Scott Alexander: "12 Regras Para a Vida" de Jordan Peterson na verdade é bom

I.

Comprei 12 Regras Para a Vida de Jordan Peterson pela mesma razão que as outras 210 mil pessoas:(1)N. do T.: A editora relatou em março de 2018 ter vendido mais de 700 mil cópias só nos Estados Unidos, e a Amazon ainda lista o livro como seu bestseller nº 1. para zoar com a história da lagosta.(5)N. do T.: Cathy Newman, entrevistadora do Channel 4 britânico, tentou ridicularizar Peterson citando uma anedota que ele escreveu a respeito das lagostas. Peterson pretendia mostrar como o comportamento hierárquico das lagostas demonstra uma origem muito antiga do mesmo comportamento homólogo em humanos, e que o comportamento tem raiz no sistema neural serotonérgico (que utiliza serotonina como neurotransmissor). No entanto, alguns biólogos estudiosos da evolução do comportamento acreditam que o comportamento hierárquico evoluiu mais de uma vez e que não há razão, portanto, para pensar que é homólogo entre lagostas e humanos. De qualquer forma, o tratamento de Newman do tema foi ainda mais simplificador, e a entrevista de 30 minutos foi amplamente considerada um desastre para Newman, por ela usar repetidamente a falácia do espantalho, reinterpretando de forma deturpadora o que o entrevistado dizia. Se não com a história da lagosta, então com a coisa do neo-marxismo, ou com a coisa dos transgêneros, ou com a história das lagostas marxistas transgêneros que querem roubar os seus fluidos corporais preciosos.

Mas, hã… tenho vergonha de dizer uma coisa. E entendo perfeitamente se você quiser parar de me ler depois disso, ou revogar minha carteirinha de resenhista de livros, ou algo assim. Mas, gente, 12 Regras Para a Vida na verdade é bom.

A melhor analogia dele que eu consigo pensar é C. S. Lewis. Lewis acreditava na Velha Religião, que àquele ponto fora reduzida a um clichê. O que poderia ser menos interessante que ouvir que Jesus te ama, ou sermões sobre o pecado, te prometerem o paraíso ou te ameaçarem com o inferno? Mas, por alguma razão, quando Lewis escreve, os clichês de repente funcionam. O amor de Jesus se torna uma força palpável. O pecado se torna tão repugnante que você passa a querer tomar um banho só por já ter cometido algum. Quando Lewis escreve sobre o céu você pode ouvir a música da harpa; quando ele escreve sobre o inferno você pode sentir o cheiro de enxofre.

Jordan Peterson acredita na Nova Religião, aquela em que Deus é uma força para o bem dentro de cada um de nós, em que todas as religiões são caminhos para a sabedoria, e as histórias bíblicas são apenas guias sobre como viver a vida. Essa é a única coisa ainda mais clichê que a Velha Religião. Mas, por alguma razão, quando Peterson escreve sobre ela, funciona. Quando ele diz que Deus é a força para o bem dentro de cada um de nós, você pode sentir essa força pulsando em suas veias. Quando ele diz que as histórias bíblicas são guias sobre como viver a vida, você se sente tentado a mudar o seu propósito de vida para o combate aos filisteus.

A política do livro pende um pouco para a direita, mas, se você acha que Peterson é um comentarista político, você não está entendendo a questão. A ciência do livro pende um pouco para Malcolm Gladwell,(2)N. do T.: Gladwell é um jornalista britânico radicado no Canadá, autor de cinco bestsellers, que lida com psicologia social e sociologia. mas, se você considera Peterson um cientista, também não está entendendo a questão. Filósofo? Idem. Intelectual público? Ibidem. Mitógrafo? Também não. Então qual é a questão?

Cerca de uma vez por ciclo de notícias, nos deparamos com algum texto de opinião sobre como a Vida Moderna Não Tem Significado. Esses textos sempre repetem as mesmas coisas. O declínio da Religião. A ascensão da Ciência. A abundância material sem limites da sociedade moderna. O fato de que no fim das contas todos esses bens materiais não nos fazem felizes. Se escrito pela esquerda, [também terá] algo sobre as pessoas tentarem usar o capitalismo consumista para preencherem o vazio; se escrito pela direita, [terá] algo sobre as pessoas tentarem usar drogas e o sexo casual. A súplica vaga de que busquemos algo melhor que isso.

12 Regras não é outro desses textões. Os textões são de pessoas apontando um vazio. 12 Regras é uma tentativa de preenchê-lo. Isso não é totalmente novo — sempre há um punhado de líderes de seita e ideólogos fazendo promessas vazias. Mas se você seguir os líderes de seita você se torna membro da seita, e se você seguir os ideólogos você se torna o tipo de pessoa contra a qual Eric Hoffer alertou12 Regras é algo que poderia funcionar, na teoria, para seres humanos intactos. É realmente impressionante.

A descrição correta de Jordan Peterson é que ele é um profeta.

