. Quando Marco Rubio mais tarde disse a mesma coisa (“Não sou um cientista”), foi massacrado como um típico ignorante Republicano determinado a fazer voltar a Idade das Trevas.

A combinação de todas essas pressões da esquerda repetidamente desvirtuou a ciência ao longo dos últimos 50 anos.  Em 1965, quando Daniel Patrick Moynihan publicou um artigo visionário alertando para o perigo de crianças negras crescerem em lares de mãe solteira, foi recebido com tanta hostilidade — os críticos disseram que ele estava culpando a vítima — que o assunto virou tabu entre esquerdistas, travando a discussão pública e a pesquisa por décadas em um dos problemas mais prementes que as crianças das minorias enfrentam. Da mesma forma, ativistas de esquerda trabalharam para suprimir relatos de problemas de crianças criadas por pais gays ou sobre qualquer uma das desvantagens de botar crianças pequenas em creches. Em 1991, Louise Silverstein, uma das principais psicólogas familiares, publicou um artigo na American Psychologist pedindo a seus colegas que “se recusem a realizar qualquer estudo adicional que procure pelas consequências negativas de crianças serem criadas por qualquer pessoa além da mãe”.

Os tabus mais rígidos da esquerda envolvem a biologia da raça e do gênero, como conta Steven Pinker, psicólogo de Harvard, em Tábula Rasa

O livro ganhou o título com o termo de Pinker para o dogma de que “quaisquer diferenças que vemos entre raças, grupos étnicos, sexos e indivíduos não vem de diferenças em sua constituição inata, mas de diferenças em suas experiências”. O dogma restringe a perspectiva dos pesquisadores — “Nada de biologia, por favor, somos cientistas sociais” — e desencoraja o debate, dentro e fora da academia. Os primeiros pesquisadores da sociobiologia foram recebidos com ataques vitriólicos de cientistas proeminentes como Stephen Jay Gould, que os acusava de racismo e sexismo por estudar influências genéticas no comportamento.

Estudar o QI é um risco à carreira desde os anos 1970, quando pesquisadores como Arthur Jensen e Richard Herrnstein tinham de cancelar palestras (e às vezes contratar guardas-costas) por causa de manifestantes raivosos acusando-os de racismo. A fonte de verbas do governo secou, forçando os pesquisadores do QI e os geneticistas do comportamento a depender de doadores privados, que nos anos 1980 financiaram o renomado estudo de Minnesota sobre gêmeos criados separados. Os esquerdistas tentaram cortar esse financiamento nos anos 1990, quando a Universidade de Delaware parou a pesquisa sobre QI de Linda Gottfredson e Jan Blits por dois anos, se recusando a deixá-los receber a verba de uma fundação; a pesquisa continuou só depois que um árbitro decidiu que a liberdade acadêmica deles havia sido violada.

O dogma da Tábula Rasa perpetuou uma versão esquerdista do criacionismo: a crença de que não houve evolução nos humanos modernos desde que deixaram o seu berço ancestral na África cerca de 50 mil anos atrás. Exceto por algumas mudanças em cor da pele e outras qualidades superficiais, humanos em todo lugar são supostamente similares porque não houve tempo suficiente para diferenças significativas evoluírem em seus cérebros e comportamento inato. Essa crença era plausível quando os biólogos presumiam que a evolução era um processo lento, mas a decodificação do genoma humano a refutou, como Nicholas Wade (um ex-colega meu no New York Times) relatou em seu livro de 2015, Uma Herança Problemática.(5)N. do T.: Tradução livre.

