Aristóteles por vezes valorou uma coisa com respeito a seu “telos” – seu propósito, fim ou objetivo. O telos de uma faca é cortar. O telos de um médico é a saúde ou a cura. Qual é o telos da universidade?

A resposta mais óbvia é “a verdade” – a palavra aparece em muitos escudos de universidades. Mas, crescentemente, muitas das universidades de ponta dos Estados Unidos da América estão adotando a justiça social como seu telos, ou como um telos secundário e igual. Mas alguma instituição ou profissão pode ter dois telos (ou teloi)? O que acontece se entram em conflito entre si?

Como um psicólogo social que estuda a moralidade, observei esses dois telos entrarem cada vez mais em conflito durante meus 30 anos na academia. Os conflitos pareciam administráveis nos anos 1990. Mas a intensidade do conflito cresceu desde então, e ao mesmo tempo em que a diversidade política do corpo docente estava caindo, ao mesmo tempo em que a hostilidade partidária polarizada estava crescendo. Acredito que o conflito chegou a seu ápice no outono de 2015, quando manifestantes estudantis de 80 universidades exigiram que suas universidades se comprometessem mais e explicitamente com a justiça social, muitas vezes incluindo cursos e treinamento obrigatórios para todos em conteúdo e pespectivas da justiça social.

Agora que muitos reitores de universidades concordaram em implementar muitas das exigências, creio que o conflito entre a verdade a justiça social tenha se tornado provavelmente inadministrável. As universidades terão de escolher, e terão de ser explícitas em sua escolha, de forma que estudantes e docentes em potencial possam fazer uma escolha informada. As universidades que tentarem honrar ambos [os teloi] se verão cada vez mais em incoerência e conflito interno.

Por favor notem: eu não estou dizendo que um estudante individual não possa perseguir ambas as metas. Em minha palestra, abaixo, eu encorajo os estudantes a abraçarem a verdade como a única forma pela qual podem buscar o ativismo que melhorará efetivamente a justiça social. Mas uma instituição como uma universidade deve ter um e apenas um bem mais alto e inviolável. Também não estou negando que muitos estudantes encontrem indignidades, insultos e obstáculos sistêmicos por causa de sua raça, gênero ou identidade sexual. Eles encontram, e eu favoreço algum tipo de sistema de normas e preparação de calouros e corpo docente para a diversidade. Mas como argumentei em outra oportunidade, muitas das exigências mais comuns dos manifestantes provavelmente levarão a resultados indesejados e farão experiências de marginalização mais frequentes e dolorosas, não menos. Por que? Porque não são baseadas em evidências ou eficácia; as exigências não são restringidas por um compromisso absoluto com a verdade.

Enquanto observei o desenrolar dos eventos nos campi ao longo do ano passado, comecei a formular uma explicação do que vem acontecendo, contada de uma perspectiva da psicologia moral e social. Fui convidado a dar muitas palestras nos campi neste outono, e aceitei esses convites e oportunidades para contar a história a estudantes universitários atuais em Wellesley, SUNY New Paltz e na Duke. Até a palestra na Duke creio que desenvolvi a história bem o suficiente para espalhá-la pelo mundo, na esperança de que seja mostrada em muitos campi universitários. É longa (66 minutos). Mas é tão breve quanto posso fazê-la. Há muitas peças no quebra-cabeças, e eu tive de apresentar cada uma em ordem.

Aqui está a palestra. Um esquema e materiais adicionais estão abaixo.

Aqui está um link para a apresentação em powerpoint que usei na palestra. Professores podem tomá-la emprestada o quanto quiserem.

Esquema da palestra

Introdução:

Começo com duas citações:

“Os filósofos apenas interpretaram o mundo, de muitas formas; o objetivo é mudá-lo.” – Karl Marx, 1845

“Aquele que sabe apenas o seu lado do problema sabe pouco sobre ele. Suas razões podem ser boas, e pode ser que ninguém as consiga refutar. Mas se ele é igualmente incapaz de refutar as razões do lado oposto, se ele nem souber quais são elas, ele não tem base para preferir qualquer uma das duas opiniões…” – John Stuart Mill, 1859

Marx é o santo patrono do que eu chamarei de “Universidade da Justiça Social” [UJS], que é orientada em torno de mudar o mundo em parte pela derrubada de estruturas e privilégios. Ela vê a diversidade política como um obstáculo à ação. Mill é o santo patrono do que eu chamarei de “Universidade da Verdade” [UdV], que vê a verdade como um processo em que indivíduos falíveis desafiam o raciocínio enviesado e incompleto uns dos outros. No processo, todos se tornam mais espertos. A UdV morre quando se torna intelectualmente uniforme ou politicamente ortodoxa.

