Eticista Peter Singer: Google errou ao demitir James Damore

James Damore, um engenheiro de software na Google, escreveu um memorando em que argumentava que há diferenças entre homens e mulheres que podem explicar, em parte, por que há menos mulheres que homens nessa área de ocupação. Por isso, a Google o demitiu.

O CEO da Google, Sundar Pichai, mandou a seus funcionários um memorando dizendo que “muito do que estava naquele memorando era digno de debate”, mas que partes dele passam dos limites ao avançar “estereótipos danosos de gênero no nosso ambiente de trabalho”.

Pichai não especificou que seções do memorando discutiam questões que são justas de serem debatidas, e que porções passam dos limites. Isso seria difícil de fazer, porque o memorando inteiro diz respeito a se certos estereótipos de gênero têm base na realidade. Damore argumenta que há evidências para mostrar que as mulheres, comparadas aos homens, tendem a:

  • ser mais interessadas em pessoas
  • ser menos interessadas em analisar ou construir sistemas
  • ter maior ansiedade e menor tolerância a estresse
  • ter uma motivação menor pelo status
  • ser mais interessadas em equilibrar vida social e trabalho

Damore é cuidadoso em apontar que as evidências para essas alegações não mostram que todas as mulheres têm essas características em um nível maior que os homens. Ele diz que muitas dessas diferenças são pequenas, que há uma intersecção significativa entre homens e mulheres, e que “não se pode dizer nada sobre um indivíduo dadas essas distribuições em nível populacional”. Ele mostra isso com um gráfico, também. Ele diz que reduzir pessoas à sua identidade de grupo é ruim.

Há pesquisas científicas apoiando as opiniões expressadas por Damore. Há também bases para questionar algumas dessas pesquisas. Ao avaliar a ação da Google ao demitir Damore, não é necessário decidir qual lado está certo, mas somente se a opinião de Damore é algo que um funcionário da Google deveria ter permissão para expressar.

Eu acho que sim. Primeiro, como eu disse, não é alguma opinião distorcida e maluca. Há artigos sérios, publicados nos principais periódicos científicos revistos por pares, apoiando a opinião.

Em segundo lugar, ela lida com uma questão importante. A Google está certa em se preocupar com o fato de que grande parte de sua força de trabalho é masculina. O sexismo em muitas áreas do emprego é bem documentado. Os empregadores devem estar alertas para a possibilidade de que estão discriminando as mulheres, e devem tomar medidas para prevenir tal discriminação. Algumas orquestras agora conduzem seleções cegas — o músico toca por trás de uma tela, de forma que quem está julgando não saiba se estão ouvindo um homem ou uma mulher [tocando]. Isso levou a um aumento dramático no número de mulheres nas orquestras. Mais empresas deveriam considerar possibilidades de similarmente cegar a si mesmas, no ato de contratação, ao gênero dos candidatos.

Mas uma vez que tais medidas anti-discriminação tenham sido tomadas ao máximo, o fato de que uma força de trabalho numa indústria em particular é predominantemente masculina prova que houve discriminação? Não, se o tipo de trabalho oferecido provavelmente é mais atrativo para mais homens que mulheres.

Se a opinião que Damore defende está certa, isso será verdade para a engenharia do software. Se é, então seria questionável ir para além de evitar a discriminação nas contratações e promover uma política de dar preferência a mulheres acima de homens.

Isso não é o mesmo que dizer que seria impossível justificar. Por exemplo, em algumas profissões, ter modelos exemplares femininos é importante, e uma razão válida para dar preferência a mulheres, quando há outros candidatos que de outra forma são igualmente qualificados. Pode haver também outras razões, específicas de diferentes indústrias e profissões, para pensar que é desejável ter um equilíbrio mais paritário de homens e mulheres. Mas argumentos precisariam ser dados para isso, na área particular de emprego em que tal política fosse sugerida.

Então, numa questão importante, Damore ofereceu uma opinião que tem apoio científico razoável, e sobre a qual é improtante saber quais são os fatos. Por que, então, ele foi demitido?

Pichai, CEO da Google, diz que “sugerir que um grupo de nossos colegas têm características que os fazem menos biologicamente adequados para aquele trabalho é ofensivo e não OK”. Mas Damore explicitamente, e mais de uma vez, deixou claro que ele não estava reduzindo indivíduos a um grupo, e dessa forma não estava dizendo que todas — ou mesmo, necessariamente, quaisquer — mulheres empregadas pela Google como engenheiras de software fossem menos biologicamente adequadas para o seu trabalho que os homens. A Google é um empregador muito seletivo, e assim é muito provável que os processos de seleção da Google levaram à contratação de mulheres que são, em características específicas, não típicas de mulheres como um todo. O alvo do memorando de Damore era a ideia de que devemos esperar que mulheres integrem metade da força de trabalho da engenharia do software, que a Google deveria tomar medidas direcionadas a atingir esse resultado.

Pichai também cita o Código de Conduta da Google, que espera que “cada funcionário da Google faça o seu melhor para crair uma cultura de ambiente de trabalho que seja livre de assédio, intimidação, viés e discriminação ilegal”. O memorando de Damore não assediou ou intimidou ninguém, e numa sociedade que protege a liberdade de expressão não havia nada ilegal nele. Era enviesado? Para mostrar que era, seria necessário demonstrar que Damore foi enviesado ao selecionar certos estudos científicos que apoiavam sua opinião enquanto desconsiderou outros que fossem contra ela. Talvez tal argumento pudesse — ou devesse — ser feito, mas fazê-lo demandaria algum tempo e pesquisa. De qualquer forma, Pichai não tenta, nem mesmo de forma passageira, fazê-lo.

Ironicamente, o que Pichai fez, ao demitir Damore, é precisamente o contrário da passagem que ele cita. Ele criou uma cultura de ambiente de trabalho em que aqueles com opiniões como a de Damore serão intimidados a ficarem em silêncio.

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Peter Singer, 71, é um dos filósofos eticistas mais bem-sucedidos ainda em atividade no mundo, professor de bioética na Universidade de Princeton, autor de Ética Prática, entre outros bestsellers, e mais recentemente de Ethics in the Real World. Publicado originalmente em New York Daily News, 10 de agosto de 2017.

Tradução: Eli Vieira
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