Líderes de seita te dizem algo novo, como “tem um OVNI escondido dentro daquele cometa”. Gurus da autoajuda fazem o mesmo: “Tudo o que você precisa fazer é conseguir a quantidade certa de triglicerídeos de cadeia média na sua dieta”. Os ideólogos te dizem algo controverso, como “devemos reorganizar a sociedade”. Mas os profetas não são nem novos nem controversos. Para uma primeira aproximação, eles só dizem três coisas:

  • Primeira, o bem e o mal são com certeza reais. Você sabe que são reais. Você pode falar na aula de filosofia sobre o quão sutis e complicados eles são, mas é besteira e você sabe. O bem e o mal são as coisas mais reais e mais óbvias que você vai ver na vida, e você os reconhece de longe.
  • Segunda, você é meio que um merda. Você sabe o que é o bem, mas você não o pratica. Sabe o que é o mal, mas mesmo assim o faz. Você evita o caminho estreito e reto a favor do caminho fácil e confortável. Inventa desculpas para você mesmo e culpa outras pessoas pelos seus problemas. Você pode negar, e talvez outras pessoas acreditem, mas você e eu sabemos que é mentira.
  • Terceira, não é tarde demais para mudar. Você diz que é tarde demais, mas é mais uma mentira para si mesmo. Se você se arrependesse, seria perdoado. Se tomar um passo na direção de Deus, Ele vai andar dois na sua direção. Embora os seus pecados sejam rubros agora, serão brancos como neve.

Esse é o Método Profético Geral. É fácil, é mais velho que andar para a frente, e funciona.

Então como pode ser que nem todos conseguem ser profetas? A Bíblia nos diz por que as pessoas que não ouviam aos fariseus escutaram a Jesus: “Ele falava como quem tinha confiança”. Você se torna um profeta ao dizer coisas que teriam de ser ditas por um profeta ou pelo mais pomposo falastrão do universo, e então tendo um semblante arregalado demais para alguém se sentir confortável ao te chamar de falastrão mais pomposo do universo. Você diz os velhos clichês com tal poder e gravidade que nem teria sentido que alguém que não fosse um profeta dissesse isso dessa forma.

“Ele, hã, nos disse que devemos fazer o bem, e não fazer o mal, e agora ele está olhando para a gente como se devêssemos cair de joelhos.”

“Esquisito. Deve ser um profeta. Melhor ajoelhar.”

Talvez é porque todos os outros são muito ruins nisso. Talvez é porque as alternativas são na maioria fundamentalistas do tipo “Deus odeia os viados” ou covardes do tipo “sou mais inclusivo que você”. Talvez se qualquer outro fosse bom nisso, seria fácil reconhecer Jordan Peterson pelo que ele é — um fornecedor levemente competente de chavões pseudo-religiosos. Mas eu na verdade me comportei como uma pessoa um pouco melhor durante a semana em que li o livro de Jordan Peterson. Sinto uma vergonha apropriada disso. Se você me perguntar se eu estava usando metáforas relacionadas a dragões, vou negar ferozmente. Mas eu fiz um pouco mais de esforço no trabalho. Fui um pouco mais gentil com as pessoas com quem interagi em casa. Foi muito sutil. Certamente não foi por causa de qualquer coisa nova ou não-clichê no texto dele. Mas, Deus é testemunha, por algum motivo os clichês funcionaram.

II.

12 Regras tem doze capítulos concentrados em torno de doze regras que soam bonitinhas que supostamente devem guiar a sua vida. O grosso dos capítulos nunca tem nada a ver com as regras bonitinhas. “Trate a si mesmo como alguém que você tem responsabilidade de ajudar” é sobre matar dragões. “Acaricie um gato quando encontrá-lo na rua” é sobre uma investigação do Problema do Mal que é de partir o coração. “Não incomode crianças quando estiverem andando de skate” é sobre as lagostas transgêneros neo-marxistas roubando os seus fluidos corporais preciosos. Todos eles se revelam o Método Profético Geral sendo aplicado de jeitos ligeiramente diferentes.

E muitos deles — especialmente o segundo — concentram-se em torno da ideia de Peterson de Ordem vs. Caos. A ordem é o mundo confortável e repleto de hábitos da existência cotidiana, simbolizado pelo Condado [dos hobbits] ou qualquer um de mil outros lugares equivalentes ao Condado em outras fantasias ou contos de fadas. O Caos são as coisas medonhas que você não entende, que te empurram para fora da sua zona de conforto, simbolizadas por dragões ou o Submundo ou {aproximadamente 30% dos objetos, personagens e lugares mitológicos}. Os humanos estão vivendo suas melhores vidas quando estão sempre equilibrados na fronteira entre Ordem e Caos, convertendo o Caos em nova Ordem. Incline-se demais em direção à Ordem e você ganha tédio e tirania e estagnação. Incline-se demais em direção ao Caos e você entra em piripaque e tem um colapso total. Equilibre as duas coisas corretamente que você sempre está encontrando coisas novas, lidando com elas e usando-as para enriquecer a sua vida e as vidas dos seus entes queridos.