1. Telos

Cada profissão ou área tem um telos. Áreas interagem entre si construtivamente quando membros de cada área usam suas habilidades para ajudar membros de outra área a atingirem seu telos. Exemplo: Amazon, Google e Apple são empresas que eu amo porque me ajudaram a atingir meu telos (encontrar a verdade) como acadêmico. Mas áreas também podem interagir destrutivamente, quando injetam seu telos em outra área. Exemplo: negócios afetam a medicina quando médicos se tornam empresários que vêem pacientes como oportunidades para lucro. Defenderei que a justiça social às vezes injeta seu telos de atingir igualdade racial (e de outros tipos) em outras profissões, e quando o faz, esses profissionais traem seu telos.

2. Raciocínio Motivado

Um achado consistente sobre o raciocínio humano: se nós QUEREMOS acreditar em X, perguntamo-nos: Posso-Acreditar-Nisso?” Mas quando NÃO queremos acreditar numa proposição, perguntamo-nos: Devo-Acreditar-Nisso?” Isso também acontece com acadêmicos, com os seguintes resultados:

  •  Trabalhos acadêmicos realizados para apoiar uma agenda política quase sempre têm “sucesso”.
  • Um acadêmico raramente acredita que é enviesado.
  • Trabalhos acadêmicos motivados muitas vezes propagam falsidades agradáveis que não podem ser removidas de circulação, mesmo depois de mostradas falsas.
  • O controle de danos pode ser feito se pudermos contar com uma “desconfirmação institucionalizada” – a certeza de que outros acadêmicos, que não compartilham das nossas motivações, nos farão o favor de tentar desconfirmar nossas alegações.

Mas não podemos contar com “desconfirmação institucionalizada” mais porque mal sobraram conservadores ou libertários nas humanidades e ciências sociais (com a exceção da economia, que tem uma razão esquerda/direita de 3:1). É por isso que o Heterodox Academy foi fundado—para chamar por um tipo de diversidade que mais melhoraria a qualidade do trabalho acadêmico (ao menos se você favorecer Mill em vez de Marx).

3. Sacralidade

A humanidade evoluiu para o conflito tribal. Nesse caminho evoluímos um ótimo truque: nossa habilidade de forjar equipes girando em torno de objetos e princípios sagrados. Na academia nós tradicionalmente circulávamos em torno da verdade (ao menos no século XX, e não perfeitamente). Mas no século XXI, circulamos cada vez mais em torno de alguns grupos vitimados. Queremos protegê-los e ajudá-los e eliminar o preconceito contra eles. Queremos mudar o mundo com nosso trabalho acadêmico. Essa é uma meta admirável, mas essa nova forma secular de “louvor” a vítimas interagiu com outras tendências sociológicas para erigir uma “cultura da vitimização” em muitos campi, particularmente naqueles que mais são igualitários e politicamente uniformes. A cultura da vitimização dá origem à “dependência moral” nos próprios estudantes que tenta ajudar – os estudantes aprendem a apelar para terceiros (administradores) para resolver os seus conflitos em vez de aprenderem a lidar com conflitos por si mesmos.

4. Antifragilidade

“O que não me mata me fortalece”. Nietzsche estava certo, e o livro de Nasim Taleb, “Antifrágil”, explica por quê. As crianças precisam de milhares de horas de brincadeiras não supervisionadas e milhares de conflitos e desafios que resolvem sem ajuda de adultos para se tornarem adultos funcionais e independentes. Mas por causa de mudanças na criação americana de crianças que começaram nos anos 1980, e especialmente por causa de superproteção parental que decolou nos anos 1990 para a classes média e alta, elas não mais têm essas experiências.

