Usando discursos contraditórios como uma estratégia política

por Stephen Hicks*, em seu livro Explaining Postmodernism, 2004 (e edição expandida 2011).

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No discurso pós-moderno, a verdade é rejeitada explicitamente e a coerência pode ser um fenômeno raro. Considere os seguintes pares de alegações.

  • Por um lado, toda a verdade é relativa; por outro lado, o pós-modernismo mostra como as coisas realmente são.
  • Por um lado, todas as culturas são igualmente merecedoras de respeito; por outro lado, a cultura ocidental é singularmente destrutiva e má.
  • Os valores são subjetivos – mas o sexismo e o racismo são realmente maléficos.
  • A tecnologia é má e destrutiva – e é injusto que algumas pessoas tenham mais tecnologia que outras.
  • A tolerância é boa e a dominação é ruim – mas quando os pós-modernos estão no poder, o politicamente correto toma conta.

Há um padrão em comum aqui: o subjetivismo e o relativismo num fôlego, o absolutismo dogmático no próximo**. Os pós-modernistas estão bem cientes das contradições – especialmente porque seus oponentes se esbaldam em apontá-las em toda oportunidade. E, é claro, um pós-moderno pode responder desdenhosamente citando Hegel – “Essas são contradições meramente aristotélicas” – mas uma coisa é dizer isso, e outra muito diferente é sustentar psicologicamente as contradições hegelianas.

O padrão então levanta a questão sobre qual lado da contradição é mais profundo para o pós-modernismo. Seria o caso que os pós-modernos são realmente comprometidos com o relativismo, mas ocasionalmente caem no absolutismo? Ou seriam os compromissos absolutistas mais profundos e o relativismo uma cobertura retórica?

Considere mais três exemplos, dessa vez de choques entre teoria pós-moderna e fato histórico.

  • Os pós-modernistas dizem que o ocidente é profundamente racista, mas sabem muito bem que o ocidente deu um fim à escravidão pela primeira vez na história, e que é apenas em lugares onde ideias ocidentais adentraram que as ideias racistas estão na defensiva.
  • Eles dizem que o ocidente é profundamente sexista, mas sabem muito bem que mulheres ocidentais foram as primeiras a ganhar voto, direitos contratuais e oportunidades que a maioria das mulheres no mundo ainda não têm.
  • Eles dizem que os países ocidentais capitalistas são cruéis com seus membros mais pobres, subjugando-os e ficando ricos às suas custas, mas eles sabem muito bem que os pobres no ocidente são muito mais ricos que os pobres em qualquer outro lugar, tanto em termos de bens materiais quanto em oportunidades para melhorar suas condições.

Para explicar a contradição entre o relativismo e a política absolutista, há três possibilidades.

  1. A primeira possibilidade é que o relativismo é primário e a política absolutista é secundária. Enquanto filósofos, os pós-modernistas incentivam o relativismo, mas enquanto indivíduos em particular eles por acaso acreditam em alguma versão particular de política absolutista.
  2. A segunda possibilidade é que a política absolutista é primária, enquanto o relativismo é uma estratégia retórica que é usada para avançar essa política.
  3. A terceira possibilidade é que ambos, relativismo e absolutismo, coexistem no pós-modernismo, mas as contradições entre eles simplesmente não são importantes psicologicamente para aqueles que as têm.

A primeira opção pode ser dispensada como uma possibilidade. O subjetivismo e seu consequente relativismo não podem ser primários no pós-modernismo por causa da uniformidade da política do pós-modernismo. Se a subjetividade e o relativismo fossem primários, então os pós-modernos estariam adotando posições políticas ao longo do espectro político, e isso simplesmente não está acontecendo. O pós-modernismo é, portanto, primariamente um movimento político, e um ramo da política que só recentemente veio para o relativismo.***

Stephen Hicks, 55, é um filósofo canadense-americano e leciona na Rockford University, EUA. Confira a página do livro Explaining Postmodernism.

** N. do T.: “Absolutismo”, aqui, significa apenas o contrário de relativismo, ou seja, que não é verdade que os valores são relativos à cultura e que portanto há ao menos alguns valores que são universais.

*** N. do T.: Segundo Stephen Hicks, os pensadores que contribuíram para o pós-modernismo, em todo ou em parte, são Rousseau, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Kierkegaard, Heidegger, Marcuse, Foucault, Lyotard, Derrida e Rorty, entre outros. Todos esses, às vezes explicitamente, expressaram resistência ao avanço da razão sobre algum assunto, o que faz de suas obras um movimento contra-iluminista. Uma hipótese avançada por Hicks é que alguns saltaram às teses principais do pós-modernismo (anti-realismo, subjetivismo, relativismo etc.) por terem uma ‘crise de fé’ com o socialismo e a ineficácia geral de movimentos políticos socialistas, da queda da União Soviética aos movimentos ‘terroristas’ da década de 1960.

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Tradução, revisão e ilustração: Eli Vieira
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