“A Bolha Ideológica da Google”: o memorando que levou à demissão do autor

Resumo

Eu valorizo a diversidade e a inclusão, e não estou negando que o sexismo existe, e não endosso o uso de estereótipos. Ao lidar com a lacuna de representação da população, precisamos olhar diferenças a nível populacional nas distribuições. Se não pudermos ter uma discussão honesta sobre isso, então nunca resolveremos verdadeiramente o problema. A segurança psicológica é construída sobre o respeito mútuo e a aceitação, mas infelizmente nossa cultura da reprimenda e da deturpação do que foi falado é desrespeitosa e intolerante a qualquer um fora de sua bolha. Apesar do que a reação pública parece ter sido, recebi muitas mensagens pessoais de companheiros de trabalho da Google expressando sua gratidão por eu ter trazido à tona essas questões muito importantes, com as quais eles concordam mas nunca teriam coragem de dizê-lo ou defendê-las por causa da nossa cultura da reprimenda e da possibilidade de serem demitidos. Isso precisa mudar.

  • O viés político da Google igualou a liberdade de não ser ofendido à segurança psicológica, mas reprimir as pessoas ao silêncio é a antítese da segurança psicológica.
  • Esse silenciamento criou uma bolha ideológica onde as mesmas ideias são sagradas demais para serem discutidas honestamente.
  • A falta de discussão alimenta os elementos mais extremos e autoritários dessa ideologia.
  • Extremo: todas as disparidades na representação são devidas à opressão
  • Autoritário: devemos discriminar para corrigir essa opressão
  • Diferenças entre distribuições de características entre homens e mulheres podem explicar em parte por que não temos 50% de representação de mulheres na tecnologia e na liderança. A discriminação para atingir a representatividade igual é injusta, polarizadora e ruim para os negócios.

Background [1]

As pessoas geralmente têm boas intenções, mas todos nós temos vieses que são invisíveis para nós. Felizmente, a discussão aberta e honesta com aqueles de quem discordamos pode revelar nossos pontos cegos e nos ajudar a crescer, e é por isso que eu escrevi este documento.[2] A Google tem vários vieses e a discussão honesta sobre esses vieses está sendo silenciada pela ideologia dominante. O que está a seguir não é nem de longe a história completa, mas é uma perspectiva que precisa desesperadamente ser contada dentro da Google.

Os vieses da Google

Na Google, falamos tanto sobre o viés inconsciente em raça e gênero, mas raramente discutimos nossos vieses morais. A orientação política é na verdade um resultado de preferências morais profundas e, dessa forma, tendenciosidades. Considerando que a esmagadora maioria das ciências sociais, da mídia e da Google pende para a esquerda, devemos examinar criticamente esses preconceitos.

Vieses de esquerda

  • Compaixão pelos fracos
  • Disparidades são devidas a injustiças
  • Humanos são inerentemente cooperativos
  • A mudança é boa (instabilidade)
  • Aberta
  • Idealista

Vieses de direita

  • Respeito pelos fortes/autoridades
  • Disparidades são naturais e justas
  • Humanos são inerentemente competitivos
  • A mudança é perigosa (estabilidade)
  • Fechada
  • Pragmática

Nenhuma das duas está 100% correta e ambos os pontos de vista são necessários para uma sociedade funcional ou, neste caso, uma empresa funcional. Uma empresa que esteja muito profundamente na direita pode ser lenta para reagir, hierárquica demais, e pode confiar muito pouco nos outros. Em contraste, uma empresa que esteja muito profundamente na esquerda estará constantemente em mudança (desativando serviços muito amados), diversificará em demasia seus interesses (ignorando ou tendo vergonha de seu principal negócio), e confiará demais em seus empregados e competidores.

Somente os fatos e a razão podem lançar luz sobre esses vieses, mas no que diz respeito à diversidade e à inclusão, o viés de esquerda da Google criou uma monocultura politicamente correta que se mantém pela reprimenda aos discordantes, empurrados ao silêncio. Esses silêncio retira qualquer fiscalização contra políticas invasivas, extremistas e autoritárias. Para o resto deste documento, vou me concentrar na posição extrema de que todas as diferenças de resultados são devidas ao tratamento diferencial e no elemento autoritário que é necessário para na verdade discriminar para criar igual representação.

