Estudantes viram as costas para Charles Murray

Eis o último atentado contra a democracia. Aconteceu há mais de uma semana, mas não consigo tirar de minha cabeça.

Um grupo de estudantes conservadores da Middlebury College em Vermont, Estados Unidos, convidou o controverso autor Charles Murray para palestrar no campus sobre seu último livro, Coming Apart. Sua palestra foi interrompida, em seu lugar inicial, por um grito organizado, em seguida foi interrompida novamente depois de mudar para uma sala adjacente com transmissão online.

Quando Murray e sua interlocutora da faculdade, Allison Stanger, saíram para irem aos seus carros eles foram cercados por uma multidão que tentou impedi-los de deixar o campus.

Alguém, no meio da confusão, segurou Allison pelo cabelo e torceu seu pescoço com tanta força que ela teve de ir para a emergência (ela ainda está sofrendo com a contusão). Depois deles fugirem, o jantar em um restaurante local foi invadido pela mesma multidão, eles tiveram de deixar a cidade para comer.

Nada disso é surpreendente, dada a atmosfera atual na maioria dos campi americanos. Além disso, os protestos contra Murray são legítimos. O livro do qual ele é coautor com o professor de Harvard, Richard Herrnstein, mais de 20 anos atrás, The Bell Curve, incluía um capitulo sobre dados empíricos mostrando variações nas amplamente sobrepostas distribuições normais de pontos de QI entre grupos raciais. A provocação era atribuir essas diferenças ao ambiente e fatores genéticos. Os aspectos genéticos poderiam e foram explorados por racistas e fanáticos.

Eu não acredito que esse capítulo fosse necessário para os argumentos do livro, mas eu acredito no direito dos pesquisadores de boa-fé de publicarem seus dados, assim como no direito de outros em discordar, criticar e desmascarar. Se os ativistas de Middlebury tivessem protestado e interrompido o evento por um período de tempo, deixando-o prosseguir em seguida, eu seria altamente complacente com eles, embora raça e QI não tenham sido o assunto da palestra de Murray. Se eles tivessem questionado os dados ou os argumentos do livro, eu estaria encantado. Mas infelizmente não foi isso que eles fizeram (Devo acrescentar que sou amigo de Murray e Stanger – tendo editado um simpósio sobre o livro no jornal The New Republic há duas décadas e conheço Allison desde que éramos dois estudantes de graduação em Harvard).

Mas o que me chamou a atenção foi um vídeo, muito perturbador, de 40 minutos de duração, postado no YouTube. Ele traz o evento à vida de uma maneira que as palavras não conseguem. Perto do minuto 19, os estudantes explicam o motivo de terem interrompido a palestra e isso me ajudou a entender o que “interseccionalidade” quer dizer.

“Interseccionalidade” é a última onda das academias americanas. Em resumo, é a ideia neo-marxista que prega que a opressão social não recai sobre apenas uma categoria de identidade — como raça, gênero, orientação sexual, classe social, etc — mas para todas elas, em um sistema interligado de hierarquia e poder. Ao menos essa é minha melhor tentativa de definir rapidamente a ideia. Mas assistir àquele vídeo me ajudou a mostrar como teorias sociais desafiadoras podem operar na prática.

A coisa está operando, nas palavras de Orwell, como uma “pequena ortodoxia fétida” e se manifesta, para mim, quase como uma religião. A interseccionalidade postula uma ortodoxia clássica através da qual toda experiência humana é explicada e pela qual toda fala deve ser filtrada. Sua versão do pecado original é o poder de alguns grupos identitários sobre outros. Para sobrepujar esse pecado, você precisa primeiro se confessor, ou seja, “checar seus privilégios”, e subsequentemente viver sua vida e ordenar seus pensamentos de um modo que mantenha este pecado distante. O pecado entra tão profundamente em sua mente, especialmente se você for branco ou homem ou heterossexual, que uma profunda conversão é requerida.

Tal qual o puritanismo da Nova Inglaterra, a interseccionalidade controla o idioma e os próprios termos do discurso. Ela adota maneiras. A interseccionalidade tem uma ideia de virtude – sendo obcecada com sua manutenção. Os santos são os mais oprimidos que, apesar de tudo, resistem.
Os pecadores são categorizados em vários grupos ascendentes de danação demográfica, como algo saído da obra de Dante. A única coisa que falta nessa religião, claro, é a salvação. A vida é simplesmente um drama encravado de opressão, poder e resistência, terminando somente na morte. É Marx sem a libertação total.

