Vieses políticos na filosofia e por que são importantes

por Spencer Case*, em National Association of Scholars Articles, 25 de agosto de 2015.

Filósofos podem ser amantes da verdade, mas isso não significa que eles estão isentos dos vieses cognitivos que atormentam humanos em geral. Dado que filósofos frequentemente têm opiniões políticas fortes, vale a pena perguntar: até que ponto as opiniões deles são transmitidas em seus escritos acadêmicos? Se o viés político está presente, então como isso influencia a disciplina? Até onde sei, não houve nenhuma tentativa organizada dos filósofos de abordar essas questões, muito menos de estudá-las de modo científico. Estou aqui para mostrar que a disciplina se beneficiaria desse tipo de investigação e para sugerir, em termos gerais, como isso pode ser realizado.

Por “viés político”, não quero dizer que as posições sendo defendidas em publicações profissionais parecem tender mais à esquerda ou mais à direita. Ter um igual número de filósofos em cada lado de cada questão não é nem viável nem desejável. A preocupação, pelo contrário, é com comentários supérfluos, com a escolha seletiva de exemplos e de referências políticas que conduzem o leitor às opiniões (quase invariavelmente de centro-esquerda) do autor.

Um bom exemplo pode ser achado no princípio de The Imperative of Integration, o aclamado livro de Elizabeth Anderson sobre a ética do racismo estrutural na sociedade americana contemporânea. Anderson define “imperialismo cultural” como “a imposição da cultura e da interpretação de mundo de um grupo dominante aos grupos subordinados”.1 A repressão turca sobre a identidade curda durante o século XX e a conversão forçada de judeus ao cristianismo durante a Inquisição Espanhola são dois exemplos que ela dá de imperialismo cultural. Anderson também cita o retrato ocidental do islã “como uma religião terrorista” e o fato de que alguns livros-texto “falsamente representam todo mundo como heterossexual”.2

Anderson não menciona dhimmitude, a sistemática opressão de cristãos, judeus, hindus, zoroastrianos e politeístas nas mãos de muçulmanos, que, em alguns lugares, continua até hoje.3 O método preciso desse tipo de opressão variou durante os séculos e entre localidades, mas foi – e é – invariavelmente degradante. Para mencionar só algumas das humilhações: “dhimmis”, isto é, não-muçulmanos, foram forçados a vestir símbolos discriminatórios lembrando animais (macacos para cristãos, porcos para judeus)4, e pagam uma taxa especial (jizya, tributo em árabe) em uma cerimônia humilhante.5 Não-muçulmanos também são proibidos de cavalgar animais “nobres” como cavalos e camelos.6

Com certeza, dhimmitude é um exemplo melhor de imperialismo cultural, como Anderson o define, que os retratos negativos do islã e que a (aparente) falta de não-heterossexuais nos livros-texto. A escolha dela de destacar esses casos relativamente triviais de “imperialismo cultural” parece refletir uma disposição acadêmica liberal para ver muçulmanos e não-heterossexuais – mas não cristãos – como membros de grupos de vítimas.

Eis mais alguns exemplos:

  • The Elements of Moral Philoshophy de James e Stuart Rachel – agora o livro padrão de introdução à ética – pede que o leitor imagine que está sendo levado a votar contra Obama em função de um preconceito irracional: “Suponha que eu saiba que você tem preconceito contra muçulmanos. Então eu digo: ‘Obama, sabe, é muçulmano.’ Isso funciona; agora você decide não votar no Obama”.7 Nós somos, então, informados: “O Presidente Obama na verdade não é um muçulmano”. Isso é um comentário irrelevante em um contexto onde tudo o que é necessário é um exemplo de uma pessoa que é motivada a fazer algo por uma razão ruim.
  • Outro exemplo ocorre em “Puppies, Pigs, and People: Eating Meat and Maginal Cases“, de Alastair Norcross, um artigo amplamente usados em antologias, debatendo em favor do vegetarianismo ético. Em determinado momento, Norcross tenta desacreditar o argumento que a racionalidade geral dos seres humanos é relevante para o status moral de determinados seres humanos que não são racionais. Para destacar a importância das características de determinados seres humanos, ele dá um exemplo em que um homem inocente, Gandhi, é mandado ao inferno porque ele compartilha uma característica irrelevante, masculinidade, com quatro homens culpados: “Os outros quatro – Adolf Hitler, Joseph Stalin, George W. Bush e Richard Nixon – são culpados”. Apesar do exemplo ter sucesso em ilustrar o ponto de Norcross, a decisão de mencionar Bush e Nixon ao lado de Hitler e Stalin é desnecessária e objetável.
  • Em outro ensaio, “Killing, Abortion and Contraception: a Reply to Marquis“, Norcross promove um argumento reductio ad absurdum que exige que ele discuta incidentes hipotéticos de mortes em massa, incluindo massacres. O que ele não precisa fazer é dar aos agentes dessas atrocidades nomes que suspeitosamente são parecidos com os de políticos reais: a ex-primeira ministra britânica Margaret Thatcher, o ex-presidente americano George W. H. Bush [N. do T.: “bush” significa literalmente “arbusto”] e o ex-vice presidente americano Dan Quayle [N. do T.: o sobrenome soa idêntico à palavra “quail”, uma ave]. Depois de um acidente nuclear em Londres, “A primeira ministra, Srta. Butcher [“açougueiro” ou “matador”] … ordena ao exército surrar os sobreviventes, fazer um registro de seus nomes e matá-los”. O presidente americano “Shrub” [sinônimo de  “bush”, “arbusto”] e o vice-presidente “Fowl” [indireta para “quail”, também ave] cometem crimes similares.
  • O comentário político em “Kantian Ethics” de Allen W. Wood é particularmente venenoso. No prefácio, Wood escreve, “As próprias ideias de democracia, comunidade e direitos humanos estão em processo de falência em nossa civilização – ou elas estão sendo deliberadamente assassinadas por aqueles no poder e aquele segmento da população que apoia esse regime [a administração Bush]” (minha ênfase). Depois, sem mesmo pausar para considerar quaisquer argumentos antiaborto, Wood afirma que “É uma afronta para a inteligência humana fingir que as opiniões [pró-vida] são algo mais do que uma tentativa de confinar mulheres, na medida do possível, à sua subordinação sexual tradicional como menos do que pessoas livres.”8
  • Em seu livro “In Praise of Reason: Why Rationality Matters for Democracy“, Michael P. Lynch observa que decisões políticas e éticas são frequentemente carregadas emocionalmente “como qualquer um, de Maquiavel a Karl Rove, poderia lhe dizer”9. Claro, os dois principais partidos políticos nos EUA fazem uso de estrategistas calculistas para ganhar eleições. Como o livro foi publicado em 2012, Lynch poderia ter usado o mais recente exemplo de David Axelrod, um chefe de campanha de Barack Obama durante as eleições de 2008. A decisão dele de mencionar só Rove sugere que só republicanos são maquiavélicos, ou que eles têm uma maior tendência a ser.
  • Em um livro anterior, True to Life: Why Trtuh Matters, Lynch não perde tempo em apresentar as objeções dele à administração de George W. Bush. A sinopse do livro no site do MIT Press propõe a seguinte pergunta ao leitor: “Por que se preocupar com uma ideia abstrata como verdade quando algo que não é verdade – por exemplo, um relatório da tentativa do Iraque de comprar materiais para armas nucleares – tem o resultado esperado: a invasão do Iraque?”. O exemplo da Guerra do Iraque também ocorre na primeira sentença da introdução. Como True to Life aborda questões abstratas sobre a verdade, e não a falta de verdade na política americana, o exemplo político é irrelevante e desnecessário.

Embora os comentários políticos apontados possam adicionar graça à árida prosa acadêmica, nós deveríamos estar cautelosos em usar artigos acadêmicos como plataformas para editorializar, especialmente em contextos pedagógicos. Dos exemplos citados, “Elements” de James e Stuart Rachel e “Puppies. Pigs and People” de Norcross são ambos amplamente usados em cursos de introdução à ética. “Imperative of Integration” de Anderson é amplamente usado em cursos de introdução à filosofia política. O artigo sobre aborto de Norcross e “Kantian Ethics” de Wood também já foram usados em cursos de graduação de filosofia na Universidade do Colorado, Boulder.10