Um possível não-viés causa a lacuna de gêneros na tecnologia [3]

Na Google estamos ouvindo constantemente que os vieses implícitos (inconscientes) e explícitos estão prejudicando as mulheres na tecnologia e na liderança. Evidentemente, homens e mulheres vivenciam viés, tecnologia e o ambiente de trabalho de formas diferentes e devemos estar cientes disso, mas essa não é a história completa.

Em média, homens e mulheres são biologicamente diferentes de muitas formas. Essas diferenças não são apenas construção social, porque:

  • São universais nas culturas humanas
  • Amiúde têm causas biológicas claras e ligações à testosterona pré-natal
  • Pessoas biologicamente masculinas que foram castrados ao nascer e criados como meninas frequentemente ainda se identificam e agem como meninos
  • As características subjacentes são altamente herdáveis
  • Elas são exatamente o que preveríamos de uma perspectiva da psicologia evolutiva

Notem que eu não estou dizendo que todos os  homens são diferentes das mulheres das seguintes maneiras ou que essas diferenças são “justas”. Estou simplesmente afirmando que a distribuição de preferências e habilidades de homens e mulheres diferem em parte devido a causas biológicas e que essas diferenças podem explicar por que não vemos representação igual de mulheres na tecnologia e na liderança. Muitas dessas diferenças são pequenas e há uma intersecção significativa entre homens e mulheres, então não se pode dizer nada sobre um indivíduo dadas essas distribuições em nível populacional.

Diferenças de personalidade

Mulheres, em média, têm mais:

  • Abertura direcionada a sentimentos e estética em vez de ideias. As mulheres geralmente também têm um interesse maior em pessoas do que em coisas, relativamente aos homens (o que também é interpretado como empatia vs. sistematização).
  • Essas duas diferenças explicam em parte por que as mulheres preferem relativamente empregos em áreas sociais e artísticas. Pode ser que mais homens gostem de programação porque ela requer a sistematização e, mesmo dentro da engenharia de sofware [SWE], mais mulheres, comparativamente, trabalham com interface de usuários [front end], que lida tanto com pessoas quanto com estética.
  • Extroversão expressada como sociabilidade [gregariousness] em vez de assertividade. Também maior agradabilidade [agreeableness]. [N. do T.: são termos técnicos da psicologia da personalidade.]
  • Isso leva as mulheres a geralmente terem mais dificuldade de negociar salário, pedir por aumentos, serem assertivas e liderarem. Notem que essas são apenas diferenças em média e há intersecção entre homens e mulheres, mas isso é visto como apenas um problema das mulheres. Isso leva a programas excludentes como o Stretch [programa de metas de ação afirmativa interno à Google] e a muitos homens sem apoio.
  • Neuroticismo [termo técnico entre os “big five” componentes de personalidade] (maior ansiedade, menor tolerância a estresse). Isso pode contribuir para os níveis mais altos de ansiedade que as mulheres relatam no Googlegeist [programa de bem-estar de funcionários] e para o menor número de mulheres em empregos de alto estresse.

Notem que, ao contrário do que defenderia um construcionista social, as pesquisas sugerem que “maior igualdade de gênero no nível nacional leva a dissimilaridade psicológica entre as características de personalidade de homens e mulheres”. Porque quando “a sociedade se torna mais próspera e mais igualitária, as diferenças de propensões inatas entre homens e mulheres têm mais espaço para se desenvolverem, e a lacuna que existe entre homens e mulheres em sua personalidade se torna mais larga”. Precisamos parar de presumir que lacunas de gênero indicam sexismo.

Motivação por status maior em homens

Sempre nos perguntamos por que não vemos mulheres em posições altas de liderança, mas nunca nos perguntamos por que vemos tantos homens nesses empregos. Essas posições muitas vezes demandam horas longas e estressantes que podem não valer a pena se você quer uma vida equilibrada e satisfatória.