Em vez disso, as crianças estão embaraçadas numa “cultura da segurança” que começa quando são jovens e agora vai até à universidade. Livros e palavras e palestrantes convidados são vistos como “perigosos” e até como manifestações de “violência”. Avisos de gatilho emocional [trigger warnings] e espaços seguros são necessários para proteger jovens frágeis do perigo e da violência. Mas tal cultura é incompatível com a diversidade política, uma vez que muitas idéias e palestrantes conservadores são rotulados como ameaçadores e banidos do campos e do currículo. Os estudantes que questionam o ethos político dominante se cansam com as reações hostis na sala de aula. Essa é uma das principais razões pelas quais as universidades devem escolher um só telos. Qualquer instituição que adotar a cultura da segurança não pode ter o tipo de diversidade de pontos de vista que Mill defendia como essencial à busca da verdade.

5. Blasfêmia

Na Universidade da Verdade não existe blasfêmia. Ideias ruins são refutadas, não punidas. Mas na Universidade da Justiça Social, há muitas leis da blasfêmia – há ideias, teorias, fatos e autores que não se pode usar. Isso dificulta fazer boa ciência social sobre tópicos politicamente valenciados. A ciência social é difícil o suficiente como é, com problemas grandes e complicados resultando de muitas forças causais interagentes. Mas na UJS muitas das ferramentas explicativas mais poderosas são simplesmente banidas.

6. Correlação

Todos os cientistas sociais sabem que correlação não implica causa. Mas e se houver correlação entre uma categoria demográfica (p. ex., raça ou gênero) e um resultado do mundo real (p. ex., emprego em empresas de tecnologia, ou no corpo docente de departamentos de ciência, tecnologia, engenharia e matemática)? Na UJS, ensinam-lhe a inferir causalidade: racismo ou sexismo sistêmicos. Mostro [na palestra] um exemplo em que esse ensino leva a conclusões demonstravelmente errôneas. Na UdV, pelo contrário, ensinam-lhe que “resultados díspares não implicam tratamentos díspares”. (Resultados díspares são um convite a procurar mais de perto por tratamento díspar, que é às vezes a causa da disparidade, às vezes não é.)

7. Justiça

Parece que há dois principais tipos de justiça que ativistas estão buscando: achar e erradicar tratamento desigual (que é sempre uma boa coisa a se fazer, e que nunca conflita com a verdade), e achar e erradicar resultados desiguais, sem consideração a entradas desiguais ou terceiras variáveis. É essa segunda parte que causa todos os problemas, todos os conflitos com a verdade. No mundo real, há muitas disparidades nas entradas, mas qualquer um que mencionar tais disparidades no campus é culpado de blasfêmia e deve ser punido. Dou um exemplo de como a tentativa de eliminar disparidades de resultados pode forçar as pessoas a desconsiderar tanto a verdade quanto a justiça. Isso não é forma de fazer uma universidade funcionar.

8. Cisma

Dados os argumentos das seções 1-7, penso que é claro que nenhuma universidade pode ter a Verdade e a Justiça Social como telos duplos. Cada universidade deve escolher um. Mostro que a Universidade Brown assumiu a posição de liderança para a UJS [Universidade da Justiça Social], e que a Universidade de Chicago assumiu a posição de liderança para a UdV [Universidade da Verdade]. (Isso foi confirmado no ranking do novo guia da Heterodox Academy de universidades.)

Encerro pedindo aos estudantes em todos os campi dos EUA a levantar a questão entre si: que caminho querem que sua universidade tome? Ofereço uma ferramenta específica para levantar a questão: a Iniciativa da Heterodox Academy. Se os estudantes em todo campus propusessem essas três soluções específicas à sua administração discente, talvez como base para um referendo em todo o campus, então os estudantes poderiam deixar clara a sua escolha para o corpo docente e a administração. Os estudantes mandariam um sinal claro sobre se querem mais ou menos diversidade de pontos de vista no campus. Assim, ao menos uma discussão no campus sobre Marx versus Mill seria uma conversa mais construtiva a se ter.

***

Por Jonathan Haidt, 53, psicólogo social e professor de liderança ética na Universidade de Nova York. Em Heterodox Academy, 21 de outubro de 2016.

Tradução e revisão: Eli Vieira

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