“A evolução humana foi recente, profícua e regional”, escreve Wade, notando que ao menos 8% do genoma humano mudou desde que saímos da África. A nova análise revela que cinco raças distintas evoluíram em resposta às condições regionais: africanos, asiáticos orientais, caucasianos, nativos das Américas, e os povos da Austrália e da Papua-Nova Guiné. No entanto, os cientistas sociais continuam a negar a existência das raças. A Associação Antropológica Americana declara que a raça é “uma invenção humana” que “diz respeito à cultura, não à biologia”. A Associação Sociológica Americana chama a raça de “construção social”. Até biólogos e geneticistas têm medo da palavra que começa com R. Mais de 100 deles mandaram uma carta ao New York Times denunciando o livro de Wade como impreciso, mas ainda assim se recusaram a dar exemplos dos erros dele. Aparentemente, não se deram ao trabalho de ler o livro, pois acusaram Wade de associar variações raciais a pontos de QI — uma associação especificamente rejeitada pelo livro.

Algumas diferenças genéticas são politicamente aceitáveis na esquerda, tais como a base biológica para a homossexualidade, que foi declarada plausível por 70% dos sociólogos numa pesquisa recente. Mas a mesma pesquisa descobriu que só 43% aceitavam uma explicação biológica para as diferenças entre homens e mulheres em habilidades espaciais e de comunicação. Como pode o resto dos sociólogos negar o papel da biologia? Não era coincidência que esses céticos adotavam as opiniões da esquerda mais extrema e eram mais comprometidos com uma perspectiva feminista. Para esquerdistas e feministas dedicados, não importa quanta evidência de diferenças sexuais seja produzida por psicólogos do desenvolvimento, primatologistas, neurocientistas e outros pesquisadores. Qualquer disparidade entre os sexos — ou, ao menos, qualquer disparidade desfavorável às mulheres — deve ser atribuída à discriminação e outros fatores culturais.

Lawrence Summers, ex-presidente de Harvard, descobriu isso da forma mais difícil em uma conferência acadêmica onde ele ousou discutir a preponderância de homens entre professores de matemática e de ciências físicas em universidades de ponta. Enquanto reconhecia que as mulheres enfrentavam barreiras culturais, como a discriminação e as pressões das responsabilidades familiares, Summers especulou que deve haver outros fatores, também, tais como o maior número de homens no extremo da distribuição em testes medindo a capacidade matemática e outras características. A maior variabilidade em aptidão dos homens é bem estabelecida — é a razão pela qual há mais homens estúpidos e também gênios — mas a precisão científica não serviu de defesa contra o clamor feminista. A controvérsia forçou Summers a pedir desculpas e terminou por contribuir para a sua renúncia. Além de violar o tabu da Tábula Rasa, Summers havia ameaçado uma indústria caseira acadêmica que se mantém viva através do mito de que as disparidades de gênero na ciência são devidas à discriminação.

Essa indústria, sustentada por mais de 200 milhões de dólares da Fundação Nacional da Ciência, persiste apesar de abundantes evidências — de experimentos além de estudos extensos sobre quem consegue empregos acadêmicos e verbas de pesquisa — de que uma cientista mulher é tratada tão bem quanto ou melhor que um homem com as mesmas qualificações. Em um conjunto rigoroso de cinco experimentos publicados ano passado, a candidata feminina tinha o dobro da preferência acima de um candidato masculino equivalente. A principal razão para as disparidades de sexo em algumas áreas é uma diferença de interesses: desde novos, mais meninos se interessam por áreas como a física e a engenharia, enquanto mais meninas se interessam por áreas como biologia e psicologia (onde a maioria dos doutorados é de mulheres).

Em geral, mulheres americanas estão se saindo muito melhor que os homens academicamente — elas recebem a maioria dos títulos de graduação e pós-graduação — mas ainda assim pesquisadores da educação e agências de fundos federais se focaram por décadas nas poucas áreas da ciência onde há predominância de homens. Já era ruim que verbas da Fundação Nacional da Ciência pagassem por oficinas em que apareciam coisas como um jogo chamado Bingo do Viés de Gênero e encenações em que cientistas homens arrogantes maltratavam colegas mulheres mais inteligentes. Mas aí essas oficinas se tornaram quase obrigatórios quando os Democratas controlavam o Congresso em 2010. Em resposta ao lobby feminista, a Câmara passou um projeto de lei (que felizmente morreu no Senado) que obrigava as agências científicas federais a realizar oficinas de “equidade de gênero” para os contemplados com verbas de pesquisa.