O status é a principal medida sob a qual os homens são julgados[4], empurrando muitos homens para esses empregos que pagam muito bem mas são menos satisfatórios, por causa do status que eles dão. Notem, as mesmas forças que levam homens a empregos lucrativos/estressantes na tecnologia e na liderança fazem com que os homens aceitem empregos indesejáveis e perigosos como mineração de carvão, coleta de lixo e combate a incêndios, e eles sofrem 93% das mortes relacionadas a trabalho.

Formas não-discriminatórias de reduzir a lacuna de gênero

Abaixo tratarei de algumas das diferenças na distribuição de características entre homens e mulheres às quais aludi na seção anterior, e sugerir formas de lidar com essas diferenças para aumentar a representação das mulheres na tecnologia sem recorrer à discriminação. A Google já está trabalhando em muitas dessas áreas, mas eu penso que ainda é instrutivo listá-las:

  • As mulheres em média apresentam um interesse maior em pessoas, e os homens em coisas
  • Podemos fazer a engenharia de software mais voltada a pessoas com programação em pares e mais colaboração. Infelizmente, pode haver limites ao quão voltadas a pessoas podem ser certas tarefas e a Google, e não deveríamos mentir para nós mesmos ou para estudantes que não é assim (alguns dos nossos programas para atrair estudantes mulheres para a programação podem estar fazendo isso).
  • As mulheres são em média mais cooperativas
  • Permitir àquelas pessoas que têm mais comportamento cooperativo que cresçam. Algumas atualizações recentes às Perf [ferramentas de performance da Google] podem estar fazendo isso em certa medida, mas talvez haja mais que possamos fazer. Isso não significa que devemos remover toda a competitividade da Google. Competitividade e autonomia podem ser características valiosas e não devemos necessariamente por em desvantagem aqueles que as têm, como foi feito na educação. As mulheres são em média mais propensas à ansiedade. Façamos a tecnologia e a liderança menos estressantes. A Google já faz isso em parte com seus muitos cursos de redução de estresse e benefícios.
  • As mulheres, em média, procuram mais por um equilíbrio entre trabalho e vida social, enquanto homens têm uma motivação maior para o status, em média
  • Infelizmente, enquanto a tecnologia e a liderança permanecerem como carreiras de alto status e lucrativas, os homens vão querer estar nelas, desproporcionalmente. Permitir e de fato endossar (como parte da nossa cultura) o trabalho em meio período pode manter mais mulheres na tecnologia.
  • O papel de gênero masculino é atualmente inflexível
  • O feminismo fez grande progresso ao libertar as mulheres do papel de gênero feminino, mas os homens ainda estão muito atados ao papel de gênero masculino. Se nós, como uma sociedade, permitirmos aos homens serem mais “femininos”, então a lacuna entre gêneros vai encolher, embora provavelmente será porque os homens vão deixar a tecnologia e a liderança por papéis tradicionalmente femininos.

Filosoficamente, eu não acho que devemos fazer engenharia social arbitrária na tecnologia só para fazê-la atraente para iguais proporções de homens e mulheres. Para cada uma dessas mudanças, precisamos de razões justificadas para por que ajudam a Google; isto é, devemos otimizar para a Google — com a diversidade da Google sendo um componente disso. Por exemplo, atualmente aqueles que estão tentando trabalhar por horas extras ou enfrentar mais estresse inevitavelmente vão tomar a dianteira e, se tentarmos mudar isso demais, pode ter consequências desastrosas. Além disso, quando consideramos os custos e benefícios, devemos ter em mente que os recursos da Google são finitos, de forma que sua alocação é mais um jogo de soma zero do que se costuma reconhecer.

