‘Neurossexismo’: homens não são de Marte, mulheres não são de Vênus e Cordelia Fine não faz jus à neurociência

Resenha crítica de “Homens não são de Marte, Mulheres não são de Vênus: Como a nossa mente, a sociedade e o neurossexismo criam a diferença entre os sexos”, de Cordelia Fine (Cultrix, 2012).

Por Simon Baron-Cohen*, em The Psychologist

O novo livro de Cordelia Fine é um novo ataque ousado à ideia de que há quaisquer diferenças essenciais de sexo na mente e no cérebro humanos. Sua mal disfarçada agenda política nesse longo livro acadêmico é mostrar que qualquer diferença de sexo encontrada em humanos se pode fazer desaparecer! Como? Simplesmente por uma manipulação rápida de uma variável sócio-psicológica. Se, por exemplo, homens, em média, tiram maior nota num teste de matemática ou num teste de rotação (espacial) mental, então simplesmente falar para as mulheres antes de testar que elas em média se saem melhor em tais testes pode não apenas levar mulheres a de fato se saírem melhor do que de praxe, mas pode fazer a diferença de sexo desaparecer.

Esses são apenas alguns de dúzias de estudos em psicologia social que Fine resenha, e o argumento dela tem uma simplicidade atraente: se mulheres e homens podem tirar notas iguais em áreas onde diferenças de sexo robustas foram relatadas, então certamente essas não constituem diferenças de sexo essenciais. Devem ser em vez disso um resultado de séculos de sexismo que tentaram retratar as mulheres como menos inteligentes que os homens. Fine vai além para defender que qualquer neurocientista cognitivo que sugerir que pode haver diferenças essenciais de sexo na mente humana está apenas perpetuando essas atitudes sexistas históricas. E ela cunha uma nova palavra para a exploração de diferenças de sexo na mente por cientistas atuais: ‘neurossexismo’. Ela lota seu livro livremente com citações de sexistas do século XVIII e XIX, como se cientistas atuais no campo de diferenças sexuais não fossem diferentes daqueles que desejavam privar mulheres do voto, deixá-las confinadas em seus domicílios, e como se dissesse ‘vejam: nada mudou’.

Então, o que há de bom e o que há de errado com seu argumento fundamental? O que é bom é que o livro examina o papel de fatores sócio-psicológicos na forma como homens e mulheres se saem em testes psicológicos, e essa é uma contribuição bem-vinda. Como um dos psicólogos que Fine tem em mente, poderia ser surpresa para ela que eu concordo plenamente que variáveis sociais são importantes e sem dúvida têm papeis chave em moldar o nosso comportamento. De fato, os tipos de efeitos que Fine enfatiza podem ser vistos como demonstrações de senso comum de que se você fizer alguém se sentir mais confiante, essa pessoa se sai melhor num teste; ou se você mudar as expectativas da pessoa sobre como ela se sairá, sua performance é influenciada por suas expectativas. Devemos agradecer à Fine por lembrar aos leitores da importância de fatores sociais influenciando as diferenças de sexo.

Mas mostrar que a manipulação de variáveis sociais muda o comportamento não prova que foram essas próprias variáveis sociais que causaram as diferenças de sexo espontâneas originais. Manipulações sociais são formas de intervenção, e não devemos nos deixar levar pela velha falácia de assumir que a ausência de tratamento é a causa de uma condição. Aspirina pode fazer dores de cabeça sumirem, mas as dores de cabeça não são necessariamente causadas pela ausência de aspirina. Quando eu – e suspeito que muitos outros cientistas contemporâneos – começo a discordar de Fine é quando ela nega de forma estridente e extremada o papel que a biologia poderia ter em dar origem a quaisquer diferenças de sexo na mente e no cérebro. Meu próprio livro The Essential Difference foi, creio, bem moderado ao sugerir que as diferenças de sexo são resultado tanto de influências sociais quanto biológicas, e posso dizer o mesmo do excelente livro Brain Gender, de Melissa Hines. Mas, para Fine, mesmo um traço de influência biológica é biologia demais.

Então como é que ela lida com descobertas experimentais que mostram influências pré-natais ou neonatais sobre as diferenças de sexo? Aqui, sua principal estratégia (ao argumentar que é possível fazer diferenças de sexo sumirem usando o truque de manipular variáveis sócio-psicológicas) simplesmente não se aplica. Então ela é forçada a adotar uma estratégia diferente, que é dissecar os experimentos que tencionam mostrar influências pré-natais ou neonatais para revelar que tais experimentos são falhos e portanto incorretos em suas conclusões. Este é o último recurso de Fine para tentar afastar as diferenças de sexo.

Sendo um coautor de alguns desses experimentos, eu posso examinar suas críticas com o benefício de conhecer de perto os estudos que ela discute, e encontrei erros em suas críticas. Por exemplo, em nosso estudo com recém-nascidos (Connellan et al. 2001), que mostrou que meninas olham por mais tempo para uma face humana e que meninos olham por mais tempo para um móbile mecânico, Fine tenta desmantelar essa evidência dizendo que nós deveríamos ter apresentado ambos os estímulos ao mesmo tempo, em vez de um de cada vez, dado que um de cada vez poderia ter lvado a efeitos de cansaço. No entanto, ela passa por cima do fato de que foi por essa mesma razão que nós incluímos um contrapeso no projeto experimental, para evitar qualquer risco de tais efeitos de ordem de exibição.

Em segundo lugar, ela argumenta que o experimentador pode não ter sido totalmente cego para o sexo do bebê porque poderia haver cartões de ‘parabenização’ em torno do berço (‘Parabéns! É um menino!’). Entretanto, ela passa por cima do fato de que foi precisamente por essa razão que nós incluímos uma bancada de avaliadores independentes que codificaram os vídeos apenas da região dos olhos da face dos bebês, a partir da qual é virtualmente impossível julgar o sexo do bebê. Fine tem razão que nosso estudo com bebês recém-nascidos precisa ser replicado independentemente, dado sua importância em estabelecer uma diferença de sexo na mente humana num ponto do desenvolvimento anterior à cultura ter tido uma chance de ter qualquer influência. Mas é um exemplo de onde o conhecimento acadêmico de Fine mostra algumas limitações, onde detalhes passam batidos para que as coisas se encaixem em sua teoria de diferenças de sexo humanas livres de biologia.

Embora todos gostaríamos de acreditar no determinismo social extremo de Fine, esforços para explicar (puramente em termos de variáveis sociais) por que condições de neurodesenvolvimento como o autismo, dificuldades de aprendizado e atraso de linguagem afetam mais meninos que meninas nos levam à posição ridícula de botar a culpa dessas condições em fatores sexistas da sociedade (ou dos pais). E o determinismo social extremo tem grandes dificuldades de explicar por que o canhotismo é mais comum em meninos (12%) que em meninas (8%). Pelo contrário, uma posição moderada que reconhece que – acima do papel importante do ambiente social – a biologia também pode desempenhar um pequeno papel abre as portas para toda uma sorte de linhas de pesquisa (por exemplo, sobre os efeitos de hormônios pré-natais e genes). O autismo se concentra em famílias e muitos genes foram associados, e pode ser que alguns desses sejam relevantes para explicar por que ele é ligado ao sexo. Também tem me impressionado ver correlações persistentes entre níveis de testosterona amniótica fetal (TF) e medidas de desenvolvimento social, ao longo de 10 anos, em estudos de longo prazo com uma coorte de crianças de desenvolvimento típico que temos seguido, cujas mães todas fizeram amniocentese durante a gestação (Baron-Cohen et al. 2005). Um determinismo biológico extremo seria igualmente ridículo, pois não há dúvidas que variáveis sociais podem amplificar e interagir com tais efeitos biológicos.

Fine, é claro, se sente na obrigação de tentar achar defeito nesses estudos com hormônios, desafiando, por exemplo, se TF no líquido amniótico reflete TF no cérebro. Novamente ela ignora que se nós pudéssemos medir TF no cérebro de uma forma ética, nós o faríamos. TF no fluido amniótico é a opção mais ética, e parece estar nos mostrando que TF está associada a diferenças de sexo na mente.

Em última análise, para mim, a maior fraqueza da alegação de neurossexismo de Fine é a mistura equivocada de ciência com política. Lê-se seu livro como uma polêmica sobre o viés político implícito por trás da ciência das diferenças de sexo. No entanto, isso ignora que você pode ser um(a) cientista interessado(a) na natureza das diferenças de sexo enquanto apoia claramente oportunidades iguais e se opõe firmemente a todas as formas de discriminação na sociedade.  Uma empreitada não precisa ter a ver com a outra. Fundir ciência com política é, na minha opinião, infundado.

 

* Simon Baron-Cohen é professor de psicopatologia do desenvolvimento e diretor do Centro de Pesquisa em Autismo na Universidade de Cambridge, Reino Unido. Baron-Cohen trabalha com a hipótese de que o autismo pode ser uma forma extrema do que ele chama de “cérebro masculino”.

Referências
Baron-Cohen, S., Knickmeyer, R. & Belmonte, M. (2005). Sex differences in the brain: Implications for explaining autism. Science, 310, 819–823.

Connellan, J., Baron-Cohen, S., Wheelwright, S. et al. (2000). Sex differences in human neonatal social perception. Infant Behavior and Development, 23, 113–118.

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Tradução: Eli Vieira

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