Pode parecer estranho que o “partido da ciência” estivesse arrastando cientistas para fora do laboratório para que fossem reeducados no Bingo do Viés de Gênero. Mas os políticos sempre se importarão mais com agradar aos eleitores do que com avançar a ciência.

E isso nos leva à segunda grande ameaça à ciência vindo da esquerda: sua longa tradição de misturar ciência com política.

Para os conservadores, o problema fundamental com a esquerda é o que Friedrich Hayek chamou de prepotência fatal: a ilusão de que os especialistas são sábios o suficiente para reformular a sociedade. Os conservadores desconfiam de planejadores centrais, preferindo depender de instituições tradicionais que protegem os “direitos naturais” dos indivíduos contra o poder do Estado. Os esquerdistas confiam muito mais nos especialistas e no Estado. Engels defendeu um “socialismo científico”, uma reformulação da sociedade supostamente baseada no método científico. Os intelectuais comunistas planejavam moldar o Novo Homem Soviético. Os progressistas ansiavam por uma sociedade guiada por agências imparciais que não fossem limitadas pela velha política e religião. Herbert Croly, fundador da revista New Republic e uma figura de liderança do progressismo, previu que um “futuro melhor viria das atividades beneficentes de especialistas engenheiros sociais que botariam todos os recursos técnicos que a pesquisa pudesse descobrir a serviço dos ideais sociais”.

Isso tudo era muito lisonjeiro aos cientistas, sendo essa uma razão pela qual tantos deles penderam para a esquerda. A direita citava o trabalho científico quando ele era útil, mas não alistou a ciência para refazer a sociedade — ainda preferia o conselho de moralistas tradicionais e clérigos. A esquerda viu os cientistas como o novo alto clero, oferecendo-lhes prestígio, dinheiro e poder. O poder muitas vezes corrompia. Repetidamente, os cientistas cederam à tentação de exagerar o seu conhecimento especializado e a sua autoridade moral, às vezes para propósitos horrendos.

Baseando-se nas pesquisas em genética e cruzamento animal de cientistas em Harvard, Yale, Johns Hopkins e outras universidades de ponta, o movimento eugenista dos anos 1920 planejou melhorar a população humana. Os professores universitários ensinavam a eugenia a seus estudantes e trabalhavam com Croly e outros progressistas ansiosos por criar uma sociedade mais inteligente, incluindo Theodore Roosevelt, Woodrow Wilson e Margaret Sanger. No fim, outros cientistas — notavelmente da Inglaterra — expuseram as pesquisas fajutas e as suposições dos eugenistas, mas não antes da esterilização involuntária ou castração de mais de 35 mil americanos. Mesmo depois que Hitler usou a eugenia para justificar a matança de milhões, a esquerda não perdeu o interesse de controlar a reprodução humana.

O pensamento eugenista foi ressuscitado por cientistas convencidos de que a espécie humana havia excedido a “capacidade de carga” de seu ecossistema. O mais proeminente deles era Paul Ehrlich, cuja especialidade científica era o estudo das borboletas. Não se deixando intimidar por sua ignorância da agricultura e da economia, ele publicou previsões confiantes de fome global iminente em A Bomba Populacional (1968).(6)N. do T.: Tradução livre. Economistas agrícolas rejeitaram essas ideias, mas a imprensa citava com reverência Ehrlich e outros acadêmicos que alegavam ter determinado cientificamente que a Terra estava “superpovoada”. Na revista Science, o ecólogo Garrett Hardin defendeu que “a liberdade de reprodução trará a ruína para todos”. Ehrlich, que, a certa altura, defendeu o fornecimento de helicópteros e médicos americanos para um programa proposto de esterilização compulsória na Índia, juntou-se ao físico John Holdren em argumentar que a Constituição americana permitiria o controle populacional, incluindo limites ao tamanho da família e abortos forçados. Ehrlich e Holdren analisaram calmamente os méritos de várias tecnologias, tais como a adição de esterilizantes à água potável pública, e chamaram por um “regime planetário” para controlar a população e os recursos naturais ao redor do mundo.