A ideia também funciona como uma religião em outra dimensão: se você enxerga o mundo de outra maneira, se você é um liberal ou libertário ou até mesmo um conservador, se você acredita que a Universidade é um lugar onde qualquer ideia, por mais repugnante, pode ser debatida e refutada, você não só está errado como é imoral.

Se você pensa que argumentos e ideias podem ter um pouco de independência da “supremacia branca”, você é conivente com o mal. E você não é só conivente, sua heresia é uma ameaça direta a outros e, portanto, precisa ser extinta. Você não pode raciocinar com heresia. Você precisa banir. A coisa irá contaminar outras almas, ferindo-as irremediavelmente.

E o que eu vi no vídeo me atingiu como uma forma de ritual religioso – um exorcismo secular, se você preferir – que alcança um frenesi e que incomoda. Quando Murray começa a falar, os estudantes se calam e lhes dão as costas em silêncio. O herege não deve ser encarado, muito menos interagir com ele. Então eles recitam uma liturgia em uníssono, de uma folha de papel.
E começa assim:

“Não se trata de um discurso respeitoso, nem de um debate sobre a liberdade de expressão. Essas não são ideias que podem ser debatidas de forma justa, não são ‘representativas’ do outro lado para dar uma plataforma a ideologias tão perigosas. Não há um potencial de troca igual de ideias.”

Eles nunca especificam a quais ideias de Murray estão se referindo. Eles também não explicam por que uma palestra sobre um livro a respeito de desigualdade social não pode ser um “discurso respeitoso”. O palestrante está aberto a questões e há um membro da faculdade no palco para se envolver na discussão. Ela veio preparada com questões difíceis enviadas por especialistas na área. No entanto: “Nós… não podemos nos envolver com Charles Murray enquanto ele é conhecido por citar a si mesmo. Por causa disso, nós vemos isso como discurso de ódio”. Eles sabem disso antes de sequer uma palavra da palestra ter sido dita.

E então, isso:

“A ciência tem sido utilizada para legitimar o racismo, sexismo, classismo, transfobia, capacitismo e homofobia, todas apresentadas como racionais e como fatos, além de apoiadas pelo governo e Estado. Neste mundo de hoje, há pouco do que é um verdadeiro ‘fato’”.

Isso, pelo que me parece, chega ao cerne da questão – não que os estudantes tenham impedido uma palestra, mas o porquê de terem impedido. Eu não duvido das boas intenções. Mas, num estranho eco da direita Trumpiana, eles estão insistindo na superioridade de sua ortodoxia para “fatos”.

Eles são hostis, como todo fundamentalista, à ciência, porque pode contrariar a doutrina. E eles impediram o evento porque a interseccionalidade rejeita toda ideia de debate livre, ciência ou verdade independente do poder masculino branco. No fim desta parte da cerimônia, um indivíduo então grita: “Quem é o inimigo?” E a congregação responde: “A supremacia branca!”.

Eles expulsam o herege em um canto uníssono: “Hey hey, ho ho! Charle Murray tem que sair.” E depois: “Racista, sexista, anti-gay. Charles Murray, vá embora!”. O antigo trabalho de Murray sobre o QI demonstra não haver diferenças significativas entre homens e mulheres e Murray há muito apoia a igualdade no casamento. Ele é um forte opositor da eugenia. Ele é um libertário. Mas nada disso importa. Interseccionalidade, lembra?

Se você for condenado um pecador em um ponto, você é um pecador em todos eles. Se você acha que raça é um construto social e relacionado à genética, sua afirmação baseada em ciência é apenas uma outra forma de opressão. É de fato discurso de ódio.

Em um outro momento os estudantes começaram a bater palmas em conjunto, e você pode sentir a histeria crescendo conforme os cantos vão ficando mais altos. “Sua mensagem é ódio. Nós não vamos tolerar!” E o canto final “Encerra! Encerra!”. Parece algo saído de “Bruxas de Salém”.

A maioria dos estudantes nunca leu uma palavra sequer das obras de Murray – e muitos professores que apoiam o cancelamento admitiram isso. Mas o zelo da interseccionalidade é tão poderoso que ele deve ser banido – até mesmo ao ponto da violência física.

Isso é importante, ao que me parece, porque a razão e o debate empírico são essenciais ao funcionamento de uma democracia liberal. Nós precisamos de um discurso comum para deliberar. Nós precisamos de fatos independentes de ideologias pessoais ou visões políticas, se quisermos sobreviver como uma sociedade livre e democrática.