Até aqui, bem clichê — mas, de novo, quando Peterson diz clichês, eles funcionam. E arriscando fazer um clichê de mim mesmo, não pude deixar de ver uma conexão disso com os impulsos de redução de incerteza que temos tratado por aqui. Esses impulsos encontram alguns paradoxos: se a sua meta é minimizar o erro de previsões, você deve ficar quieto num quarto escuro, sem fazer nada. Mas se a sua meta é minimizar a incerteza de modelos, você deve ser infinitamente curioso, passando a vida toda tendo experiências cada vez mais malucas de uma forma que não coincide com o comportamento de humanos reais. A alegação de Peterson — que nossa meta é equilibrar as duas coisas — parece mais verdadeira para a vida, embora não seja tão matematicamente embasada quanto as teorias neurocientíficas de fato. Mas seria bem interessante se um dia pudéssemos determinar que essa metáfora surrada e universal realmente reflete algo importante sobre a estrutura dos nossos cérebros.

Falhar no equilíbrio dessas coisas (continua Peterson) retarda o nosso crescimento como pessoas. Se não tivermos coragem, podemos nos contentar com a Ordem, nos recusando a crer em qualquer coisa que perturbaria nossa visão confortável da vida, e deixando os nossos problemas gradualmente crescerem cada vez mais. Esse é o tipo de pessoa que fica num emprego que odeia porque tem medo do desconhecido em começar uma nova carreira, ou o ideólogo político que tenta encaixar tudo numa cesta para que não tenha de admitir que estava errado. Ou podemos cair no Caos, sempre tímidos demais para fazer uma escolha, “mantendo nossas opções abertas” de uma forma que não nos deixa virar alguém.

É aqui que Peterson mais se aproxima de Lewis. Lewis acredita que o inferno é uma escolha. No nível literal, é uma escolha não aceitar a Deus. Mas, no nível metafórico, é uma escolha evitar encarar uma realidade difícil ao se acomodar em narrativas de vitimização e orgulho. Você começa com algum problema — talvez a sua carreira está encalhada. Você poderia tentar descobrir quais são as suas fraquezas e como melhorá-las — mas isso demandaria uma admissão de fracasso e um comprometimento difícil. Você poderia mudar de empresa ou de área até encontrar uma posição que se encaixe melhor nos seus talentos — mas isso demandaria um salto difícil para o desconhecido. Então, em vez disso, você reclama para si mesmo do seu patrão ruim, que é muito lerdo e egocêntrico para perceber quanto potencial você tem. Você pensa “sou bom demais para essa empresa, mesmo”. Você pensa “por que eu iria para um emprego melhor? É só uma corrida de ratos, que bom que não sou o tipo de babaca que é obcecado com sucesso financeiro”. Quando os seus amigos e familiares tentam mostrar que você está ficando muito amargo e que está sabotando as suas próprias chances, você os dispensa como escravos do sistema corrupto. Finalmente, você chega a um ponto em que você odeia todo mundo — e, também, se alguém te deu uma promoção de bandeja, você rejeita só para contrariar.

… Exceto que é mil vezes mais sutil que isso, e percola por todo canto da vida, e é tão onipresente que evitá-lo pode ser a principal competência na vida. Talvez eu não seja bom em explicar isso; leia O Grande Abismo (cópia online, minha resenha).

Parte de mim se sente culpada a respeito de todas as comparações com Lewis. Um motivo é que talvez Peterson não seja tão parecido assim com Lewis. Talvez os dois sejam os únicos representantes que eu conheço da vasta tradição humanística de autocultivo. Peterson é mesmo mais parecido com Lewis do que com, digamos, Marco Aurélio? Não tenho certeza, exceto pela medida em que Lewis e Peterson são ambos modernos e portanto mais imediatamente legíveis que Meditações.

Peterson é muito ciente de seu papel como só mais uma parada suburbana na linha de ferro da Cultura Ocidental. Suas citações favoritas são de Jung e Nietzsche, mas ele também gosta de citar os nomes de Dostoievski, Platão, Soljenítsin, Milton e Goethe. Interpreta-lhes todos como parte desse grande projeto de determinar como viver bem, como lidar com a penúria da existência e transmutá-la em algo sagrado.

E, por um lado, é claro que eles são. É isso que todo acadêmico das humanidades tem dito por séculos quando pedem que defenda o seu território. “As artes e as humanidades estão ali para ensinar o sentido da vida e como viver.” Por outro lado, eu já assisti a aulas de humanidades. Dúzias delas, na verdade. Elas nunca eram sobre isso. Elas consistiam em “explicar como a representação da caça à baleia em Moby Dick lança luz sobre as transformações econômicas do século XIX, dando três exemplos do texto. Dez páginas, espaçamento único.” E talvez isso não seja totalmente desconectado da questão de como viver. Talvez conseguir entender esse tipo de coisa é uma parte necessária de conseguir ganhar qualquer coisa dos livros.

Mas, assim como em todos os outros clichês, de alguma forma Peterson faz isso melhor que qualquer outro. Quando ele fala das Grandes Obras, você entende, num nível profundo, que elas realmente dizem respeito a como viver. Você fica grato e até lisonjeado de ser o recipiente de muitos milênios de mentes brilhantes trabalhando nesse problema e escrevendo seus resultados. Você entende por que tudo isso é uma Grande Coisa.

Você quase acredita que há mesmo uma Ciência de Como Viver Bem, separada de todas as outras ciências, quase incomunicável por meios normais mas expressável através da arte e da profecia. E que isso tem a ver com a pergunta nos lábios de todos, aquela sobre como encontramos sentido para nós mesmos para além do consumismo e do sexo casual.