A ciência ambiental se tornou tão politizada que os seus mitos perduram mesmo após serem refutados.

As ideias deles não deram em nada nos Estados Unidos, mas inspiraram uma das piores violações dos direitos humanos do século XX, na China: a política do filho único, que resultou em abortos forçados e em infanticídio de meninas. A China hoje tem dificuldades com um número perigosamente baixo de trabalhadores para sustentar a população idosa. Os pais intelectuais dessa atrocidade, se fossem conservadores, na certa teriam sido alvo de ostracismo. Mas mesmo depois que suas previsões se revelaram extremamente erradas, Ehrlich continuou colecionando honrarias.

De sua parte, Holdren serviu nos últimos oito anos como o conselheiro de ciência do presidente Obama, uma posição a partir da qual ele lamenta que os americanos não levam a sério os seus alertas sobre as mudanças climáticas. Ele não parece perceber que o ceticismo do público tem muito a ver com o histórico deplorável dele e de seus colegas ambientalistas. Há sempre um apocalipse que demanda a expansão do poder do Estado. As visões de fome global foram seguidas de mais previsões falidas, tais como uma “era de escassez” por causa de suprimentos de energia e recursos naturais se esgotando; e uma epidemia de câncer e infertilidade causada por substâncias químicas sintéticas. Em um livro de 1976, A Estratégia Gênesis,(7)N. do T.: Tradução livre. o climatologista Stephen Schneider defendeu um novo quarto poder do governo federal (com especialistas como ele servindo mandatos de 20 anos) para lidar com a crise iminente do resfriamento global. Ele mais tarde se converteu em um líder no debate do aquecimento global.

A ciência ambiental se tornou tão politizada que os seus mitos perduram mesmo após serem refutados. O livro Primavera Silenciosa,(8)N. do T.: Tradução livre. de Rachel Carson, explodiu em décadas de quimiofobia com suas histórias medonhas e ciência ruim, como a sua alegação sem base de que o DDT estava causando câncer em humanos e a sua visão de uma morte de aves em massa (a população de aves na verdade estava crescendo enquanto ela escrevia). Mesmo assim Primavera Silenciosa é ensinado no ensino médio e em cursos de graduação como um modelo de escrita científica, sem menção ao aumento de mortes por malária em países que restringiram o DDT, ou a outros problemas — como a difusão da dengue e do vírus Zika — exacerbados por medo desnecessário de inseticidas. Similarmente, o zelo da esquerda em achar novos motivos para regulamentos levou a pânicos pseudocientíficos sobre “comida Frankenstein”, gorduras trans, BPA no plástico, telefones celulares, cigarros eletrônicos, linhas de transmissão, fraturamento hidráulico e energia nuclear.

As instituições da saúde passaram décadas defendendo uma dieta com pouco sal para todos (e pressionando a indústria alimentícia a reduzir o sal) sem qualquer prova de que ela prolonga a vida. Quando os pesquisadores finalmente resolveram fazer pequenos experimentos clínicos, descobriram que a dieta pobre em sal não prolongava vidas. Se tinha algum efeito, era associado a mais mortalidade. O maior fracasso na ciência da saúde envolveu a ingestão de gordura, que se tornou um inimigo público oficial nos anos 1970, graças à autopromoção de alguns cientistas e ativistas experientes em política que se aliaram aos Democratas no Congresso presidido por George McGovern e Henry Waxman. A suposta associação entre dietas de muita gordura e doenças cardíacas foi baseada em evidências da epidemiologia convenientemente selecionadas, mas o governo federal a endossou ao publicar formalmente “metas dietéticas para os Estados Unidos” e criar a agora infame pirâmide alimentar, que levou os americanos a substituir a gordura em suas dietas por carboidratos. As instituições da saúde pública devotaram os seus esforços e fundos a demonstrar os benefícios de dietas pobres em gordura. Mas a dieta de baixa gordura repetidamente fracassou em testes clínicos, e o endosso do governo aos carboidratos provavelmente contribuiu para as taxas crescentes de obesidade e diabetes, como contam em seus livros os jornalistas Gary Taubes e Nina Teicholz. (Veja “A Dieta de Washington“, 2011.)

