Arte fotográfica sobre como seria a chamada Terra Plana. Na imagem, se vê o "fim do mundo" como sendo uma queda infinita de água.

Cientistas descobriram o que faz as pessoas rejeitarem a ciência, e não é ignorância

Muita coisa aconteceu em 2016, mas uma das maiores mudanças culturais foi o surgimento das chamadas fake news (notícias falsas) — onde alegações sem quaisquer provas (por exemplo, de que a Terra é plana) são compartilhadas como sendo fatos comparáveis a conclusões baseadas em evidências, resultados revisados por pares (por exemplo, a conclusão de que a mudança climática está acontecendo).

Pesquisadores cunharam essa tendência como sendo um ‘movimento anti-Iluminismo‘, e tem havido muita frustração sobre para quem apontar o dedo e do que ou de quem é a culpa. Mas uma equipe de psicólogos identificou alguns dos principais fatores que podem fazer as pessoas rejeitarem a ciência — e nada tem a ver com o quão são cultas ou inteligentes.

Na verdade, os pesquisadores descobriram que as pessoas que rejeitam o consenso científico sobre temas tais como as mudanças climáticas, a segurança da vacinação e a evolução são geralmente tão interessadas na ciência e tão bem educadas como o resto de nós.

A questão é que, quando se trata de fatos, as pessoas pensam mais como advogados do que como cientistas, o que significa que eles escolhem os fatos e estudos que apoiam o que elas já acreditam ser verdade.

Então, se alguém não acha que os humanos estão causando as mudanças climáticas, acabará ignorando as centenas de estudos que apoiam essa conclusão, mas se fixará no único estudo encontrado que lança dúvidas sobre este ponto de vista. Isto é também conhecido como viés cognitivo.

“Descobrimos que as pessoas ignoram os fatos para proteger todos os tipos de crença, incluindo sua crença religiosa, suas convicções políticas e mesmo simples crenças pessoais como se elas fossem boas em escolher um navegador da web”, disse um dos pesquisadores, Troy Campbell, da Universidade de Oregon.

“As pessoas tratam fatos como relevantes muito mais quando os fatos tendem a apoiar suas opiniões. Quando os fatos estão contra suas opiniões, elas não necessariamente os negam, mas dizem que os fatos são menos relevantes.”

Esta conclusão foi baseada em uma série de novas entrevistas, bem como em uma meta-análise da pesquisa que foi publicada sobre o tema e foi apresentada em um simpósio convocado no fim de semana, como parte da convenção anual da Sociedade pela Personalidade e Psicologia Social, em San Antonio.

O objetivo era descobrir o que está acontecendo de errado com a comunicação científica em 2017, e o que podemos fazer para consertá-la.

A pesquisa ainda não foi publicada, então não é conclusiva, mas os resultados sugerem que simplesmente se concentrar nas provas, fatos e dados não é o suficiente para mudar a cabeça de alguém sobre um determinado tópico, de forma que as pessoas provavelmente terão seus próprios ‘fatos’ para rebatê-los.

“Onde há conflitos sobre riscos sociais — das mudanças climáticas à segurança da energia nuclear, até impactos das leis de controle de armas —, ambos os lados invocam o manto da ciência,” disse um membro da equipe do estudo, Dan Kahan, da Universidade de Yale.

Em vez disso, os pesquisadores recomendam investigar as ‘raízes’ da falta de vontade do povo de aceitar o consenso científico e tentam encontrar um terreno comum para introduzir novas ideias.

Então, de onde vem essa negação da ciência? Uma grande parte do problema, os pesquisadores descobriram, é que as pessoas associam conclusões científicas a filiações políticas ou sociais.

Uma nova pesquisa conduzida por Kahan mostrou que as pessoas têm realmente sempre escolhido os fatos quando se trata de ciência — o que não é novidade. Mas não foi um problema tão grande no passado, porque conclusões científicas geralmente foram estabelecidas entre os líderes políticos e culturais e promovidas como sendo do interesse público.

Agora, fatos científicos estão sendo empunhados como armas na luta pela supremacia cultural, Kahan disse à Melissa Healy no LA Times, e o resultado é um “ambiente de comunicação científica poluído”.

Então, como podemos fazer melhor?

“Ao invés de assumir as atitudes superficiais do povo, adaptar a mensagem para que ela se alinhe com a motivação deles”, disse Hornsey. “Então com os céticos das mudanças climáticas, por exemplo, você descobre aquilo com que eles podem concordar e, em seguida, insere mensagens sobre o clima na tentativa de alinhar com aquelas.”

Os pesquisadores ainda estão reunindo dados para publicar em revistas — nas quais há revisão por pares — sobre suas descobertas, mas enquanto isso eles apresentaram seus trabalhos para a comunidade científica para mais divulgação e discussão, entretanto.

Hornsey disse ao LA Times que os riscos são muito altos para continuar a ignorar o ‘movimento anti-Iluminismo’.

“Movimentos anti-vacina custam vidas”, disse Hornsey. “O ceticismo quanto às mudanças climáticas retarda a resposta global à maior ameaça social, econômica e ecológica do nosso tempo”.

“Nós crescemos numa era que presumiu que a razão e as provas são as maneiras de entender questões importantes; não o medo, interesses escusos, tradição ou fé”, acrescentou.

“Mas a ascensão do ceticismo quanto à antropogenia das mudanças climáticas e o movimento anti-vacinação nos fizeram perceber que esses valores do Iluminismo estão sob ataque.”


Por Fiona MacDonald, em Science Alert, 23 de janeiro de 2017.

Tradução: Alysson Augusto
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