O prejuízo dos vieses da Google

Creio firmemente na diversidade de gênero e racial, e penso que devemos nos esforçar por mais. No entanto, para atingir uma representação maior de gênero e raça, a Google criou várias práticas discriminatórias:

  • Programas, mentoria e aulas somente para pessoas de certo gênero ou raça [5]
  • Uma alta prioridade e tratamento especial para candidatos da “diversidade”
  • Práticas de contratação que podem efetivamente diminuir as exigências para candidatos da “diversidade” ao diminuir a taxa de falsos negativos
  • Reconsiderar qualquer conjunto de pessoas se não for “diverso” o suficiente, mas não mostrar o mesmo escrutínio na direção inversa (um claro viés da confirmação)
  • Traçar metas de resultados [OKRs] pela maior representação que podem incentivar discriminação ilegal [6]

Essas práticas são baseadas em pressupostos falsos gerados por nossos vieses e podem na verdade aumentar as tensões de raça e gênero. A administração sênior nos diz que o que estamos fazendo é a coisa certa tanto moral quanto economicamente, mas sem evidências isso é apenas ideologia de esquerda velada [7] que pode causar danos irreparáveis à Google.

Por que estamos cegos

Todos temos vieses e usamos raciocínio motivado para dispensar ideias que vão contra nossos valores internos. Da mesma forma que alguns na direita negam a ciência que vai contra a hierarquia “Deus > humanos > meio ambiente” (por exemplo, evolução e mudanças climáticas), a esquerda tende a negar a ciência sobre diferenças biológicas entre as pessoas (por exemplo, QI [8] e diferenças de sexo). Felizmente, cientistas do clima e biólogos evolutivos geralmente não estão na direita. Infelizmente, a ampla maioria das humanidades e cientistas sociais pendem para a esquerda (cerca de 95%), o que cria um enorme viés da confirmação, muda o que está sendo estudado, e mantém mitos como o construtivismo social e a diferença de salários entre gêneros [9]. A tendência de esquerda da Google nos faz cegos diante desse viés e acríticos quanto a seus resultados, que estamos usando para justificar programas altamente politizados.

Além da afinidade da esquerda àqueles que ela vê como fracos, humanos são geralmente enviesados em direção a proteger as mulheres. Como mencionado antes, isso provavelmente evoluiu porque os homens são biologicamente descartáveis e porque as mulheres são geralmente mais cooperativas e agradáveis que os homens. Temos extensos programas de governo e da Google, campos de estudo e normais legais e sociais para proteger as mulheres, mas, quando um homem reclama de um problema de gênero que afeta a homens, ele é logo rotulado como misógino e reclamão [10]. Quase toda diferença entre homens e mulheres é interpretada como uma forma de opressão das mulheres. Como em muitas coisas da vida, as diferenças de gênero são muitas vezes um caso de “a grama do vizinho é mais verde”; infelizmente, o dinheiro do contribuinte e da Google é gasto para regar apenas um lado do gramado.

A mesma compaixão por quem é visto como fraco cria o politicamente correto [11], que restringe o discurso e é complacente com autoritários politicamente corretos extremamente sensíveis que usam de violência e reprimendas para avançar a sua causa. Enquanto o Google não tem abrigado tais protestos esquerdistas violentos que estamos vendo em  universidades, as reprimendas frequentes nas reuniões informais de sexta-feira [TGIF, em que, por exemplo, a chefia partilha informações pessoais] e na nossa cultura criaram o mesmo ambiente psicologicamente inseguro de silêncio.

Sugestões

Espero que esteja claro que não estou dizendo que a diversidade é ruim, que a Google ou a sociedade são 100% justas, que não devemos tentar corrigir vieses existentes, ou que as minorias têm a mesma experiência que aqueles que estão na maioria. Meu ponto principal é que temos uma intolerância a ideias e evidências que não se encaixam numa certa ideologia. Também não estou dizendo que devemos restringir as pessoas a certos papéis de gênero; estou defendendo bem o contrário: tratemos as pessoas como indivíduos, não como apenas mais um membro de seu grupo (tribalismo).

Minhas sugestões concretas são:

Tirar o moralismo da diversidade

  • Assim que começamos a moralizar uma questão, paramos de pensar nela em termos de custos e benefícios, dispensamos qualquer um que discordar como imoral, e asperamente punimos aqueles que vemos como vilões para proteger as “vítimas”.