III.

Mas a outra razão pela qual me sinto culpado pela comparação com Lewis é que C. S. Lewis provavelmente odiaria Jordan Peterson.

Lewis põe as seguintes palavras na boca de seu personagem demoníaco Screwtape, quando ele conversa com outro demônio:

Uma vez que você fez do mundo um fim, e da fé um meio, você quase já ganhou o seu homem [para o inferno], e faz pouca diferença que tipo de fim mundano ele está perseguindo. Contanto que reuniões, panfletos, políticas, movimentos, causas e cruzadas sejam mais importantes para ele que orações e sacramentos e caridade, ele é seu — e quanto mais “religioso” (nesses termos) ele for, mais é seguro que ele é nosso.

Não tenho certeza da minha interpretação de Lewis ou de Peterson, mas acho que Lewis pensaria que Peterson faz isso. Ele faz do mundo um fim e da fé um meio. O Céu dele é um Céu metafórico. Se você se aprumar e confiar no Deus metafórico, você pode viver uma vida edificante e de auto-respeito, deixar os seus pais orgulhosos, e melhorar o mundo. Embora Peterson alegue que “ninguém é de fato ateu” e mencione Jesus cerca de três vezes por página, penso que C. S. Lewis o consideraria tão ateu quanto Richard Dawkins, e o pior tipo de falso profeta.

Isso nos obriga a perguntar — como é que Peterson dá base ao seu sistema? Se você não estiver fazendo todo esse trabalho difícil de autocultivo porque há uma moralidade objetiva sendo passada de cima para baixo, por que ele é tão importante? “Por favor, nós dois sabemos que o bem e o mal existem” te leva longe, mas pode não ser suficiente para fechar o abismo por si só. Você cresce, se torna um homem (oferta válida apenas para meninos, senão as lagostas neo-marxistas vão pegar seus fluidos corporais), age como um pilar da sua comunidade, equilibra ordem e caos — por que isso é tão melhor assim que fumar maconha a vida inteira?

Num nível, Peterson se sai muito bem nessa:

Eu [estava] atormentado com o fato da Guerra Fria. Obcecado com ela. Tinha pesadelos. Ela me mandou para o deserto, longa noite adentro na alma humana. Eu não conseguia entender como poderia ser que as duas grandes frações do mundo tinham como meta a destruição mútua certa uma da outra. Um sistema era tão arbitrário e corrupto quanto o outro? Era mera questão de opinião? Todas as estruturas de valor seriam meramente uma cobertura do poder?

Todo mundo estava louco?

O que exatamente aconteceu no século XX, afinal? Como é que tantas dezenas de milhões tinham de morrer, sacrificadas por novos dogmas e ideologias? Como é que descobrimos algo pior, bem pior, do que a aristocracia e as crenças religiosas corruptas que o comunismo e o fascismo buscaram suplantar tão racionalmente? Ninguém tinha respondido essas perguntas, até onde eu sabia. Como Descartes, eu era atormentado pela dúvida. Procurei por alguma coisa — qualquer coisa — que eu pudesse considerar indisputável. Queria uma rocha sobre a qual construir a minha casa. Foi a dúvida que me levou a ela […]

Do que é que eu não posso duvidar? Da realidade do sofrimento. Ele não admite argumentos. Os niilistas não podem miná-lo com o ceticismo. Os totalitários não podem bani-lo. Os cínicos não podem escapar da realidade dele. O sofrimento é real,  e a imposição ardilosa do sofrimento sobre o outro, por si mesmo, é errada. Essa se tornou a pedra fundamental da minha crença. Vasculhando as maiores profundidades do pensamento e ação humanos, entendendo minha própria capacidade de agir como um guarda de prisão nazista ou administrador do arquipélago dos gulags ou um torturador de crianças numa masmorra, captei o que significa “tomar os pecados do mundo sobre si”. Cada ser humano tem uma imensa capacidade para o mal. Cada ser humano entende, a priori, talvez não o que é o bem, mas certamente o que não é. E se há algo que não é o bem, então há algo que é o bem. Se o pior pecado é a tormenta dos outros, meramente em nome do sofrimento produzido — então o bem é qualquer coisa diametralmente oposta a isso. O bem é qualquer coisa que evite que tais coisas aconteçam.

Foi daí que tirei minhas conclusões morais fundamentais. Levante a cabeça. Preste atenção. Conserte o que você pode consertar. Não seja arrogante no seu conhecimento. Busque a humildade, porque o orgulho totalitário se manifesta na intolerância, opressão, tortura e morte. Conscientize-se da sua própria insuficiência — da sua covardia, malevolência, ressentimento e ódio. Considere a natureza assassina do seu próprio espírito antes de ousar acusar aos outros, e antes de tentar reparar o tecido do mundo. Talvez não é o mundo que é defeituoso. Talvez é você. Você falhou em atingir a meta. Errou o alvo. Ficou aquém da glória de Deus. Você pecou. E tudo isso é a sua contribuição para a insuficiência e o mal do mundo. E, acima de tudo, não minta. Não minta sobre nada, nunca. A mentira leva ao inferno. Foram as grandes e pequenas mentiras dos Estados nazista e comunista que produziram as mortes de milhões de pessoas.

