A Doutrina Totalitária dos ‘Justiceiros Sociais’

por Cathy Young*, no Observer, 2 de fevereiro de 2016.

O movimento moderno da justiça social, ou o novo “politicamente correto”, retornou aos holofotes no ano passado. Protestos de estudantes varreram os campi com demandas muitas vezes focadas em expurgar o crimepensamento – levando a debates acalorados sobre se esse movimento é um autoritarismo pseudoprogressista perigoso ou um esforço há muito esperado para atingir a justiça para todos. Um texto de retrospectiva do ano no The Daily Dot em meados de dezembro proclamou que 2015 foi “o ano do justiceiro social”.

O autor do texto, Matthew Rozsa, estudante de pós-graduação e colunista político, louvou essa tendência e exortou os liberais [no sentido americano] a “adotar o termo”. Mas as realizações que ele invoca são, como gosta de dizer a turma da justiça social, problemáticas. Seu Exemplo nº 1, a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, na verdade teve pouco a ver com o movimento atual de justiça social; foi o resultado de duas décadas de um ativismo muito diferente e pragmático que se focou numa meta clara – o direito legal ao casamento – e enfatizou a igualdade, não a identidade gay. E o #blacklivesmatter [hashtag que diz “vidas negras importam”], também um movimento com um foco específico – violência policial contra afro-americanos, foi sem dúvida mais prejudicado que ajudado pelo dogma PC [politicamente correto] que suprime a discussão de problemas espinhosos como o crime de negros contra negros e ataca o discurso discordante “insensível” (manifestantes do Amherst College exigiram ação disciplinar contra estudantes que fizeram cartazes dizendo “todas as vidas importam”).

A maioria dos americanos apoiam a igualdade de gênero, acreditam que pessoas transgêneros devem viver como quiserem e rejeitam ódio anti-muçulmanos. Mas os justiceiros sociais transformaram essas causas em paródias perversas de si mesmas.

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Um dos rotineiros policiamentos de linguagem de justiceiros sociais. Via AJS .

Infelizmente, os outros exemplos do sr. Rozsa da “justiça social” em ação – o renascimento do feminismo, a nova visibilidade de questões de transgêneros e a oposição à “islamofobia” – estão indiscutivelmente no território do desastre. Não que haja qualquer coisa errada com os princípios: a maioria dos americanos apoiam a igualdade de gênero, acreditam que pessoas transgêneros devem viver como quiserem e rejeitam ódio anti-muçulmanos. Mas os justiceiros sociais transformaram essas causas em paródias perversas de si mesmas. Seu feminismo faz choradeira contra homens se sentando com as pernas abertas no transporte público, busca “espaços seguros” livres de discordância e grita “opressão” contra a preocupação a respeito dos riscos de saúde da obesidade. Sua defesa de transgêneros exige respeito por identidades de gênero customizadas com pronomes pessoais que podem mudar por capricho e crucifica um cineasta devotadamente progressista por uma piada “transfóbica” que presume que personagens femininas são anatomicamente femininas. Sua anti-islamofobia descarta críticas feministas do islamismo conservador e culpa jornalistas assassinados por publicar charges de Maomé por sua própria vitimização.

Os justiceiros sociais de 2015 apoiaram algumas causas dignas? Claro. Mas muito de sua paixão vai para o policiamento de linguagem e cultura, direcionado a crimes sem vítima que violam seus tabus morais.

Considerem o protesto do ano passado contra uma exibição no Museu de Belas Artes de Boston que permitia a seus visitantes experimentar um kimono: os ativistas atacaram isso como “apropriação cultural” e imperialismo racista, para o espanto de nipo-americanos e funcionários do consulado japonês no local. Ou considere o clamor por causa de uma camiseta vestida em fotos de promoção do filme As Sufragistas, que usava um slogan da sufragista Emmeline Pankhurst: “prefiro ser rebelde a escrava”. Isso foi atacado por “cooptar” a experiência negra da escravidão e do racismo e por ignorar as conotações de “rebelde” na Guerra Civil – mesmo embora a citação não tivesse nada a ver com a escravidão americana ou com a rebelião dos confederados e usasse ambas as palavras num sentido universal.