Parar de alienar os conservadores

  • A diversidade de pontos de vista é defensavelmente o mais importante tipo de diversidade, e a orientação política é uma das formas mais significativas e fundamentais pelas quais as pessoas divergem.
  • Em ambientes altamente progressistas, os conservadores são uma minoria que sente que deve ficar no armário para evitar a hostilidade aberta. Devemos encorajar aqueles que têm ideologias diferentes a se expressarem.
  • Marginalizar os conservadores é tanto algo não-inclusivo quanto geralmente ruim para os negócios, pois os conservadores tendem a ter mais conscienciosidade, que é necessária para muito do trabalho maçante e de manutenção que é característico de uma empresa madura.

Enfrentar os vieses da Google

  • Concentrei-me na maior parte em como nossos vieses turvam nosso pensamento sobre a diversidade e a inclusão, mas nossos vieses morais vão mais longe que isso.
  • Eu começaria por particionar os escores do Googlegeist por orientação política e personalidade para mostrar melhor como os nossos vieses estão afetando a nossa cultura.

Parar de restringir programas e aulas a certos gêneros ou raças

  • Essas práticas discriminatórias são tanto injustas quanto divisivas. Em vez disso, foco em algumas das práticas não-discriminatórias que delineei.

Ter uma discussão aberta e honesta sobre os custos e benefícios de nossos programas de diversidade.

  • Discriminar só para aumentar a representação das mulheres na tecnologia é tão enganoso e enviesado quanto exigir um aumento da representação das mulheres entre os sem-teto, entre as mortes relacionadas ao trabalho ou por violência, nas prisões e entre desistentes escolares.
  • Há atualmente muito pouca transparência sobre o tamanho dos nossos programas de diversidade, o que os deixa imunes a críticas daqueles que estão fora de sua bolha ideológica.
  • Esses programas são altamente politizados, o que aliena ainda mais os não-progressistas.
  • Estou ciente de que alguns dos nossos programas pode ser precauções contra acusações de discriminação vindo do governo, mas eles podem sair pela culatra pois incentivam discriminação ilegal.

Foco na segurança psicológica, não em diversidade de raça/gênero

  • Deveríamos nos focar em segurança psicológica, que tem mostrado efeitos positivos e não deveria (espera-se) levar à discriminação injusta.
  • Precisamos de segurança psicológica e de valores compartilhados para ganhar os benefícios da diversidade
  • Ter pontos de vista representativos é importante para aqueles que estão projetando e testando nossos produtos, mas os benefícios são menos claros para aqueles mais afastados da experiência de usuário [UX].

Desenfatizar a empatia

  • Ouvi muitos chamados por mais empatia em questões de diversidade. Enquanto eu apoio firmemente a tentativa de entender como e por que as pessoas pensam da forma que pensam, contar com a empatia afetiva — sentir a dor do outro — faz com que nos foquemos em casos anedóticos, favoreçamos indivíduos similares a nós, e tenhamos outros vieses irracionais e perigosos. Ser emocionalmente desengajados nos ajuda a raciocinar melhor sobre os fatos.

Priorizar a intenção.

  • Nosso foco em microagressões e outras transgressões não intencionais aumenta nossa sensibilidade, o que não é universalmente positivo: a sensibilidade aumenta tanto nossa tendência a ficarmos ofendidos quanto nossa autocensura, levando a políticas autoritárias. Expressar-se sem medo de ser cruelmente julgado é algo central na segurança psicológica, mas essas práticas podem retirar essa segurança ao julgar transgressões não propositais.
  • O treinamento sobre microagressões incorreta e perigosamente iguala a expressão à violência e não tem base em nenhuma evidência.

Abrir-se para a ciência da natureza humana

  • Uma vez que reconhecermos que nem todas as diferenças são construção social ou atribuíveis à discriminação, abriremos os olhos a uma visão mais precisa da condição humana, que é necessária se realmente queremos resolver problemas.

Reconsiderar a decisão de tornar o treinamento sobre viés inconsciente obrigatório para comitês de promoção

  • Não conseguimos medir até hoje qualquer efeito do nosso treinamento sobre viés inconsciente, e ele tem o risco de correção excessiva ou retaliação, especialmente se for obrigatório.
  • Alguns dos métodos sugeridos do treinamento atual (v2.3) são provavelmente úteis, mas o viés político da apresentação é claro pelas imprecisões factuais e os exemplos mostrados.
  • Passar mais tempo nos muitos tipos de vieses além dos estereótipos. Os estereótipos são muito mais precisos e adaptáveis a novas informações do que o treinamento sugere (não estou defendendo o uso de estereótipos, estou apenas apontando a imprecisão factual e o que é dito no treinamento).