Trump certamente nos tem mostrado isso. E se uma universidade não pode permitir que estes fatos e argumentos sejam livremente avaliados, então nenhum local é seguro. Universidades são os santuários da razão. Se a razão deve se subordinar à ideologia até lá, nosso experimento em autogoverno acabou.

A democracia liberal está sofrendo de uma ferida da mesma forma que a Allison.


Enquanto isso, claro, o presidente Trump continua a atacar a verdade independente – neste caso, significantemente mais assustador, dada sua posição como o indivíduo mais poderoso do planeta. Ele também tem desprezo por qualquer fato que não se encaixe em sua ideologia ou auto-imagem.

É por isso que as mentiras que ele repete não são apenas momentos de desonestidade interesseira. Elas são feitas para erodir a noção de realidade empírica, independente da ideologia e poder. Elas são um ataque à própria razão. Uma mídia dirigida por fatos tem que ser desacreditada como “falsas notícias” se desafiarem a agenda de Trump.

Igualmente, uma burocracia projetada imparcialmente para implementar a legislação tem de ser deslegitimada, se sua neutralidade baseada em fatos desafiar a visão de mundo de Trump. E assim o “estado administrativo”, nas palavras de Steve Bannon, tem de ser “desconstruído”. Da mesma forma, um projeto de lei de saúde deve ser aprovado através de comitê antes que um comitê independente possa comprovar empiricamente.

A conclusão esmagadora dos cientistas do clima — que o carbono está aquecendo a Terra de forma irreversível — é simplesmente negada pelo novo chefe da EPA. O Poder Judiciário não pode ter uma postura legítima e independente se também for contra os interesses do presidente. Um juiz que se opõe a Trump é um “suposto” juiz.

Da mesma forma, a coleta de informações pode não ter validade se minar os interesses de Trump. De repente, torna-se “inteligência”. Ela pode ser ignorada. Pior ainda, as agências de inteligência são caluniadas como inerentemente políticas, ao invés de empíricas. Na semana passada, Trump foi ainda mais longe, alegando, sem nenhuma evidência, que o Departamento de Justiça liberou em uma escuta criminosa junto ao presidente Obama para atacar a candidatura de Trump nas últimas eleições. Talvez isso tenha sido concebido apenas como uma distração das mentiras acumuladas de seus substitutos de campanha sobre seus contatos com autoridades russas. Talvez fosse outra birra de temperamento de um homem sem capacidade de controlar suas emoções com a razão.

Mas eu tendo a pensar que Peter Beinart está mais perto da intenção. Trump estava deslegitimando o Departamento de Justiça para que ele pudesse rejeitar a conclusão de qualquer investigação sobre os laços de sua campanha com a Rússia como politicamente fraudulenta:

Ninguém vive no Monte Olimpo. Os advogados, juízes e jornalistas do governo são falíveis. Todos eles são vulneráveis ao viés e interesse próprio. Mas os presidentes anteriores geralmente lhes deram o benefício da dúvida. Presidentes anteriores assumiram, sem provas contrárias, que eles são motivados por padrões profissionais, e não por partidarismo. Trump não. Ele questionou a integridade do juiz Gonzalo Curiel e de vastas áreas da imprensa. E agora ele está se preparando para questionar a integridade dos oficiais de carreira investigando seus laços com a Rússia.

Eles são todos corruptos. Eles são todos agentes da oposição, parte da conspiração maciça para negar a Trump seu triunfo legítimo. E, assim, as normas independentes pelas quais julgam suas ações são uma farsa. Não há padrões independentes. Existe apenas a verdade que vem do próprio Trump.

Este é o vórtice ao qual estamos sendo conduzidos pelo presidente mais imprudente, irresponsável e malévolo da história deste país. É um vórtice onde a própria realidade deve subordinar-se a um lado político; onde os fatos são sempre instrumentos de poder e nada mais; onde toda a nossa Constituição, projetada para equilibrar o poder contra o poder para dar à verdade e à razão uma chance, está sendo deliberadamente corroída por dentro. Já passaram sete semanas. E o dano causado ao nosso modo de vida já é profundo e está se aprofundando.


Por Andrew Sullivan, em New York Magazine, 10 de março de 2017.
Texto originalmente traduzido para Liga Humanista Secular do Brasil.

Tradução: Adelino de Santi Júnior
Adaptação: Alysson Augusto

Contribua para a continuidade do Xibolete aqui.

Comentários

comentários


Esta tradução foi útil?:

4 votes, 3.5 avg. rating

Compartilhe: