Como alimentar um mundo faminto

 

Editorial da Nature, 28/07/2010.

Produzir alimento suficiente para a população mundial de 2050 será fácil, mas fazer isso com um custo aceitável ao planeta dependerá de pesquisas em diversas áreas, desde sementes de alta tecnologia até práticas agrícolas arcaicas.

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(CC) Jonathan McIntosh – Wikimedia Commons

Com a expectativa de que a população mundial passe dos 6,8 bilhões atuais para 9,1 bilhões em 2050, um certo alarmismo malthusiano foi instalado : como alimentar todas essas bocas extras? A população do mundo mais do que duplicou, passando de 3 a 6 bilhões entre 1961 e 2007, mas a produção agrícola manteve o ritmo – e projeções atuais sugerem que ele deve continuar assim. Certamente, as alterações climáticas adicionam um alto grau de incerteza às projeções de produção agrícola, mas isso apenas evidencia a importância do monitoramento e da pesquisa para refinar essas previsões. Além disso, nas palavras de um oficial da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), a tarefa de alimentar a população mundial em 2050, por si só, parece uma tarefa “fácil” .

Fácil, diga-se, se o mundo criar novas faixas de terra, aplicar ainda mais fertilizantes e pesticidas e esgotar mais reservas de águas subterrâneas, já escassas. Mas limpar centenas de milhares de hectares de terras selvagens – já que a maior parte da terra que seria colocada em uso está na América Latina e na África – enquanto se expande a atual agricultura, ambientalmente destrutiva e de uso intensivo de recursos naturais, parece uma opção ruim. É aí que está o verdadeiro desafio nas próximas décadas: como expandir a produção agrícola maciçamente sem aumentar em muito a quantidade de terra utilizada.

Na verdade, é necessária uma segunda Revolução Verde – o que a Royal Society britânica acertadamente descreve como a “intensificação sustentável da agricultura global”. Tal revolução exigirá um realinhamento generalizado das prioridades na pesquisa agrícola. Há uma necessidade urgente de novas variedades de culturas que ofereçam rendimentos maiores e demandem menos água, fertilizantes e outros insumos – sementes criadas, por exemplo, por meio da pesquisa, há muito tempo negligenciada, em modificação de raízes – e de culturas que sejam mais resistentes à seca, calor, pragas e inundações. Igualmente importante é a pesquisa volta à tecnologia menos avançada, como a rotação de culturas, a criação mista de animais e plantas na agricultura familiar, o manejo do solo e os resíduos de contenção. (Entre 1/4 e 1/3 dos alimentos produzidos no mundo inteiro se perde ou estraga.)

As nações em desenvolvimento poderiam obter ganhos significativos na produtividade por meio de uma melhor utilização das tecnologias e práticas modernas. Isso, no entanto, exige dinheiro: a FAO estima que, para atender à população de 2050, os investimentos em toda a cadeia agrícola no mundo em desenvolvimento devem dobrar para US$ 83 bilhões por ano. A maior parte desse dinheiro deve ir para a melhoria da infraestrutura agrícola, desde a produção até o armazenamento e processamento. Na África, a falta de estradas também dificulta a produtividade agrícola, encarecendo e dificultando o acesso dos agricultores a fertilizantes sintéticos. Além disso, a pauta de pesquisa precisa estar focada nas necessidades dos países mais pobres e com recursos limitados, onde vive a maioria da população do mundo e o crescimento populacional será maior nas próximas décadas. Acima de tudo, uma reinvenção agrícola exige uma abordagem multidisciplinar envolvendo não somente biólogos, agrônomos e agricultores, mas também ecologistas, tomadores de decisões políticas e cientistas sociais.

Para dar o devido reconhecimento, os cientistas agrícolas do mundo já estão adotando uma visão bem mais abrangente. Em março de 2010, por exemplo, eles se reuniram na primeira Conferência Mundial sobre a Investigação Agrícola para o Desenvolvimento, em Montpellier, na França, para fazer um realinhamento das agendas de investigação e ajudar a atender as necessidades dos agricultores nos países pobres. No entanto, estes planos não darão frutos a menos que recebam consideravelmente mais apoio de autoridades políticas e de financiadores.

O aumento dos gastos públicos em pesquisa agrícola teve seu ápice na década de 1970 e vem minguando desde então. Atualmente, é em grande parte estável em países ricos e vem caindo em alguns países da África subsaariana, onde as necessidades alimentares estão entre as maiores do mundo. As grandes exceções são a China, onde os gastos têm crescido exponencialmente na última década, e, em menor medida, a Índia e o Brasil. Estes três países parecem prestes a se tornar os principais fornecedores de tecnologias e conhecimento científico relevantes para os países mais pobres. No entanto, os países ricos também têm uma responsabilidade, e as demandas de cientistas por aumentos significativos nos gastos públicos em pesquisa agrícola que seja mais diretamente relevante para o mundo em desenvolvimento são mais do que justificáveis.

O setor privado também tem um papel importante a desempenhar. No passado, empresas do setor de agrobiotecnologia estiveram centradas, principalmente, nos lucrativos mercados agrícolas de países ricos, nos quais a pesquisa do setor privado responde por mais da metade de toda a investigação na área. Recentemente, no entanto, elas começaram a se engajar em parcerias público-privadas para gerar culturas que atendam às necessidades dos países mais pobres. Tal movimento reflete o surgimento, mais de uma década atrás, de parcerias públicas com empresas farmacêuticas para enfrentar uma falha de mercado semelhante: o desenvolvimento de medicamentos e vacinas para doenças negligenciadas. Como tal, ele é bem-vindo e deve ser expandido.

Culturas geneticamente modificadas são uma das principais ferramentas da agricultura sustentável, junto a técnicas tradicionais de [melhoramento por] reprodução. No entanto, elas não são a solução milagrosa para a fome no mundo, apesar de muitos de seus defensores dizerem o contrário. Na prática, a primeira geração de transgênicos tem sido, em grande parte, irrelevante para os países pobres. Superestimar tais benefícios só deve aumentar a desconfiança do público em relação aos organismos geneticamente modificados, uma vez que isso pode ser encarado como uma confirmação de noções pré-concebidas sobre a privatização e a monopolização da agricultura e o foco nos lucros.

A ciência e a tecnologia tampouco são, por si sós, uma solução para a fome no mundo. A pobreza, e não a falta de produção de alimentos, é a origem real. O mundo atual produz alimento mais do que suficiente, mas cerca de 1 bilhão de pessoas ainda passa fome porque não pode pagar por ele. A crise alimentar de 2008, que levou cerca de 100 milhões de pessoas à fome, foi mais resultado de uma volatilidade do mercado – que causou fortes aumentos nos preços dos alimentos e provocou rebeliões em diversos países – do que de uma escassez de alimentos, com causas que vão muito além de oferta e demanda. A economia pode afetar a oferta de alimentos de outras formas. Os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) pagam subsídios salariais a seus agricultores, chegando a cerca de US$ 1 bilhão por dia, o que dificulta que agricultores em países em desenvolvimento conquistem uma posição nos mercados mundiais.

Ainda assim, a pesquisa pode ter um impacto decisivo ao tornar possível uma agricultura sustentável e produtiva – uma receita garantida (assim como o tratamento de doenças negligenciadas) para a criação de um círculo virtuoso que tire comunidades da pobreza.

 

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Tradução: Amanda Breitsameter
Revisão: Eli Vieira

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