O debate da gordura alimentar é um estudo de caso em pensamento de manada científico — e nas técnicas da esquerda de impor a ortodoxia política. Desde o começo, pesquisadores proeminentes da nutrição disputaram a associação da gordura à doença cardíaca e criticaram Washington por usar toda a população como cobaia em um experimento dietético. Mas foram ignorados como exceções corrompidas por dinheiro de empresários. Em uma audiência, o senador McGovern respondeu aos céticos citando uma pesquisa que mostrava que as recomendações de dieta de baixa gordura eram endossadas por 92% dos “principais médicos do mundo”. Burocratas federais e ativistas difamaram os céticos pelo vazamento de informações à imprensa sobre o seu trabalho de consultoria junto à indústria alimentícia. Robert Olson, um cético da Universidade de Washington, protestou que durante a sua carreira ele tinha recebido 250 mil dólares da indústria alimentícia contra mais de 10 milhões de agências federais, incluindo algumas que promoviam as dietas de baixa gordura. Se ele pudesse ser comprado, disse ele, seria mais preciso chamá-lo de “fantoche do governo”. Como sempre, contudo, a imprensa de esquerda se focou somente no dinheiro dos empresários.

As mesmas técnicas de assassinato de reputação predominam no debate sobre mudanças climáticas.

O presidente Obama promove a sua agenda verde ao anunciar que “o debate foi resolvido” e denuncia “negacionistas do clima” ao alegar que 97% dos cientistas acreditam que o aquecimento global é perigoso. Suas afirmações são falsas. Embora o efeito-estufa seja inegavelmente real, e embora a maioria dos cientistas concordem que houve um aumento nas temperaturas globais causado em parte pelas emissões humanas de dióxido de carbono, ninguém sabe que quantidade de aquecimento ocorrerá neste século ou se será perigosa. Como poderia a ciência estar estabelecida quando há dúzias de modelos computacionais de como o dióxido de carbono afeta o clima? E quando a maioria dos modelos superestimaram o quão mais quente deveria ter ficado hoje? Essas previsões falhadas, além de estudos recentes sobre os efeitos do vapor d’água sobre as temperaturas, fizeram com que muitos cientistas diminuíssem as suas projeções para o aquecimento futuro. Alguns “mornistas” sugerem que os aumentos de temperatura no futuro serão relativamente modestos e que se provarão mais benéficas que maléficas, ao menos no curto prazo.

Certamente vale a pena estudar os riscos a longo prazo, mas, não importa de quem sejam as previsões confiáveis, a ciência climática não dá justificação para a agenda verde do presidente Obama — ou para a agenda de qualquer outro. Mesmo se fosse de alguma forma provado que as estimativas mais extremas de futuro aquecimento global são corretas, isso não implicaria que os verdes têm a solução prática correta para reduzir as emissões de carbono — ou que precisamos mesmo reduzi-las. As políticas para lidar com o aquecimento global variam de acordo com crenças políticas, pressupostos econômicos, prioridades sociais e princípios morais. Regular o dióxido de carbono sufocaria o crescimento econômico e daria poder demais ao Estado? É moral impor sacrifícios a pessoas pobres para manter as temperaturas um pouco menores para os seus descendentes, que serão presumivelmente muitas vezes mais ricos? Há problemas mais importantes a serem resolvidos primeiro? Essas não são perguntas que têm respostas cientificamente corretas.