Considere, então, que o alívio da dor e sofrimento desnecessários é um bem. Faça disso um axioma: no que estiver ao meu alcance, agirei da forma que levar ao alívio da dor e sofrimento desnecessários. Você agora botou no topo da sua hierarquia moral um conjunto de pressupostos que ações com meta no aperfeiçoamento do Ser. Por que? Porque sabemos qual é a alternativa. A alternativa foi o século XX. A alternativa foi tão próxima do inferno que não vale a pena discutir a diferença. E o oposto do Inferno é o Céu. Colocar o alívio da dor e sofrimento desnecessários no topo da sua hierarquia de valores é trabalhar para trazer o Reino dos Céus para a Terra.

Penso que ele está dizendo que o sofrimento é ruim. Isso é tão óbvio que dispensa justificação. Se você quer ser o tipo de pessoa que não causa sofrimento, deve ser forte. Se você quer ser o tipo de pessoa que pode lutar contra ele, precisa ser ainda mais forte. Para se fortalecer, você vai precisar empregar conceitos úteis como “Deus”, “fé” e “Céu”. Aí você pode mergulhar por toda a tradição ocidental do autocultivo, que te ajudará desse ponto em diante. Essa é uma forma filosófica melhor de dar base ao sistema do que eu esperava de um professor-de-psicologia-que-virou-profeta aleatório.

Mas, em outro nível, alguma coisa parece errada. Levado ao pé da letra, isso não te tornaria um utilitarista negativo?(3)N. do T.: O utilitarismo é a teoria moral de que a coisa certa a se fazer é maximizar a felicidade (utilidade positiva) e minimizar o sofrimento (utilidade negativa). Portanto, um utilitarista negativo é quem crê que a moral/ética se funda em diminuir o sofrimento para o maior número possível de pessoas. (Não estou me focando na parte “negativa”, talvez Peterson admitira a utilidade positiva em seu cálculo). Uma pessoa, ao doar algumas centenas de dólares à Fundação Contra a Malária, prevenirá o sofrimento mais efetivamente do que cem pessoas limpando os seus quartos e se tornando psicologicamente mais fortes. Acho que Peterson é muito contra o utilitarismo, mas não tenho certeza do porquê.

Além disso, mais tarde ele diz que o sofrimento é uma parte importante da vida, e que tentar banir o sofrimento destruirá a sua capacidade de ser um ser humano completo. Penso que ele ainda está meio que trabalhando com um arcabouço consequencialista em que, se você banir o sofrimento agora enterrando a sua cabeça na areia, você não ficará mais forte e não estará pronto para alguma outra forma pior de sofrimento que você não pode banir. Mas, se você perguntar a ele “Tudo bem banir o sofrimento se você estiver bem seguro de que isso não vai causar mais problemas no futuro?”, não consigo imaginá-lo respondendo de outra forma que não seja uma prosa belamente construída sobre a importância do sofrimento ao forjar o espírito humano ou coisa do tipo. Preocupo-me que ele está fingindo basear sistema dele em “contra o sofrimento” quando é conveniente, mas voltando a “platitudes tradicionalistas vagas” quando pararmos de incomodá-lo com questão da base.

Num debate famoso com Sam Harris, Peterson defendeu uma noção pragmática da Verdade: as coisas são Verdadeiras se elas ajudam nesse projeto de aprumar a si mesmo e se tornar uma pessoa melhor. Então Deus é Verdadeiro, a Bíblia é Verdadeira, etc. Isso desconfortavelmente vai de encontro à exigência obsessiva do Peterson do livro de que as pessoas digam a verdade o tempo todo, que parece usar uma definição da Verdade que é mais focada na realidade. Se a Verdade é sinônimo do que ajuda as sociedades a sobreviverem e as pessoas a se tornarem melhores, um comunista devotado não poderia dizer que acreditar nos slogans do Partido ajudará a sociedade e fazer de você uma pessoa melhor?

Peterson tem o mau hábito de dizer que apoia o pragmatismo quando ele na verdade apoia valores muito específicos em função deles mesmos. Dificilmente é o pior hábito para se ter, mas significa que todas as suas justificações supostamente pragmáticas não justificam de fato as coisas que ele diz, e muito do sistema dele é deixado de fora.

Eu disse antes que pensar em Peterson como um filósofo era não entender a questão. Estou falhando em entender a questão aqui? Certamente alguns lapsos no trabalho de justificação filosófica são desculpáveis e ele estiver tentando dar sentido para as vidas de milhões de jovens desiludidos.

Mas esse é justamente o problema. Preocupa-me que Peterson acorde de manhã e pense “Como posso ajudar a dar sentido para as vidas das pessoas?” e depois diga coisas que soam mesmo cheias de sentido, e depois as pessoas pensem que suas vidas têm significado. Mas, a certa altura, as coisas na verdade precisam ter um outro significado específico. Não podem simplesmente significar “sentido”. “Significar” é um verbo transitivo. Precisa de um objeto direto.

Peterson tem um artigo em que define “significado/sentido”, mas não é muito compreensível. Penso que em resumo é mais uma vez a coisa de “criar ordem a partir do caos”. Mas, ao menos que você use uma definição puramente matemática de “ordem”, em que você passa o pente fino em correntes de bits e as faz mais compressíveis, isso não é suficiente. Alguém que tentasse matar todas as pessoas de olhos azuis estaria agindo contra a entropia, em certo sentido, mas se o assassino pensasse que por isso a sua vida tem sentido, seria no melhor dos casos um tipo de sentido artificial e robótico. O que é que faz você levantar de manhã e reduzir um pedaço específico de caos a um tipo específico de ordem?

E quanto ao caso mais clássico de alguém buscando significado — a pessoa que quer ver sentido em seu sofrimento? Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? Peterson trata dessa questão bastante, mas suas respostas são parciais e insatisfatórias. Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? “Se você trabalhar duro em cultivar a si mesmo, você pode chegar a ter menos coisas ruins acontecendo com você”. De fato, mas por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? “Se você tentasse ignorar todas as coisas ruins e se abrigar delas, você seria fraco e abjeto”. Certo, mas por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? “O sofrimento nos faz mais fortes, e assim podemos usar essa força para ajudar aos outros”. Mas, na escala mais ampla, por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? “A mentalidade que exige que nenhuma coisa ruim aconteça levará inevitavelmente ao totalitarismo”. OK, mas por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? “Hã… olha ali, uma lagosta transgênero neo-marxista! Rápido, pegue-a antes que ela escape!”

C. S. Lewis meio que tinha uma resposta: é tudo parte de um plano divino misterioso. E os ateus meio que têm uma resposta: são coisas cuspidas ao acaso por um universo sem propósito. Mas e Peterson, tem?

Acho — e há muita incerteza aqui — que ele não pensa em significado dessa forma. Ele pensa em significado como algumas metas (que você já tem) de mapeamento de funções para a motivação (que você precisa). Parte de você já quer ter sucesso e felicidade e virtude, mas neste momento você não está fazendo nada disso. Se você entender o seu papel no grande drama cósmico, que é como uma figura heroica transformando caos em ordem, então você fará as coisas que sabe que são corretas, será uno consigo mesmo e mais feliz, mais produtivo e menos susceptível ao totalitarismo.

Se é isso o que você busca, então é isso o que você busca. Mas muitos dos grandes intelectuais ocidentais que Peterson idolatra passaram as suas vidas se digladiando com o fato de que você não pode fazer a coisa que Peterson está tentando fazer. Peterson não tem nenhuma resposta a eles, exceto subir a chave da inspiração até o nível 11. Um comentarista escreve:

Penso que Nietzsche tinha razão — não se pode simplesmente tirar Deus da narrativa e fingir que a meta-estrutura toda ainda está firme. Não está. O próprio JP de alguma forma consegue dizer que Nietzsche tinha razão, lamentar o colapso, e então seguir tentando salvar a situação com um Deus metafórico de pelúcia.

Então, apesar das similaridades de Peterson a C. S. Lewis, se o grande homem em pessoa fosse ler 12 Regras, penso que ele diria — de algum jeito cavalheiro de cristão inglês impecavelmente educado — foda-se esta merda.

IV.

Peterson trabalha como psicólogo clínico. Muitos dos exemplos no livro vêm de seus pacientes; muitas das coisas sobre as quais ele pensa vêm das histórias deles. Boa parte do que eu ganhei desse livro foi conselho de psicoterapia; eu mataria para ter Peterson como professor durante a minha residência em psiquiatria.

C. S. Lewis poderia ter odiado Peterson, mas já sabemos que ele odiava Freud. Mas Peterson faz um trabalho interessante conectando a ideia Lewisiana da pessoa presa em sua vitimização e narrativas de orgulho à ideia de Freud do mecanismo de defesa. Em ambos os casos, alguém que não consegue tolerar a realidade desvia as suas emoções para um mecanismo psíquico protetivo de autodefesa; em ambos os casos, o sistema de defesa dura mais do que o necessário e leva a mais problemas no futuro. Notar a similaridade me ajudou a entender tanto Freud quanto Lewis, e me ajudou a atravessar o verniz científico de Freud e o verniz cristão de Lewis  para encontrar o conceito comum e cotidiano sob os dois. Noto que escrevi a respeito muitos anos atrás na minha resenha de O Grande Abismo, mas parece que esqueci. Peterson me fez lembrar, e vale a pena a lembrança.

Mas Peterson não é realmente um freudiano. Como muitos grandes terapeutas, ele é um minimalista. Ele discute sua filosofia de terapia no contexto de um paciente particularmente difícil, escrevendo:

A srta. S não sabia nada sobre si mesma. Ela não sabia nada sobre outros indivíduos. Não sabia nada sobre o mundo. Ela era um filme projetado fora de foco. E esperava desesperadamente por uma história sobre si mesma para que tudo fizesse sentido.