O viés nesses textos, dessa forma, tem o potencial de influenciar um grande número de estudantes, e pode influenciá-los negativamente. Estudantes liberais [no contexto americano, estudantes de esquerda] que notam vieses a favor de seus pontos de vista talvez gastem menos tempo tentando reforçar as próprias opiniões, ou concluam que eles não precisam levar a sério ideias conservadoras. Estudante conservadores podem concluir que a profissão não os leva a sério e ser menos dispostos a considerar uma carreira na filosofia. Mais importante, discussões de temas políticos têm uma tendência de aumentar os ânimos em qualquer discussão onde razão desapaixonada é exigida. Então um excesso de viés político em textos pedagógicos pode frustrar os esforços de fazer o campo mais diverso (ao menos ideologicamente) e prejudicar o ambiente de aprendizagem para os estudantes em geral.

O viés politico é também problemático por razões não relacionadas à pedagogia. Filósofos cujas crenças políticas são constantemente afirmadas estão em perigo de ser acalentados em complacência, e se tornarem menos receptivos a pontos de vista opostos, à custa da empreitada filosófica. Qualquer um que já esteve em conferências filosóficas provavelmente observou críticos políticos que falham, às vezes espetacularmente, em criticar. Uma vez, durante uma apresentação de filosofia da ciência, o palestrante pediu à plateia um exemplo sobre algo que fosse conhecível pela indução. Uma mente brilhante então soltou essa: “republicanos são estúpidos!”, causando gargalhada geral. O palestrante pareceu desconfortável e, para seu crédito, disse algumas coisas boas sobre conservadores em resposta.

Essas cutucadas parecem ser cuspidas menos por seu (pouco) valor de comédia do que como uma maneira de afirmar a adesão na tribo acadêmica. Ao ser sarcástico nas coisas certas, você se identifica como um membro iluminado. Alguns filósofos desafiam a moda. O professor David Boonin da Universidade do Colorado, Boulder, é geralmente de esquerda nos assuntos sociais sobre os quais ele escreve, mas é incrivelmente consciencioso sobre analisar de forma justa as posições conservadoras. A frequência com que filósofos inadvertidamente fazem tais comentários mordazes, no entanto, testemunha a favor de complacência ideológica generalizada, que é sem dúvida reforçada pelos vieses frequentemente achados nos trabalhos acadêmicos.

A Associação Americana de Filosofia (AAF), a primeira organização profissional para filósofos nos E.U.A., tem mostrado grande preocupação com a diversidade e com a inclusão quando se trata de raça, de gênero e de orientação sexual. Até agora, ela mostrou pouca preocupação com a diversidade de perspectivas políticas. Se a diversidade e a inclusividade são igualmente valiosas em todos esses domínios é uma questão que eu não proponho investigar aqui. Mas se a AAF decidir que diversidade ideológica é uma vantagem para uma educação completa, ela deveria investigar a extensão e os efeitos do viés político em seu campo.

Ela poderia começar com uma pesquisa perguntando aos filósofos publicados quão frequentemente eles percebem exemplos e comentários políticos nos próprios escritos. Tais estudos não seriam tão diferentes da pesquisa demográfica que a AAF regularmente conduz (na verdade, questões sobre ideologia política podem ser inclusas nessa mesma pesquisa). Estudos adicionais poderiam investigar se os filósofos são mais propensos a ser persuadidos por um estudo que usa exemplos receptivos a suas inclinações políticas, e se eles são mais propensos a rejeitar submissões a periódicos que as desafiam.

Estes estudos mais sofisticados teriam de ser empreendimentos interdisciplinares envolvendo cientistas sociais. Mas trabalhos interdisciplinares semelhantes já estão sendo realizados. Novas subdisciplinas interdisciplinares como neurofilosofia e filosofia experimental (vulgo “X-Phi”, do inglês “Experimental Philosophy”) têm florescido em anos recentes. Kieran Healy, professor associado de sociologia da Universidade de Duke, tem feito interessantes trabalhos empíricos sobre gênero e padrões de citação em trabalhos acadêmicos de filosofia publicados. Sem dúvida, alguns cientistas sociais e filósofos com tendência interdisciplinar vão acolher a oportunidade de fazer mais trabalho nesse sentido.