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“Trigger warning” (alerta de conteúdo engatilhador de ‘ansiedade marginalizada’) numa obra de Immanuel Kant. O “espaço seguro” está invadindo o mercado editorial. Via AJS .

Por trás desses arroubos de ira moralista está uma ideologia distinta mas meio amorfa que podemos chamar de “SocJus”. (A referência ao “IngSoc” do 1984 de George Orwell não é coincidência.) No centro dessa visão de mundo está o mal da opressão, a virtude das identidades “marginalizadas” – baseadas em raça, etnicidade, gênero, sexualidade, religião e deficiência – e a empreitada perfeccionista pela eliminação de tudo que os marginalizados puderem perceber como opressivo ou “invalidador”. A tais percepções se dá uma presunção quase absoluta de validade, mesmo se for compartilhada por apenas uma fração do “grupo oprimido”. Enquanto isso, os pontos de vista dos “privilegiados” – uma categoria que inclui brancos em desvantagem econômica, especialmente homens – são radicalmente desvalorizados.

Porque a SocJus é tão focada em mudar atitudes ruins e em desentocar vieses sutis e insensibilidades, sua hostilidade à livre expressão e pensamento não é um subproduto infeliz do movimento, mas sua própria essência. Você pode receber de braços abertos e ser respeitoso às pessoas transgêneros, mas ainda assim ser rotulado de preconceituoso se você não acreditar que mulheres trans que se identificam como mulheres mas têm uma anatomia masculina intacta são “mulheres de verdade” – e mesmo que você guarde essa opinião para si, você pode ser desafiado a provar sua lealdade partidária.

Obviamente, a retaliação contra opiniões impopulares não é limitada à SocJus, mas é difícil pensar em algum outro grupo político atual que seja tão impiedoso com ofensas verbais, mesmo as inadvertidas. No último outono, no Claremont McKenna College, Califórnia, a decana de estudantes Mary Spellman teve de se demitir depois de protestos. Seu crime: num email de resposta a um estudante que a havia contactado sobre questões raciais no campus, a srta. Spellman mencionou seu desejo de “servir melhor aos estudantes, especialmente àqueles que não se encaixam no molde da CMC”, supostamente insinuando que estudantes não-brancos não pertencem à faculdade.

Nenhum outro grupo é tão preocupado com a limpeza linguística. Uma discussão num fórum de justiça social defende a eliminação de palavras “capacitistas” como “louco”, “dumb” e até “deprimente”; no Smith College, no ano passado, a reportagem de um jornal estudantil sobre uma mesa-redonda (ironicamente, uma dedicada à liberdade de expressão) transformou “feroz e doido” na fala de alguém em “feroz e [injúria capacitista]”. Chamar alguém de “meu espírito animal” é desaprovado veementemente porque é uma “apropriação” de um conceito específico de algumas culturas oprimidas. Uma lista acadêmica de “microagressões” inclui perguntar “de onde você é?” a um estrangeiro ou elogiar o seu inglês.

O discurso SocJus – e o policiamento de pensamento – inclui o autopoliciamento. “Eu administro rigorosamente meu próprio pensamento e expurgo de mim pensamentos perigosos ‘impensáveis’ – faço ‘suicídio mental’ – frequentemente”, escreveu Arthur Chu, colunista e vencedor do programa de TV Jeopardy, numa discussão no Facebook em 2014. “É isso que você tem que fazer para ser um progressista feminista e antirracista, ou seja, um stormtrooper da justiça social”.

Alguns conservadores descrevem a SocJus como “marxismo cultural“; também foi comparada ao maoísmo, e particularmente à Revolução Cultural Chinesa, com seu foco na reeducação e confissões públicas de erros ideológicos. Mas, como a blogueira ateia Rebecca Bradley defendeu, o movimento também tem muitos elementos de uma seita religiosa apocalíptica que vê o mundo como cheio de pecado e iniquidade, exceto num pequeno grupo de eleitos. Um post popular no Tumblr, uma rede social eivada de SocJus, lamenta que “estar no Tumblr o tempo todo me dá uma visão tão iludida do mundo. Começo a acreditar que todo mundo é pró-escolha, de mente aberta, tem bússola moral… se importa com sexismo, racismo, body shaming, etc, mas então eu saio pela porta da frente e percebo que todo mundo ainda é tão idiota quanto já era dois anos atrás”. Essa é uma mentalidade clássica de seita.