Se você adicionar açúcar à água fria, e agitar, o açúcar vai se dissolver. Se você esquentar a água, o açúcar se dissolve mais. Se você ferver a água, pode adicionar muito mais açúcar e também vai se dissolver. Então, se você pegar essa água adocicada fervente e esfriá-la lentamente, e não balançá-la, você pode enganá-la (não sei outra forma de dizer isso) de forma que segure muito mais açúcar dissolvido do que ela teria se tivesse ficado fria o tempo todo. Isso é conhecido como uma solução supersaturada. Se você deixar cair um só cristal de açúcar nessa solução supersaturada, todo o excesso de açúcar vai cristalizar de repente e dramaticamente. É como se esse excesso estivesse desesperado por ordem.

Assim era a minha cliente. Pessoas como ela são a razão pela qual as muitas formas de psicoterapia praticadas atualmente todas funcionam. As pessoas podem ser tão confusas que as suas psiquês se organizarão e suas vidas melhorarão pela adoção de qualquer sistema organizado de interpretação.

Essa é a junção de elementos díspares de suas vidas de uma forma disciplinada — qualquer forma disciplinada. Então, se você está se desfazendo em frangalhos (ou se você nunca esteve firme), você pode reestruturar a sua vida de acordo com princípios freudianos, junguianos, adlerianos, rogerianos ou behavioristas. Ao menos assim você fará sentido. Ao menos assim você será coerente. Ao menos assim você será bom para alguma coisa, mesmo se ainda não for bom para tudo.

Tenho de admitir que li as partes terapêuticas desse livro com um pouco mais de desespero do que seria apropriado. A psicoterapia é muito difícil, talvez impossível. A sua paciente chega, diz que o filho dela de 12 anos morreu em algum acidente trágico. Nem mesmo conseguiu dizer adeus. Ela passou da idade de ter filhos agora, então nunca mais terá filhos. E aí ela te pede ajuda. O que você diz? “Não é tão ruim assim?” Mas é tão ruim quanto parece. Tudo o que você tem a oferecer são clichês. “Dê a si mesma tempo para o luto”. “Você sabe que ele não gostaria de te ver infeliz”. “Em algum momento você vai ter que ir em frente na vida”.

O superpoder de Jordan Peterson é dizer clichês e fazer com que eles soem significativos. Há momentos — como quando eu tenho um paciente desesperado e deprimido na minha frente — em que eu daria qualquer coisa para ter esse talento. “Você sabe que ele não gostaria de te ver infeliz”. “Oh meu Deus, você tem razão! Estou desperdiçando a vida triste quando eu poderia estar ajudando aos outros ou fazendo ele ter orgulho de mim, deixa eu sair e começar agora mesmo!” Quem dera.

Então como é que Jordan Peterson, a única pessoa no mundo que pode dizer banalidades sociais e ganhar uma reação genuína com elas, dá psicoterapia?

Na maior parte ele só ouve:

As pessoas que eu ouço precisam falar, porque é assim que as pessoas pensam. As pessoas precisam pensar… O verdadeiro pensamento é complexo e difícil. Demanda que você seja um orador articulado, e um ouvinte cuidadoso e criterioso ao mesmo tempo. Envolve o conflito. Então você deve tolerar o conflito. O conflito envolve a negociação e a concessão. Então, você precisa aprender a dar e levar e a modificar as suas premissas e a ajustar os seus pensamentos — até as suas percepções do mundo… O pensamento é emocionalmente doloroso e fisiologicamente custoso, mais que qualquer coisa — exceto não pensar. Mas você deve ser muito articulado e sofisticado para que todo esse pensamento ocorra dentro da sua cabeça. O que é que você faz, então, se você não é muito bom em pensar, em ser duas pessoas ao mesmo tempo? Isso é fácil. Você fala. Mas você precisa que alguém ouça. Uma pessoa ouvinte é sua colaboradora e sua oponente […]

O fato é importante o suficiente para repetir: as pessoas organizam os seus cérebros através da conversa. Se elas não têm ninguém para contar as suas histórias, elas perdem a cabeça. Como colecionistas patológicos, elas não podem se livrar do lixo. O aporte da comunidade é necessário para a integridade da psiquê individual. Dizendo de outra forma: é necessária uma vila para construir uma mente.

E:

Um cliente meu poderia dizer “odeio a minha esposa”. Está ali, depois de dito. Paira no ar. Emergiu do submundo, se materializou do caos, e se manifestou. É perceptível e concreto e não mais fácil de ignorar. Tornou-se real. O falante assustou até a si mesmo. Ele vê a mesma coisa refletida nos meus olhos. Nota isso, e continua na estrada para a sanidade. “Espere”, diz ele. “Retiro o que disse, é duro demais. Às vezes odeio minha esposa. Odeio-a quando ela não me diz o que ela quer. Minha mãe fazia isso o tempo todo também. Deixava papai louco. Deixava a todos nós loucos, para dizer a verdade. Até ela mesma. Ela era uma boa pessoa, mas tinha muito rancor. Bem, ao menos a minha esposa não é tão ruim quanto a minha mãe. De jeito nenhum. Espere! Acho que minha esposa na verdade é bem boa em me dizer o que ela quer, mas eu me incomodo muito quando ela não diz, porque mamãe torturava nós todos quase até a morte se fazendo de mártir. Isso me afetou muito. Talvez eu exagero agora quando isso acontece só um pouco. Opa! Estou agindo igual ao papai quando mamãe o chateava. Esse não sou eu. Não tem nada a ver com a minha esposa! Melhor eu contar para ela.” Observo disso que meu cliente falhou antes em distinguir apropriadamente a esposa da mãe. E vejo que ele estava possuído, inconscientemente, pelo espírito de seu pai. Ele vê tudo isso também. Agora ele está um pouco mais distinto, é um pouco menos como um bloco amorfo, um pouco menos escondido na bruma. Ele costurou um pequeno rasgo no tecido de sua cultura. Ele diz “foi uma boa sessão, Dr. Peterson”. Eu balanço a cabeça em concordância.