Isso não significa que não há desafios especiais para o estudo do viés político. As questões de Thorny incluem: em quem se pode confiar para avaliar de forma justa o viés político em trabalhos publicados? E que métrica para viés político os avaliadores poderiam usar? Idealmente, cada trabalho examinado pelo estudo – talvez os 300 trabalhos de ética mais citados num período de dez anos – seria avaliado por múltiplos filósofos de diferentes perspectivas políticas.

O problema, é claro, é que os filósofos que não são de centro-esquerda são poucos. Novos estudos poderiam contornar esse problema pedindo aos avaliadores que considerem questões que permitam respostas razoavelmente claras. Exemplos incluem: este trabalho faz referência a líderes políticos recentes? Pode qualquer uma dessas referências ser razoavelmente interpretada como ataques ad hominem? Poderia um leitor inteligente detectar algumas das opiniões políticas do autor com base em apartes?

É claro, nem todas as formas de vieses podem ser descobertas, não importa quão simples seja a pesquisa. É inerentemente difícil de avaliar objetivamente se certo ponto de vista político foi tratado de forma justa, ou se os exemplos escolhidos para ilustrar um ponto foram selecionados para afirmar alguma ideologia política (o tipo de viés que aleguei poder estar presente nos trabalhos de Anderson). Por essa razão, se poderia esperar que qualquer estudo restrito a essas questões subestimaria a verdadeira quantidade de vieses nos textos sendo examinados. Esses estudos, contudo, nos forneceriam mais conhecimento sobre viés político que o que temos atualmente. Estudos futuros poderiam melhorá-lo.

Mesmo se nós tivéssemos perfeito conhecimento sobre a extensão e a significância do viés politico, ainda enfrentaríamos o problema sobre o que fazer a respeito disso (supondo, como acredito, que mais investigação mostraria que sua influência é prejudicial). Eu suspeito que nenhuma medida corretiva será tão poderosa quanto o simples reconhecimento de que o viés político está presente. Há quase certamente limites para o grau em que somos capazes de transcender preconceitos pessoais.

O que podemos e devemos fazer é procurar a conscientização de nossas próprias limitações cognitivas. Isso, afinal, é a essência da humildade socrática.

Notas de rodapé:

  1. Anderson, Elizabeth (2013). Imperative of Integration. Edição reimpressa. Princeton University Press, p.13.
  2. Ibid, 14.
  3. O uso rotineiro de discriminação e violência de grupo para manter cristãos ortodoxos coptas, no Egito, socialmente em cheque é um bom exemplo de um dhimmitude no século XXI. Assim é a opressão permanente do Baha’i no Irã
  4. Yo’er, Bat (1996). The Dhimmi: Christians and Jews Under Islam. Traduzid do francês por David Maisal, Paul Fenton e David Littman. Farleigh Dickinson University Press, pp. 66, 186, 190-194.
  5. Yo’er, Bat (1996). The Decline of Eastern Christianity Under Islam. Traduzidos do francês por Miriam Kochan e Kavid Littman. Farleigh Dickinson University Press, pp. 77-79.
  6. Yo’er, Bat (1996). The Dhimmi: Christians and Jews Under Islam. Traduzido do francês por David Maisal, Paul Fenton e David Littman. Farleigh Dickinson University Press, pp. 63, 66-67.
  7. James and Stuart Rachels. (2010). The Elements of Moral Philosophy. 6ª edição. McGraw-Hill Education, p. 40.
  8. Wood, Allen W. (2007). Kantian Ethics. 1ª edição. Cambridge University Press, p. 229.
  9. Lynch, Michael (2012). In Praise of Reason: Why Rationality Matters for Democracy. The MIT Press, p. 12.
  10. Para ser preciso, Kantian Ethics de Wood foi utilizado em um curso “sanduíche” que incluía tanto estudantes de graduação e estudante de graduação avançada.

Spencer Case é doutorando em filosofia na Universidade do Colorado, Boulder. Ele é do exército americano e veterano da Guerra do Iraque e do Afeganistão e é aluno bolsista no Egito.

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Tradução: Rony Marques
Revisão: Denny Marcel e Eli Vieira

 

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