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Participante de grupo justiceiro social LGBT no Facebook propõe luta armada. Via AJS .

Há uma palavra para ideologias, religiosas ou seculares, que buscam politizar e controlar todo aspecto da vida humana: totalitarismo. De forma diferente da maiora dessas ideologias, a SocJus não tem doutrina fixa ou uma visão utópica clara. Mas de certa forma, o fato de ser amorfa a faz mais tirânica. Enquanto todas as revoluções são propensas a devorar seus filhos, o movimento SocJus pode ser especialmente vulnerável à autoimolação: seu credo de “interseccionalidade” – múltiplas opressões sobrepostas – significa que os oprimidos estão sempre a um pequeno passo em falso de distância de se tornarem o opressor. Sua camiseta feminista super legal pode se tornar uma atrocidade racista num clique de mouse. E já que novas identidades “marginalizadas” podem sempre emergir, ninguém consegue dizer quais são as palavras ou ideias atualmente aceitáveis que pode ser excomungadas amanhã.

Os conservadores há tempos vêm protestando contra o ‘politicamente correto’; mas agora até alguns progressistas estão dizendo que o ativismo baseado na política de identidade, moralismo e intolerância contra a discordância e o erro é um beco sem saída.

A interseccionalidade também faz da SocJus singularmente vulnerável a conflitos e tensões internas. Como reconciliar crenças progressistas sobre gênero com uma “anti-islamofobia” que trata os defensores do fundamentalismo islamista misógino e homofóbico como simpáticas “pessoas marginalizadas”? De forma muito incômoda: em dezembro, no Goldsmiths College, Universidade de Londres, grupos feministas e LGBT se uniram em solidariedade com a Sociedade Islâmica, que reclamou que uma palestra da feminista iraniana e ex-muçulmana Maryam Namazie era uma violação do “espaço seguro”.

O movimento da justiça social tem muitos seguidores bem intencionados que querem fazer do mundo um lugar melhor. Mas a maior parte de seu “ativismo” é pouco mais que uma empreitada egocêntrica pela pureza moral. Quando se bane “louco” do vocabulário não se está melhorando os serviços de saúde ou oportunidades de trabalho para quem tem doença mental. Protestar contra um cantor branco fazendo “apropriação” de tranças afro ou do rap terá efeito zero nos problemas verdadeiros enfrentados pelos afro-americanos.

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Justiceiras sociais feministas incentivando umas às outras ao sexismo e ao ódio. Via AJS .

A influência da SocJus se espalhou para além da academia e de círculos ativistas. É uma presença forte no mundo tecnológico (um código de conduta popular para comunidades digitais explicitamente “prioriza a segurança de pessoas marginalizadas acima do conforto de pessoas privilegiadas”) e em subculturas geek, tais como os mundos de fãs de ficção científica e de quadrinhos.  Também domina boa parte das mídias online. Mas sua ascendência incontida pode estar com os dias contados.

Os conservadores há tempos vêm protestando contra o ‘politicamente correto’; mas agora até alguns progressistas estão dizendo que o ativismo baseado na política de identidade, moralismo e intolerância contra a discordância e o erro é um beco sem saída. Além disso, como argumentou Conor Friedersdorf em The Atlantic, a adoção que a esquerda fez da política identitária estimulou um crescimento alarmante da política de identidade branca na extrema direita. Não ajuda que o estigma contra o racismo perca a potência quando “racismo” pode significar o uso de um sombrero no Halloween.

Felizmente, uma reação mais individualista e culturalmente libertária também vem fermentando – exemplificada pela aclamada 19ª temporada de South Park, que fez do PC o seu tema central. Quem sabe? Se 2015 foi o ano do justiceiro social, 2016 poderia ser o ano da revolta antiautoritária.

* Cathy Young é uma jornalista americana nascida na Rússia (nome original Ekaterina Jung). Já escreveu extensamente sobre estupro e feminismo, é autora de dois livros e contribui com artigos para diversas e importantes publicações americanas.

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Tradução e revisão: Eli Vieira

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