“Este livro nasceu do que eu só posso descrever como uma profunda frustração pessoal com a cultura de trabalho da ciência psicológica… As janelas estão sujas e opacas. O telhado tem goteiras e não vai conseguir manter a chuva de fora por muito tempo. Monstros vivem nas catacumbas… Depois de passar 15 anos na psicologia e em sua prima, a neurociência cognitiva, cheguei mesmo assim a uma conclusão aterradora. Se continuarmos assim, então a psicologia vai perder prestígio como ciência e poderia até mesmo desaparecer. Se ignorarmos os sinais de alerta agora, em cem anos ou menos a psicologia poderá ser considerada como mais uma numa longa linha de indulgências acadêmicas bizarras, da mesma forma como agora pensamos da alquimia e da frenologia. Nossos descendentes sorrirão tolerantemente diante desse bolsão de antiguidade acadêmica, balançarão a cabeça sabiamente uns para os outros sobre a protociência que foi a psicologia, e concluir que fomos sujeitos às “limitações daquele tempo”. Obviamente, poucas ciências têm chance de sobreviver ao julgamento da história, mas é pelas nossas práticas de pesquisa, em vez de pelas descobertas, que a psicologia será julgada mais impiedosamente. E esse julgamento será o seguinte: como tantas outras ciências “moles”, nós nos encontramos presos numa cultura em que a aparência de ser ciência foi vista como uma substituição adequada para a prática de fazer ciência.”
 
Sobre a crise da replicação dos últimos anos, em que vários experimentos famosos e muito citados da psicologia falharam em dar nos mesmos resultados quando executados por pesquisadores diferentes:
 
“A Dra. Simone Schnall, da Universidade de Cambridge, defendeu que seu trabalho sobre ‘social priming’ foi tratado injustamente e ‘difamado’. Numa declaração pública notável, Schnall alegou que ela sofreu bullying por parte dos pesquisadores que buscaram (sem sucesso) replicar seus achados… Enquanto muitos psicólogos ficaram embasbacados com a resposta dela, alguns psicólogos americanos proeminentes expressaram apoio à sua posição. Dan Gilbert, da Universidade de Harvard, comparou a batalha de Schall à situação de Rosa Parks, e se referiu a alguns dos psicólogos que conduziram ou apoiaram as replicações como “valentões”, “polícia da replicação”, “de segunda categoria”, “macartistas” e “os soldados escolhidos de Deus numa grande jihad”. Outros acusaram os ditos replicadores de serem “nazistas”, “fascistas” e “máfia”. Em vez de ver a replicação como uma parte intrínseca da melhor prática científica, Gilbert e seus apoiadores a pintaram como uma ameaça à reputação dos (presumidamente brilhantes) pesquisadores que publicam descobertas irreproduzíveis, sufocando sua criatividade e inovação… Em 2014, Jason Mitchell, da Universidade de Harvard, alegou que “a preocupação com replicações que falharam na psicologia social é em grande medida sem sentido, porque experimentos sem sucesso não têm valor científico significativo”. Quando estourou a crise de replicação (Repligate), o Nobel Daniel Kahneman sugeriu uma nova regra em que tentativas de replicação deveriam ser ‘proibidas’ ao menos que os pesquisadores conduzindo a replicação consultassem antes os autores do trabalho original. Kahneman disse que ‘os autores, cujo trabalho e reputação estão em jogo, deveriam ter o direito de participar como conselheiros na replicação de sua pesquisa’. …Para muitos psicólogos, o remédio de Kahneman é pior que a doença.”

Por Chris Chambers, em The Seven Deadly Sins of Psychology. Princeton University Press, 2017.

Tradução: Eli Vieira
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