[Notas]

[1] Este documento foi escrito na maior parte com a perspectiva do campus Mountain View da Google, não posso falar por outros escritórios ou países.

[2] Evidentemente, posso ser enviesado e apenas estar vendo evidências que apoiem meu ponto de vista. Em termos de vieses políticos, considero-me um liberal clássico e valorizo fortemente o individualismo e a razão. Eu ficaria feliz em discutir mais o documento e dar mais referências.

[3] Ao longo do documento, ao dizer “tecnologia” refiro-me principalmente à engenharia do software.

[4] Para relacionamentos românticos heterossexuais, homens são mais fortemente julgados pelo status e mulheres pela beleza. Mais uma vez, isso tem origens biológicas e é culturalmente universal.

[5] Stretch, BOLD, CSSI, Engineering Practicum (até certo ponto) e muitos outros programas internos e externos financiados pela Google são para pessoas com determinado gênero ou raça.

[6] Em vez disso, traçar metas [OKRs] do Googlegeist, potencialmente para certos grupos demográficos. Podemos aumentar a representação num nível organizacional fazendo dele um ambiente melhor para certos grupos (que seriam vistos em escores de enquetes) ou discriminar com base num status de proteção (que é ilegal, e eu já vi acontecendo). As OKRs de maior representação podem incentivar o último caso e criar batalhas de soma zero entre organizações.

[7] O comunismo prometeu ser superior ao capitalismo moral e economicamente, mas todas as tentativas se tornaram moralmente corruptas e um fracasso econômico. Como ficou claro que a classe trabalhadora das democracias liberais não queria derrubar seus “opressores capitalistas”, os intelectuais marxistas mudaram da luta de classes para política de gênero e raça. O cerne da dinâmica entre opressor e oprimido ficou, mas agora o opressor é o “patriarcado branco, hétero e cisgênero”.

[8] Ironicamente, os testes de QI foram inicialmente incentivados pela esquerda, quando a meritocracia significava ajudar as vítimas da aristocracia.

[9] Sim, num agregado nacional, as mulheres têm salários menores que os homens por uma variedade de motivos. No entanto, para o mesmo trabalho, as mulheres ganham o mesmo que os homens. Considerando que as mulheres gastam mais dinheiro que os  homens e que o salário representa a quantidade de sacrifício do empregado (por exemplo, mais horas, estresse e riscos), precisamos realmente repensar nossos estereótipos sobre o poder.

[10] “O sistema tradicionalista de gênero não lida bem com a ideia de os homens precisarem de apoio. Espera-se que os homens sejam fortes, que não reclamem, e que lidem com seus problemas sozinhos. Os problemas dos homens são mais frequentemente vistos como fracassos pessoais em vez de vitimização, devido à nossa ideia de agência baseada em gênero. Isso desencoraja os homens a chamar a atenção para seus problemas (tanto individuais como do grupo), por medo de serem vistos como reclamões ou fracos.”

[11] O politicamente correto é definido como “evitar formas de expressão ou ação que são percebidas como excludentes, marginalizadoras o ofensivas a grupos de pessoas que são socialmente desfavorecidas ou discriminadas”, o que deixa claro por que é um fenômeno da esquerda e uma ferramenta de autoritários.

 

***

N. do T.: Esta carta, escrita por um engenheiro de software experiente da Google, circulou internamente nas redes de funcionários da empresa até ser publicada pelo site Gizmodo. O site a publicou já a adjetivando pejorativamente. Até o momento, todas as publicações em português na imprensa tradicional e a maioria das publicações em inglês xingam o autor de machista, às vezes já nas manchetes. A incapacidade de separar notícia de opinião é assustadora e confirma os vieses discutidos pelo autor.

Por James Damore, engenheiro de software e pós-graduando em biologia pela Universidade de Harvard.

Tradução: Eli Vieira
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