Mesmo assim, muitos climatologistas travestem as suas opiniões políticas de ciência, como Obama faz, e estão até usando a palavra absurdamente não-científica “negacionista” como se fossem clérigos guardando alguma verdade eterna. A ciência avança pelo contínuo desafio e teste de hipóteses, mas a esquerda moderna ficou obcecada com o silenciamento de hereges. Em uma carta à procuradora-geral Loretta Lynch ano passado, 20 cientistas do clima pediram-na que usasse leis federais chantagistas para perseguir empresas e think tanks que “enganaram o povo americano sobre os riscos das mudanças climáticas”. Ataques similares à liberdade de expressão são endossados pela plataforma de 2016 do Partido Democrata, que chama pela perseguição de empresas que façam afirmações “enganosas” sobre “a realidade científica das mudanças climáticas”. Um grupo de procuradores estaduais Democratas coordenou um ataque aos céticos do clima ao intimar registros de empresas dos combustíveis fósseis e think tanks do livre mercado, supostamente como parte de investigações de fraude corporativa. Tais processos podem não dar em nada nos tribunais — são flagrantes violações da Primeira Emenda — mas esse não é o seu propósito. Ao exigir uma década de emails e outros registros, os inquisidores Democratas e seus aliados cientistas querem assediar dissidentes do clima e intimidar os seus doadores.

Assim como no debate da gordura dietética, esses dissidentes são difamados na imprensa como capachos de empresários — mas, novamente, o dinheiro flui quase inteiramente no outro sentido. Os críticos mais ferrenhos do dogma climático são meia dúzia de think tanks que gastam juntos menos de 15 milhões de dólares anuais em questões ambientais. A meia dúzia dos maiores grupos verdes gastam mais de 500 milhões, e o governo federal gasta 10 bilhões em pesquisa climática e tecnologia para reduzir emissões. Somando tudo fica claro que os cientistas enfrentam uma tremenda pressão para apoiar o “consenso” sobre reduzir as emissões de carbono, como Judith Curry, uma climatologista da Georgia Tech, testemunhou ano passado numa audiência do Senado.

“Essa pressão vem não só dos políticos mas também de agências de fomento federais, universidades e sociedades profissionais, e dos próprios cientistas que são ativistas verdes”, disse Curry. “Esse ativismo se estende às sociedades profissionais que publicam os periódicos e organizam as conferências. O ativismo político, combinado a uma minimização das incertezas, tem o risco de destruir a reputação da ciência de honestidade e objetividade — sem a qual os cientistas passam a ser considerados apenas mais um grupo de lobistas”.

Eis as vítimas derradeiras na guerra da esquerda: as reputações dos cientistas.

Pesquisas ruins podem ser expostas e descartadas, mas reputações ruins ficam. Os cientistas sociais já são considerados em Washington um braço do Partido Democrata, então a sua pesquisa é dispensada como partidária mesmo quando não é, e alguns Republicanos tentaram (sem sucesso) cortar todas as verbas das ciências sociais. As ciências físicas ainda desfrutam de apoio bipartidário, mas ele está se desgastando com politicagem verde, e o prestígio dos climatologistas vai despencar se o proclamado consenso se revelar errado.

Para preservar a sua integridade, os cientistas devem evitar a política e adotar o rigor cético que a sua profissão demanda. Precisam começar a aceitar conservadores e outros que enxergarão os seus vieses e violarão os seus tabus. Fazer essas mudanças não será fácil, mas o primeiro passo é simples: parar de fingir que as ameaças à ciência estão vindo da direita. Olhem para o outro lado — ou para o espelho.

***

* John Tierney é editor contribuinte do City Journal, onde este artigo foi publicado originalmente no segundo semestre de 2016. É co-autor de Força de Vontade: Redescobrindo a Força Maior(9)N. do T.: Tradução livre., e contribui como colunista ao New York Times.

Tradução: Eli Vieira
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Notas   [ + ]

1. N. do T.: Nos EUA usa-se o termo “liberal” como sinônimo de esquerdista. Quem é no Brasil chamado de “liberal” está mais próximo de quem é chamado de “libertário” por lá.
2, 3, 5, 6, 7, 8, 9. N. do T.: Tradução livre.
4. N. do T.: Legislação federal americana que visa a promover a igualdade de gênero. Interpretações expansivas em algumas ocasiões buscam forçar, por exemplo, que haja 50% de atletas femininas num campus mesmo que menos mulheres que homens busquem os esportes.