Isso é o mesmo que todos os manuais dizem, também. Mas foi útil ouvir Jordan Peterson dizendo. Todo mundo — ao menos todo terapeuta, mas provavelmente todo ser humano — tem esse desejo desesperado de fazer alguma coisa para ajudar as pessoas que estão na sua frente sentindo dor agora mesmo. E você sempre pensa — se eu fosse uma pessoa mais profunda e eloquente, eu poderia dizer algo que resolveria isso agora mesmo. Parte do conjunto de competências de um terapeuta é perceber que isso não é verdade, e que você vai fazer mais mal do que bem se tentar. Mas você ainda se sente inadequado. Então, descobrir que Jordan Peterson, que em suas horas vagas injeta sentido de qualidade farmacêutica em milhares de jovens desiludidos — descobrir que até ele não tem muito o que fazer exceto ouvir e tentar ajudar as pessoas a organizarem a sua narrativa — é realmente algo tranquilizador e de grande ajuda.

E isso me convence mais ainda de que ele é bom. Não apenas um bom terapeuta, mas uma boa pessoa. Conseguir criar narrativas como Peterson cria — mas também deixar de lado esse talento porque alguém precisa criar a sua própria sem a sua interferência — é um grande sacrifício.

Não tenho certeza se Peterson está tentando fundar uma religião. Se ele está, não estou interessado. Acho que, se ele tivesse me alcançado quando eu tinha 15 anos, quando eu era jovem e triste e confuso sobre tudo, eu estaria limpando o meu quarto e usando o vocabulário dele e adorando ídolos de ouro de lagostas gigantes do mesmo jeito que os outros adolescentes. Mas agora estou mais velho, tenho minha identidade um pouco mais parafusada, e há muito tempo saí do burned-over district(4)N. do T.: Região de Nova York em que foi comum o nascimento de seitas no século XIX. da alma e fui para a Utah da respeitabilidade-dentro-de-uma-seita-madura.(6)N. do. T.: Referência irônica ao mormonismo (Igreja dos Santos dos Últimos Dias), cujas crenças são amplamente consideradas típicas de seitas.

Mas, se Peterson fundar uma religião, penso que ela será uma força para o bem. Caso não seja, será uma dessas religiões que pelo menos começaram com uma boa mensagem antes que as gerações seguintes distorcessem os ensinamentos originais e arruinassem tudo. Já vejo a página do Reddit r/jordanpeterson como consistindo em dois terços de guerras culturais, então já começaram bem. Por que não podemos ficar com a pureza dos ensinamentos originais, com seus ídolos de ouro de lagostas gigantes?

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Por Scott Alexander, pseudônimo de um psiquiatra americano que mantém o popular blog Slate Star Codex, em que este texto foi originalmente publicado em 26 de março de 2018.

Tradução: Eli Vieira

Notas   [ + ]

1. N. do T.: A editora relatou em março de 2018 ter vendido mais de 700 mil cópias só nos Estados Unidos, e a Amazon ainda lista o livro como seu bestseller nº 1.
2. N. do T.: Gladwell é um jornalista britânico radicado no Canadá, autor de cinco bestsellers, que lida com psicologia social e sociologia.
3. N. do T.: O utilitarismo é a teoria moral de que a coisa certa a se fazer é maximizar a felicidade (utilidade positiva) e minimizar o sofrimento (utilidade negativa). Portanto, um utilitarista negativo é quem crê que a moral/ética se funda em diminuir o sofrimento para o maior número possível de pessoas.
4. N. do T.: Região de Nova York em que foi comum o nascimento de seitas no século XIX.
5. N. do T.: Cathy Newman, entrevistadora do Channel 4 britânico, tentou ridicularizar Peterson citando uma anedota que ele escreveu a respeito das lagostas. Peterson pretendia mostrar como o comportamento hierárquico das lagostas demonstra uma origem muito antiga do mesmo comportamento homólogo em humanos, e que o comportamento tem raiz no sistema neural serotonérgico (que utiliza serotonina como neurotransmissor). No entanto, alguns biólogos estudiosos da evolução do comportamento acreditam que o comportamento hierárquico evoluiu mais de uma vez e que não há razão, portanto, para pensar que é homólogo entre lagostas e humanos. De qualquer forma, o tratamento de Newman do tema foi ainda mais simplificador, e a entrevista de 30 minutos foi amplamente considerada um desastre para Newman, por ela usar repetidamente a falácia do espantalho, reinterpretando de forma deturpadora o que o entrevistado dizia.
6. N. do. T.: Referência irônica ao mormonismo (Igreja dos Santos dos Últimos Dias), cujas crenças são amplamente consideradas típicas de seitas.

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